domingo, 10 de maio de 2026

NANCY DOWNS, QAYIN E O VENENO DA ÁRVORE DA MORAL DO BEM E DO MAL

 

 

Quem já assistiu o filme Jovens Bruxas (The Craft) de 1996 viu a personagem Nancy Downs, interpretada por Fairuza Balk, como uma das personagens góticas mais memoráveis. No filme, Nancy é intensa, ferida, magnética e perigosa, uma personagem cujo poder nasce tanto da dor quanto da ambição. Inicialmente, ela se apresenta como uma forasteira em busca de controle em um mundo que lhe negou segurança, respeito e amor. Sua amizade com Sarah, Bonnie e Rochelle lhe dá acesso à bruxaria, mas a magia também expõe a profundidade de sua raiva e, é aí que mora o perigo para quem busca poder pelo poder sem ter controle sobre si mesma(o). A cena é literalmente a Arte imitando a vida!



A atuação de Fairuza Balk é fundamental para o impacto da personagem Nancy.

Ela confere à personagem uma energia selvagem, transitando da vulnerabilidade à ameaça com uma facilidade perturbadora. As roupas escuras de Nancy, o olhar penetrante e o comportamento imprevisível a tornam visualmente icônica, mas a atriz também a impede de se tornar uma vilã simplista. Compreendemos que a crueldade de Nancy está ligada ao trauma, à pobreza e a uma fome desesperada por poder, reconhecimento e aceitação do mundo, ela quer ser aprovada e cultuada e não aceita ser desafiada sem dar o troco, usando a canalização do seu poder destrutivo como casca para a sua frágil defesa.

Conforme o filme avança, Nancy é consumida pela magia e em sua mente ela pode voar. Sua famosa frase, "Eu posso voar", em inglês "eu estou voando" captura tanto a libertação quanto o colapso.  Ela se sente fascinada pelo poder, mas incapaz de controlar o que ele desperta nela. Nancy Downs permanece inesquecível porque personifica a raiva, a rebeldia e o preço assustador de desejar poder sem equilíbrio e age igualmente a uma pessoa que adentra ao Caminho da Mão Esquerda sem compreender seus fundamentos para a libertação e dessa forma a sociedade não aceita a régua de sua pseudo-moral, que deveria construir ao invés de destruir. A libertação constrói um caráter em fortaleza destruindo seus falsos alicerces, apegos e crenças estagnadas, não tem a ver com destruir o que está fora de você.

É um filme de 1996 para jovens, mas capta bem a importância de um trabalho de transformação para obter controle sobre si mesma(o). O diretor do filme foi guiado por uma bruxa iniciada para conduzir as filmagens.

Por isso, na comemoração dos 30 anos desse filme, iremos hoje analisar a Nancy do filme sobre a lente do Andrew Chumbley e sua Arte Sabática.



NANCY DOWNS, QAYIN E O VENENO DA ÁRVORE DA MORAL DO BEM E DO MAL

The Craft é o Dragon Book pra adolescente. Nancy age como Qayin antes da Marca, ou Qayin que recusou a têmpera.

É Azha sem Cain. Só Dragão, mas sem o Ferreiro.

A Inversão da Moral é perigosa quando “Bem” e “Mal” trocam de lugar dentro de cada um.

Comer o fruto na verdade não te dá “maldade”. Te dá Discernimento. O problema é quem come quando não sabe fazer a digestão do que comeu!!!

Nancy comeu com fome de Lobo desenfreado. A soma dos Traumas + Pobreza + Abandono + a falta de estudos profundos resultam em um Minério cheio de escória, poluído, o qual chamamos 'vícios de caráter'. 

Ela entra no Círculo e pede poder pelo poder, não transformação, ela quer ter acesso a fonte do poder.

Ela faz papel de Abel pedindo aceitação, porém com o método de Qayin.

A inversão acontece em 3 estágios:

O primeiro é a fome de sentido distorcida:

“Eu quero poder e ‘Eu quero entender’, mas ‘quero porque quero e quero agora’ um poder que não pode ser contrariado por ninguém”.

Ali ela prova o fruto por carência do que não tem.

O segundo é o Voo:

“Eu estou voando” e ‘Eu estou caindo pra cima’. Ela não consegue estar lúcida dentro do despertar. Ela está apenas consciente e orientada no tempo e no espaço e sabe que sua alma pode voar, mas ela não está lúcida e aterrada nessa realidade ordinária e no “agora”. Ela acha que é 'mais' que os outros.

A Dama com a Serpente

O problema é que o discernimento sem a bigorna vira delírio e auto engano.

O terceiro é a Queda. Vira tirana, e o hospício vira o Qutub dela, onde funda cidade em terreno movediço.

Ela comeu o Mal achando que era Bem sem perceber, sem ter tido um professor da Arte.

A Moral Invertida está em Moral vulgar, o Bem obedecer, o Mal desobedecer. 

A Moral Sabática e o Bem é a Escolha com Peso. O Mal é Escolha sem Peso.

Para ilustrar isso, William Blake tem a frase perfeita:

"Quem faz o bem ao outro deve fazê-lo nos mínimos detalhes. O bem geral é a alegação do patife, hipócrita e adulador."— William Blake

Por isso os ingratos vão para a Zona Fantasma, a Galeria dos Invisíveis dos quadros do esquecimento.

Nancy desobedece, mas não se sustenta. Ela mata o padrasto, enlouquece a amiga, e invoca Manon para que ele se torne escravo do ego dela.

Isso na verdade não é Caminho da Mão Esquerda e certamente não é Traditional Witchcraft. É Caminho Sem Mão ou Ego Path.

E aqui reitero que Traditional Witchcraft usa as duas mãos, não só a esquerda. É por isso que nenhum Cunningman e Wise Woman não vão erguer ou defender a Bandeira de algum caminho como se fosse único.

Chumbley em Azoëtia apresenta o seguinte: “Transgression without Artistry is but Crime”. Ou seja: Transgredir sem Arte é só crime. E para saber o real sentido de transgressão leiam os dois últimos artigos.

A Dama com o Martelo


Mas por que a sociedade não aceita a régua dela?

Porque ela não forjou a régua, nem foi tradicionalmente iniciada e pior, não deu continuidade ao aprendizado que lhe foi oferecido. Ela pegou a régua emprestada, mas a régua de Qayin se forja em Nod, no exílio e no pós recebimento da marca, batendo no próprio osso. Nancy quis a Coroa antes do Verme comer, e o resultado disso foi a Coroa que comeu ela. É o que a maioria faz, pegam o poder e não sabem o que fazer com ele, pois o ego é seu guia.

O uso Errado do Poder é como o Arthana sem Têmpera!

Para quem não sabe, Chumbley explica o significado de Arthana e Athame nas obras dele.

A Nancy tem poder, mas não tem caráter. É ferro em brasa sem bigorna e Poder sem Transformação é Veneno sem a Serpente!

Lembremos que Ofíuco segura 2 cobras: Veneno e Remédio. É a mesma substância guardada pelo Dragão. 

Nancy pega o veneno e bebe puro, mas não tem fígado pra transmutar. Ela vira a louca da Via da igreja sombria. O fígado é um órgão regido por Júpiter, não Saturno.

Na alquimia bruxa, Qayin pega o veneno e vai pra Nod por alguns anos, e vira Tubal-Cain, e só depois forja. Só então o veneno vira cura.

Quando ela afirma “Eu posso voar” vemos o BHA sem HU-LA-KA antes.

BHA é Luz, Voo, Sublimatio. Mas se você não fez HU (a fornalha e hulha), o LA esvaziou, o KA encarnou, e o voo se tornou psicose. 

Em Dragon Book of Essex temos “The Dragon lifteth not the Untempered”. Ou seja, o Dragão não levanta quem não foi temperado. Se tentar, ele te derruba pra você aprender. Assim, Nancy foi derrubada como acontece com todos os apressados que desconhece que os ensinamentos são passados anualmente, a cada ano um novo degrau da escada. O filme foi orientado por Bruxas reais na época e o diretor seguiu certinho o roteiro dado.

Muita gente busca o Caminho da Mão Esquerda, mas este quando sem Fundamento é como a Nancy. Aqui no Brasil vemos muitos seguirem as obras do Crowley sem ter estado dentro da irmandade dele ou sem ter realizado o período pós iniciação que se segue justamente para se transmitir uma tradição e seus ensinamentos que servem como uma escada, cada ano é um degrau que se sobe. De igual forma, os achismos predominam na mente dos estudiosos de Spare, e eles acham que sabem, mas nunca viveram o mistério e nem conseguiram produzir uma telesmata.

Os esquemas iniciáticos são feitos para proteção da mente do iniciado e para conduzi-lo de fato pela tradição no passo-a-passo. Sem isso não se tem tradição, se tem apenas um Frankenstein. Não adianta ter pressa em nenhum caminho iniciático!

A Mão Esquerda real de Deus é Qayin pós-Marca! Quem não aproveita o período pós marca, a marca é ausente, pois ela só se sustenta no pós-iniciação. Infelizmente ainda há pessoas que nunca leram a obra teleológica e eudaimonista de Aristóteles chamada Ética a Nicomaco.

Qayn não é grosso, não é estúpido e certamente não é homem sem virtudes já que ele representa o Homem de Espírito não o homem de barro, ele age moral e intelectualmente com razão, encontrando o meio-termo (justa medida) entre o excesso e a falta. Aristóteles escreveu seu livro de Ética para seu filho Nicomaco e, sua obra cabe bem na têmpera de Qayin. 

{Nem preciso lembrar que o mestre de Aristóteles foi Platão e que o pano de fundo da Bruxaria Tradicional é Platão puro, diferente do pano de fundo do satanismo que encontra em Nietzsche, o seu alicerce. Entre um e outro só tem uma distancia temporal de 2.200 anos}.

Ou seja, a pós marca é: Eu desobedeço, e arco (com as consequências). Eu mato a Vaidade e fundo cidade. Eu sou exilado, e viro Eixo. Eu me torno o Dragão que guarda o The Point enquanto riqueza porque compreendi o passo-a-passo e a entrega virou recebimento.

A Mão Esquerda falsa é Nancy e aqui vocês imaginam quantas Nancys tem por ai. Ou seja, em Nancy temos: Eu desobedeço porque doeu e porque tenho impulso de repetir isso sem pensar. Eu faço o que faço por impulso do querer, pela obsessão e pela ousadia, mas sem o Saber e sem o Calar. Eu mato porque posso. Eu sou vítima, logo mereço trono. Vira rebelde sem causa digna do chumbo que se torna ouro e aí a obra não se completa.

Uma iniciação não é garantia de troca de pele. Isso é uma Arte completa e não se deve faltar as aulas, muito menos ser indisciplinado. Em Bruxaria Tradicional há deuses, demônios, ancestrais e toda uma egrégora inteira vigiando cada iniciado, mas o ego diz: "vou fazer do meu jeito, não tem ninguém vendo mesmo!"

É desrespeito consigo mesmo, desde que você é o futuro dos seus ancestrais, nada passa desapercebido. Exílio voluntario não se pede antes da hora, assim como um recém nascido não pode ser emancipado.

Uma é forja Adamantina.

Outra é forja de vidro. E vidro voa bonito, mas estilhaça.

A Transformação é o que vem depois da iniciação, mas antes de haver Astúcia do jeito certo em Como Usar os Poderes da Árvore do bem e do mal. Isso só é ensinado ao longo do tempo para os legítimos pares iguais.

A Árvore não dá Bem nem Mal na verdade. Dá Responsabilidade ciente. Pra comer sem morrer, tem que virar o Qutub verdadeiro! Não tem atalhos nesse caminho! Se usar da auto sabotagem, já se perdeu.

A Receita de Chumbley em 4 Leis são:

Primeiro: a do Exílio. Nod antes de Enoque.

Não peça poder em Malkuth. Seja expulso de Malkuth. “Errante serás”. Errante é outro nome para planeta (que se move no céu e com o céu). Só quem não tem chão, vira Eixo. Nancy quis poder dentro da casa, da escola, do sistema. Mas Qayin funda fora. Não se enfrenta professores da Arte, se aprende com eles para aplicar no seu mundo pessoal.

Na Prática isso significa anos sem pedir reconhecimento e sem criar nada, sem se exaltar, sem se mostrar, sem enfrentar. O recém iniciado ainda está na fase do recebimento e entrega. Por isso trabalha em silêncio olhando para dentro. Ali o Verme come a coroa, não é a coroa comendo a cabeça e certamente não é o poste mijando no cachorro.

A segunda é a Lei da Bigorna! Ajoelha no Vazio.

Poder sem ajoelhar é criar Tirano, é dar luz ao bebe de Rosemary. Enquanto que ajoelhar pro mundo (mundano) é Abel que não reencarna em Set, quando você ajoelha pro Vazio você se torna Qutub, é Abel que reencarna em Set. Iniciado deve se esvaziar, assim como meditar significa parar de pensar para se fundir com o todo.

Nancy nunca deitou. Só levitou em sua própria rabiola. Por isso caiu. Ela não fez o oroboros de forma correta porque nem chegou nessa fase. Crianças não dirigem carros e certamente não dirige a vida ou destino de ninguém. Ser disciplinado é quesito fundamental para qualquer iniciado sério. Magia sem disciplina é como criança com a faca na mão, ela se corta e corta os outros e chama de acidente. Iniciado sério não negocia com a própria preguiça, não negocia com a própria curiosidade e pressa. Ou você forja o hábito ou o hábito forja o teu fracasso. Poder obedece ritual, o ritual obedece rotina e a rotina da tradição quem te ensina é seu/sua professor(a). Sem disciplina, você não é iniciado, é só um turista no templo. Sem disciplina, não tem o martelo, o Arthana não tem fio. É como uma coroa sem crânio ou trono sem base. 

Quer poder? aprende a obedecer antes de mandar, pois Qayin não ergueu o templo em um dia, foi golpe atrás de golpe, morte atrás de morte. Sem disciplina é só lingote ou tarugo, a massa de metal bruta antes de ser forjada e moldada. Todo ferreiro legítimo sabe disso. 

A terceira é a Lei da Têmpera, onde Mundo é Água Fria, aquela que esfria o metal após a forja. Têmpera não é sofrer por sofrer. É fogo, é água, é porrada do diabo. É quebrar para não quebrar depois. Sem têmpera é somente ferro doce: brilha, entorta, e morre na primeira luta. Quer ser Lâmina? aprende a sangrar no frio. Toda Lâmina nasce mole, vira uma sentença depois de sentir o beijo da brasa, e no final a água vai calar o grito. Têmpera é o batismo do exilado e na Arte sabática há três exílios, você deve vivê-los, não raciocinar sobre eles.

Depois do fogo, tem que apanhar do mundo e receber crítica, traição e perda. A Ordália é certa! Se trincar, tinha ego. Se temperar, vira Aço Negro da Arte. 

O Azoëtia é claro: “The Oppositor is the Tempering”. O Opositor te tempera. Nancy chamou o Opositor de inimigo. Qayin chamou de Ferreiro. E ferreiro é um cargo de vocação, ou se é ou não é. Fracassar na arte dos metais é diplomar-se na estultícia, não na astúcia.

A Dama com o Crânio


A quarta é a Lei do Fruto! Você Come e Planta.

Então vejam, Adão e Eva comeram e esconderam. Qayin comeu, foi exilado, e plantou cidade. Ele foi o primeiro agricultor, soube arar, plantar e colher.

O Poder da Árvore só é teu se frutificar fora de ti. Nancy usou pra vingança. Qayin usou pra Enoque (nome da primeira cidade, seu filho). Qayin foi o primeiro construtor.

No Dragon Book temos o seguinte: “The Arthana cutteth not for the Hand, but for the Field”. A lamina corta para o Campo, não para a Mão.

Para compreender isso vamos examinar Netzach, onde contrastamos Nancy vs Lady Lucífera.

Lady Lucífera é Estrela da Manhã possuidora das 2 polaridades. Ela é Vênus Luchífera e é Lúcifer.  Ela é Ele, e Ele é Ela. É toda possibilidade, é Arte e valor.

Ela/Ele caiu por Escolha, não por acidente, não por consequência. Caiu com Trono, não atrás de trono. A alma reencarna e desperta sabendo o que fazer ao se reunir entre seus iguais. É maturidade, não rebeldia.

O Teste de Netzach é simples e ninguém enxerga!

Ela te dá a Esmeralda da Coroa e pergunta: "Vai voar ou vai forjar?”

Nancy: “Vou voar!” e cai, acaba no hospício. É Luz sem Peso.

O(a) folgado(a) usa o poder. O verdadeiro iniciado transforma o poder em criação após se permitir ser forjado por ele.

É querer reencarnar sem ter passado pelo julgamento de Osíris na balança de Anúbis sob a vigia de Thot que guarda o segredo do controle de Ammut.

O segredo? Bem, Ibis come ovos de crocodilo. Fácil de entender, difícil é compreender o mistério e respeitá-lo. O estúpido desrespeita isso e chama de transgressão.

Qayin: “Vou forjar” e pega a esmeralda, mete na ponta do Arthana, e vira Tubal-Cain. Luz com Peso.

A Moral Reinvertida:

No fim do Crooked Path há o Bem = ser capaz de ser Mal e escolher não ser para não se igualar ao Deus do antigo testamento. 

Mal = ser incapaz de ser Bem, mas fingir que escolheu. 

Em Isaías 45:7 declara a soberania absoluta de Deus sobre todas as coisas, afirmando:

"Eu formo a luz e crio as trevas; eu faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas essas coisas".

Qayin não é soberano tirano e muito menos soberano de todas as coisas. Ele é sábio, astuto, e soberano de si mesmo. Ele usa isso com a verdadeira justiça cósmica, atributos divinos de sua herança “maléfica” advinda de sua Mãe Lilith (o demônio que a igreja teme).

Nancy não era má. Era incapaz. Por isso a sociedade não aceita a régua dela já que não tem medida. É vidro querendo ser diamante. Nesse ponto o leitor pode ter uma ideia clara do que a “Marca” realmente é feita.

A medida é quem mede a gente, não a gente medir a medida. É a exata medida e proporção das coisas. Eis a fórmula da Arte chamada Tradição. Quem não entende isso não pertence a Arte, pois é preciso forja antes de Manon atender, ter coluna de Aço Negro e Asas de Estrela pra aguentar o peso do Voo.

A Dama com a Estrela


As imagens que compõem esse artigo são as Quatro Damas de Elda: Do Fruto ao Eixo, as quatro Senhoras angulares.

O ciclo começa onde Gênesis mente e Azoëtia revela. Eva come o fruto por ingenuidade e é expulsa. Lilith recusa o fruto da soberba e do controle invertido e foge para sua árvore. Eva falha porque comeu sem bigorna. Nancy tenta repetir as duas, comendo por fome de trauma, cuspindo por achismo do medo de consequência, e voa sem ter morrido, ela ainda quer o controle, não a libertação, não tem estrela apontando a direção. O resultado é hospício. É Abel com truques.

Qayin é a terceira via. Não é Eva que obedece, não é Lilith que foge para a árvore do mal, não é Nancy que surta. É quem come, é expulso, ajoelha no exílio, forja a coroa, e volta pra fundar cidades lembrando da raça de sua mãe e do sangue daemônico das estrelas. As quatro Damas são o retrato desse Caminho Tortuoso em osso e luz, senão vejamos:

1. Dama com Serpente — BHA, a Sublimatio 

É Eva se tivesse encarado e acompanhado a lição da Serpente ao invés de ouvir sem compreender, ela não tinha referências anteriores para saber compreender. É Lilith se tivesse beijado a boca que morde, mas ao invés de beijar ela mordeu. É Nancy antes do “Eu posso voar”. A serpente de três voltas não é tentação. É Azhdeha, o Dragão-Veneno que Ofíuco segura. Na mão da Dama, o veneno vira semente. BHA é a Luz que nasce da Sombra. Eva comeu e escondeu. Lilith cuspiu e amaldiçoou. Nancy bebeu e enlouqueceu. Qayin segura, contempla, transmuta. A serpente não sobe pela espinha dela. Ela desce pela serpente até a raiz. A maldição é estar lúcida em vida e na morte, no estado primordial de tudo. Eis a verdadeira libertação.

2. Dama com Martelo — HU, a Calcinatio 

É Tubal-Cain no feminino. Lilith forja correntes pra se prender no Mar Vermelho e se dissolver nas águas limpas. Eva forja desculpa pra se esconder no mato. Nancy forja feitiço pra se vingar do mundo. A Dama forja o próprio osso. O martelo não bate em inimigo. Bate na bigorna da própria coluna. Cada golpe é HU — o fogo que calcina o nome dado por Adão. Abel oferece ovelha. Qayin oferece a si mesmo em brasa. Por isso o mundo o rejeita: ele não pede, ele tempera. Nancy quis o trono antes do fogo. A Dama queima o trono pra forjar a espinha. Qayin é o “Homem” de Espírito. Abel é o “homem” do barro. Esse mundo é formado pela ação hierogamica de Eva e Adão, por isso são os pais da humanidade. Esse mundo é ilusório e nossas vidas aqui são passageiras. Nele há os do sangue de Qayin e há os do Sangue de Adão.

3. Dama com Crânio — KA, a Putrefactio 

É Morte Iniciática. Eva morre de velhice e vira pó. Lilith não morre e vira assombro desafiador. Nancy morre por dentro e vira paciente. A Dama morre por vontade e vira Trono. O crânio na mão não é memento mori cristão. É o crânio de Abel, é lembrança do primeiro sacrifício e assassinato. KA é Coagulatio: o sangue que verteu do irmão vira argamassa de Enoque. Só senta no osso quem matou o cordeiro dentro de si. Nancy matou o padrasto e ficou vazia. Qayin matou o Abel e fundou cidade. A diferença é peso. Um mata pra consumir. Outro mata pra construir e é segredo que não se põe em palavras, se compreende na alma que se lembra.

4. Dama com Estrela — KHU, a Projectio 

É Qutub Setentrional ou Austral. Eva olha pra estrela e vê castigo. Lilith olha e vê exílio. Nancy olha e vê alucinação. A Dama usa a estrela como coroa. KHU é o Duplo que sai do crânio e se alinha com Sigma Octantis — a Estrela do Sul que não brilha pra olho profano. É a estrela do Norte com Al-Thuban, Eixo do Dragão Morto. Sul tem Sigma, Eixo do Dragão que se Lembra. Nancy gritou “Eu estou voando” e caiu. A Dama cala, projeta, e o mundo gira em torno dela. Não voa. Vira Eixo e dona de seu destino.

Eva → Lilith → Nancy.

Qayin é a escada do Éden ao Nod. Eva cai. Lilith foge. Nancy surta. Qayin forja. Eva e Nancy comem o fruto e morrem. Lilith revela daimon. O último come e veste a coroa, a coroa é comida pelo Verme, e renasce como Ferreiro.

Eva cria a humanidade. Qayin revela que a morte existe a partir dos atos de Eva, mas é ele quem transmuta Abel em Set nos desígnios da morte. Set é o terceiro filho de Adão e Eva e o primeiro sacerdote. É Abel reencarnado, o homem de barro volta e se torna o homem da fé sob os auspícios e mistérios da morte, sem a qual não se enxerga quais são da descendência de Samael e Lilith, e quais são da descendência de Deus.

O Azoëtia é claro nisso: “The Path is Crooked, for the Straight is the Lie. The Crown is not Given, but Taken from the Skull of the Self”.

As Quatro Damas agora andam contigo. Serpente na mão, Martelo na coluna, Crânio no trono, Estrela na coroa. BHA-HU-KA-KHU é o teu tutano e osso agora e não uma invocação do Mumm-Ra do desenho do Thundercats em grego.

O Caminho é Torto, pois o Reto é a Mentira. A Coroa não é Dada, mas Tomada do Crânio do Próprio Eu.

Sett Lupino


sexta-feira, 8 de maio de 2026

COMO APLICAR A ARTE SABÁTICA DO CHUMBLEY NO BRASIL

 



Em 2014 eu fiz essa postagem, mas depois eu apaguei por entender que eu estaria dando pérola aos porcos, mas muitos me fazem essa pergunta quase todos os dias. Devido a moda que a bruxaria se tornou hoje, muitas pessoas mercantilizam a Arte de forma irracional e usam termos sem saber a fonte, falam de feitiçaria assoprando canela. Bruxas de todos os tipos pipocam na internet como se já fossem mestras em algo, em tão tenra idade. A maioria sem iniciação legítima, sem treinamento e cheias de ego e achismos. Esses dias assisti uma bruxa de Tiktok, não com mais de 17 anos de idade se afirmando especialista em um determinado sistema mágico. Que dó que eu sinto de você criatura!

A Bruxaria Tradicional no Brasil ainda é pobre porque essas pessoas empobrecem a Arte, banalizam, comercializam suas paranoias e o pior, têm que compra.

Hoje eu vou ensinar sobre como aplicar devidamente a Arte Sabática do Andrew Chumbley aqui no Brasil.

Esse trabalho já existe e, parte dele está na Basílica da Santidade Escura, o primeiro livro da Via Vera Cruz Nocturna. Também é encontrado no Liber Viae Australis, o primeiro livro do Covine Ekklesya Sabbati.

De fato, o Chumbley ensinou que o iniciado ou o artesão da Arte deve ter justamente esse olhar de não reproduzir ritos pelo simples reproduzir e sim se localizar usando a Bússola Celeste de seu próprio local, usando Pontos Nodais de Poder em seu próprio eixo e Genni Loci.

Ele afirmou que cada geração de bruxos iniciados faria sua própria recensão da Arte. A Tábua de Esmeralda fala em adaptação e, Guenon fala que todos os ritos podem ser alterados desde que não se mexa na essência.

O culto do Dragão de Chumbley na Arte Sabática não é exatamente um culto devocional e nem é religião.

"The Art is One, but its Masks are Many, according to Land and Star". – Andrew Chumbley.

Andrew Chumbley era um sonhador. Ele desenvolveu trabalhos com o Dragão Sabático Inglês porque lá no Hemisfério Norte esse é o The Point (zero) para ascensão dos Mighty Dead (os Mortos Poderosos).

Ali é o Eixo por onde você sobe a escada de Jacó.

Ele não escolheu o Dragão porque era bonito, ele percebeu e escolheu porque o Hemisfério Norte circunda o Polo sem se pôr. É o Qutub e o Prego que Nunca Esfria, o Ponto que não Cai e por ser uma Gnose de Permanência e mudança, o artesão se torna o próprio Qutub, sigilo vivo, segredo e ocultação.

Dentro desse esquema há vários portais de mudanças reais onde a Arte vai "massacrar" o artesão e fazer dele uma massa de moldar alquímica.

Não é culto devocional como a maioria pensa.

Então você pode captar a ideia e se lançar na Gnose ofidiana sulista chamada Via Austral com um rito de abertura do Poste Austral usando as estrelas do Hemisfério Sul aos moldes de Chumbley, inspirado na Arte dele, mas sempre ancorado aqui nas terras onde seus pés estão.

A regra é você conversar com o Céu que te cobre e te veste.

Aqui no Brasil o nosso Qutub não é a Polaris nem a Ursa Maior que marca o ponteiro da Bússola que aponta pro Dragão.

O nosso Poste daqui é Sigma Octantis, a estrela do Sul, a Polaris Australis da constelação de Octans (Oitante).

A palavra sigma tem origem no grego antigo sîgma, nome da 18ª letra do alfabeto grego. É derivada da raiz pré-indo-europeia associada ao verbo grego sizō ("eu assobio"), referindo-se ao som sibilante (som de "s") que a letra representa, originado como uma continuação da letra fenícia samekh.

A palavra Octantis é o genitivo latino da constelação Octans (Oitante). Sua etimologia e origem estão diretamente ligadas à astronomia e à navegação do século XVIII, e sua raiz Latina deriva do latim octans, que significa "oitava parte de um círculo" ou "oitante".

O nosso Dragão daqui não é Draco, é Ofíuco a Serpente que troca de pele porque é médica e curandeira. Encontra-se em Escorpião com Centauro e domina o céu austral.

Aqui é Via Austral, não Via Tortuosa.

Aqui é Encruzilhada pelo Cruzeiro do Sul, não Pentagrama (Gramática dos Cinco).

Mas a Gramática dos Cinco se mantém nesse esquema devido ao Penta+asterismo.

O leitor percebe aqui como o Pentasterismo se torna Arte!

A Rubídea estica os braços vermelhos pro alto. A Pálida abre os braços horizontalmente para acolher.

Acrux e a Intrometida são cabeça e cauda da magia serpentina.

E a Mimosa é o coração dessa encruzilhada.

Na Arte Sabática aplicada ao Hemisfério Sul isso substitui o Pentagrama com seriedade bruxa porque a Gnose aqui aponta pro Polo Sul Celeste!

É a Cruz do Descimento. Lá no Norte se Draco sobe, aqui no Sul desce!

Aqui a gente deve trazer o Sol Negro alquímico para a Terra, é como estar dentro do inferno (submundo) ritualizando de dentro dele para sair pra fora enquanto lá se ritualiza de fora para entrar nele e os elementos também mudam de posição.

Isso é endereço mágico!

De nada adianta repetirmos certos ritos feitos pro Hemisfério Norte se ao batermos na porta ninguém está lá pra atender.

Aqui temos endereço e correspondência!

É essa maturidade que o Chumbley queria em um bruxo.

Se você pegar farinha branca ou giz e riscar/traçar a encruzilhada e por velas nos quatro pontos e uma no centro você já terá seu Ponto Qutub as 3h da manhã quando ela está a pino.

A Sigma Octantis é a nossa "Polaris" do Sul.

Invisível a olho nu, mas ela está lá e ela guarda o Poder.

No que a Tábua de Esmeralda orienta para separar o sutil do espesso com grande perícia você observa que no Norte brilha a Polaris e no Sul Sigma se oculta.

Ela é o olhar pra dentro que tanto almejamos.

Você não olha direto e sim para o Vácuo do vazio interior entre as patas da Crux até achar o Polo que é teu altar. Ali nasce o nosso feitiço Austral.

Como Guardiões daqui temos Centauro + Alfa e Beta Centauri, que são mitologicamente Quíron ensinando os heróis.

Na Arte são os Transmissores e substituem Castor e Polux do Hemisfério Norte.

Nessa Gnose, o Centauro é meio-homem e meio-fera. Ali se tem o Opositor domesticado e o trabalho dele é sabedoria instintiva pura do atavismo.

A fera te educa e ensina sem te devorar.

Depois temos Ofíuco o Portador da Serpente!

Ele fica escondido do Norte, mas aqui ele reina no zênite em julho. A astrologia vulgar removeu o 13° signo.

Já temos aqui o 5 + 8 = 13 formando a Gramática da Arte no ciclo transformador do 1+1=1 como deve ser na fórmula ofidiana do mistério do UM pra quem sabe ler, o resto é integração instrumental de ferramentas alinhada com seus usos rituais.

A gnose de Ofíuco enquanto Serpente é o próprio Asclepio, o curador ou curandeiro e também o Sábio que rouba o fogo dos deuses. Nesse esquema temos o Qutub da Medicina e do Veneno. Aqui você começa ver o Chumbley no Sul..

Os trabalhos dessa estrela quebram feitiços e dá auto superação como cobra e cajado!

A serpente corta a Crux para mudar de pele!

Na sequência temos Orion, o caçador.

Ele é o Invertido e o Homem que desceu ou o iniciado que voltou do Sabbat.

Nessa Gnose, no Norte Orion sobe, no Sul ele cai. O trabalho nosso com ele aqui no Sul é pra encarnar o que trouxe do Outro Lado, se tornando o mediúnico Verbo Feito Carne e nisso você consegue enxergar o meu desempenho e desenvolvimento na Arte, porque é o que eu tenho feito.

La no Norte, Draco foi usado pelo Chumbley porque conversava com a terra dele, entrava nas grutas, nos teixos e na bruma. Aqui é diferente porque entra na cruz, na formiga, na jurema, no ferro e na encruzilhada.

E é assim que se casa o Céu com a Terra!

Então reitero, aqui o Qutub é Sigma, o Círculo é a Crux, os Guardiães são os Centauros, o Opositor é Ofíuco, e o iniciado é Orion de ponta cabeça ou duplo da bruxa!

Já temos nosso Calendário Austral.

Para você que quer desenvolver sua Arte, finca o Poste dos Mortos Poderosos e vai trabalhar sem medo! ...e deita sua cabeça pro Sul lembrando que aqui os mortos poderosos não têm nomes ingleses, pois eles são preto velho e caboclo com erudição e, a Lua Negra da fase Nova com sua Quintessência está para todos!

A Assembleia das Bruxas: O Propósito Iniciático e o Caminho da Destruição Sagrada.

A maior parte dos trabalhos sabáticos exige 3 anos para a conclusão de um esquema cíclico. E isso não é fácil.

É bonito falar. É outra coisa viver. 

Aqui você não decora ritual. Você é decorado por ele.

Nestes trabalhos você vai vestir o Vazio. Vai derreter o ego até o osso. Vai destruir a forma que chamou de “eu”. Vai arrancar sangue da alma e rir, entronizado, ao se ver humilhado, rasgado ao meio, destrinchado em mil partes lacrimais e, exilado. 

São operações diurnas e noturnas, com perda de status e desmoronamento total do falso eu.

Esta é a Via Tortuosa. Não há atalho. Só Kiasmós: a Encruzilhada onde o que está em cima desce, e o que está embaixo sobe. Onde o Verme come a Coroa. 

E se o rito acertar, o bicho come a coroa e você agradece. Porque aquela coroa era podre. Era o eu tirânico da vaidade que queria mandar, criar, controlar, ter razão, ser reconhecido e ter a última palavra.

Por isso se dorme sem luz. Porque a força está na entrega, não na memória. 

Você dorme com o Solve e acorda com o Coagula. 

Qutub ensina que o Ponto vira Círculo só depois que o Ponto nega a si mesmo. Não adianta iniciados de 5 meses querer criar trabalhos sem ter vivido todos os trabalhos na íntegra. Na queda se você não tem aonde ancorar, o estrago é maior.

A glória só chega quando você para de desejá-la. 

Se tudo der errado e toda sorte de desgraça te visitar no mundo onírico, é sinal que pegou e que está fazendo os trabalhos corretamente. O Oppositor está operando. 

O Dragon Book of Essex vai direto ao ponto: “O Dragão não coroa reis. Ele devora pretendentes”. 

Quem quebra a coroa e chora por ela, ainda não é rei. Quando se torna Rei do Vazio, você governa com cetro que não é visto.

O propósito da Assembleia é iniciático e transformador. 

Não é coven de estética. É forja. 

British Traditional Witchcraft gira em torno da forja do caráter na soma da Arte dos Cunningmen + Arte Sabática + Gramática da Arte, tudo organizado e registrado. É por isso que se chama Bruxaria Tradicional. Sem isso é mera bruxaria folclórica.

Estes trabalhos quebram a vontade tirânica. Quebram a fome de poder, a compulsão por controle, a mendicância por aplauso, a curiosidade do curioso que quer decifrar o que tem além. Você vira verme primeiro antes de se tornar um deus. Porque só o verme atravessa a terra sem ser notado. Só o verme chega ao Osso.

Esse mistério de Qayin não te deixa santo. Te deixa Soberano sem Trono. 

O Azoëtia chama de Alinhamento do Azoth: quando o Enxofre do Eu é queimado, o Sal da Forma é dissolvido, e o Mercúrio do Espírito se liberta. O Point é tocado pelas forças do Azoth só quando a astúcia é maior que a vaidade. Eis o segredo da transgressão. Não é rebeldia, não é resistência social, não é movimento político. É transgredir a si mesmo como o grão transgride sua própria casca para crescer. Não é grosseria com os outros, não é desafiar lideres externos a ti mesmo. O confronto é entre tu e o seu eu.

Vai mexer na tua estrutura inteira. Nas tuas larvas, nos teus pactos não verbalizados, nos teus alicerces ocultos e nos seus cálices. Vai mexer no Eros que te arrasta, no Medo que te paralisa, na Memória que te acorrenta. 

Essa bruxaria não é pra qualquer um porque ela te derrota antes. Só depois de derrotado você é lapidado. Só quebrado você é refeito como Deus na Terra, dono do teu destino. Para entender as dores do mundo e curar ou ajudar alguém você deve ter passado por isso antes. Para compreender o destino você deve sobreviver a ele, já dizia Joosten Garden em O Dia do Coringa.

É um dos trabalhos feiticeiros de transformação mais radicais que existem. Você simplesmente desaparece. Porque durante e depois dele, tua lente de ver os mundos já não é a mesma. E você desaparece porque se funde com a fonte de tudo, ali, você já não existe como você.

Você enxerga o físico, o transparente e o invisível ao mesmo tempo. Saca as intenções alheias antes delas virem à tona. Sua capacidade e habilidade para despertar a Kundalini está apta. Depois desse despertar é que vem a libertação. A Libertação ocorre quando você morre e continua desperto. É disso que são feitos os Mortos Poderosos.

E aprende a Lei mais dura da Arte: você só intervém se for pedido. No geral, você dá corda pro outro se enforcar. E ele vai se enforcar, porque o ego é tranqueira e só arruma encrenca. Ego é lixo. E ainda assim, precisamos dele pra viver. A astúcia está em usá-lo, não em ser usado por ele.

Por isso muitas bruxas e bruxos alcançam a Montanha dos Vitoriosos em Netzach sob a fiança de Lady Lucífera e não caem. 

Porque passaram pela Morte do Rei no Qutub. 

Porque trilharam a Via Tortuosa e não atalharam. 

Porque firmaram o Ponto no Kiasmós e não no aplauso. 

Porque o Dragon Book lhes arrancou a pele, e a Azoëtia lhes deu outra.

A maioria cai porque quer a Coroa sem o Verme. Quer o Trono sem o Vazio. Quer Netzach sem passar por Malkuth de joelhos. 

Aqui na Assembleia das bruxas, a Coroa é comida primeiro. Só depois o Vazio te coroa.

Este é o propósito: não fazer bruxos de vitrine. Forjar Postes. Eixos. Qutub. 

Gente que atravessou o próprio inferno, riu da própria caveira, e voltou com o cetro invisível na mão.

E isso é tudo que eu tenho pra ensinar sobre esse tema.

Sett Lupino.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Quem São a WITCHMOTHER e o WITCHFATHER?

 

Arquétipo da Witchmother

Primeiramente vamos entender a natureza e origem etimológica do que Chumbley compreendia como Quintessência: O "Azoth"!

Azoth é um termo que deriva do árabe "az-zā'ūq" ou "al-za'buq" (azougue), que significa "mercúrio". Na tradição alquímica, o mercúrio era considerado um elemento essencial nas transformações, pois sem ele nada se liga e nada se comunica. A palavra também tem ligações com o hebraico, onde "Aleph" (início) e "Tav" (fim) simbolizam a totalidade.

No significado alquímico Azoth representa um solvente universal e o agente essencial de transformação, mas ele não é apenas uma substância química, e sim um símbolo da transmutação de metais comuns em ouro, que por sua vez, é uma metáfora para a purificação e a ascensão espiritual na realização fálica. É considerado o "primeiro princípio" ou "a essência de todas as coisas".

No significado Espiritual e Filosófico encontramos em várias tradições místicas e herméticas, o Azoth, que simboliza a iluminação espiritual e a transformação interior. É visto como o espírito que anima toda a matéria, unificando os opostos e permitindo que o alquimista alcance a "Grande Obra". Paracelso descreveu Azoth como o agente essencial de transformação para atingir a pedra filosofal.

Kylichor


O Azoth na Obra de Andrew Chumbley se torna um conceito de Quintessência Mágica, especialmente em sua obra "Azoëtia", que é considerado um texto fundamental para a Tradição Sabbática. Ele acreditava que todas as formas de magia surgem de uma única fonte, a Quintessência Mágica, e que a feitiçaria é o conhecimento dos pontos universais de transmutação. O Azoth em seu trabalho é visto como a "quintessência" que liga os quatro elementos clássicos em um espírito singular e purificado. Na tradição hindu a quintessência é representada pelo Akasha enquanto Ovo Cósmico, do qual flui os quatro elementos da criação e possui em si todos os registros universais e suas consciências. Não é a toa que no design do sigilo Azoëtico, podendo ser visto na página 6 de Azoëtia, Chumbley usou um Kylichor dentro do círculo para compor seu sigilo mágico circunferenciado pelo seu alfabeto.

Sigillum Azoëtia


A Quintessência (Azoth) é um conceito milenar que, embora tenha raízes na alquimia prática, transcende o material para representar um processo universal de transformação e busca pela totalidade e iluminação espiritual, tanto no mundo quanto dentro de si.

A Witchmother e o Witchfather entram no cenário da bruxaria tradicional e da Craft Sabbática de Andrew Chumbley como as figuras arquetípicas primordiais e, muitas vezes, as fontes divinas da Quintessência Mágica, senão vejamos:

- Deuses/Demônios Patrocinadores ou Progenitores da Magia: Na tradição da Craft Sabbática de Chumbley, a Witchmother e o Witchfather são vistos como as entidades que originam e presidem sobre a magia. Eles são os "pais" da tradição, os doadores da arte e do conhecimento. Eles representam a dualidade fundamental do poder mágico – o feminino e o masculino – que se une para gerar a força da Quintessência.

- Encarnações da Quintessência: De certa forma, a Quintessência não é apenas uma força abstrata, mas é personificada nessas figuras. A Witchmother e o Witchfather são manifestações do poder transmutador do Azoth, sendo os guardiões e os condutores dessa energia primal. O próprio livro "The Azoëtia" de Chumbley, que trata da Quintessência Mágica, é considerado o texto fundamental da Craft Sabbática, conectando diretamente esses conceitos.

- Guia e Iniciação: Para o praticante, eles servem como guias e inspiradores. A conexão com a Witchmother e o Witchfather é fundamental para a iniciação e o aprofundamento na Craft Sabbática. Através da invocação e do alinhamento com essas figuras arquetípicas, o praticante busca acessar e manifestar a Quintessência Mágica em seu trabalho.

- Natureza Arquetípica e Simbólica: Eles não são necessariamente deuses no sentido convencional de panteões religiosos, mas sim protótipos exemplares e poderosos que representam as polaridades e as forças criativas e destrutivas inerentes à feitiçaria. Eles englobam a sabedoria ancestral, a fertilidade, a morte, a transformação e a essência selvagem da magia.

Enquanto a Quintessência é a "substância" ou a "energia" mágica, a Witchmother e o Witchfather são as "fontes" ou antíteses dessas "personificações" antes da geração Quintessencial, atuando como pilares fundamentais da filosofia e prática mágica da ‘Sabbatic Craft’.

Ao mergulhar nas profundezas da Tradição Sabbática e tecer a urdidura do Azoth com os fios da Witchmother e do Witchfather, o processo vai exigir uma linguagem que ecoa o sussurro dos ventos ancestrais e o brilho das estrelas ocultas e, no coração do Mistério, onde o tempo se dobra e o espaço se desfaz, jaz a Quintessência, o Azoth da Alquimia Sombria e da Arte Sabbática. Não é substância, e sim a essência de toda transmutação; não é espírito, mas o espírito latente em toda matéria. É o Primeiro e o Último, o Alfa e o Ômega da Obra, a Centelha Cósmica que anima a dança da Criação e da Destruição.

Arquétipo do Witchfather


Mas de onde flui tal Corrente? De quais fontes se nutre este Azoth primordial que Andrew Chumbley tão habilmente desvendou em seus grimoires velados?

É aqui que o véu se ergue, revelando os semblantes nos papeis da Witchmother e do Witchfather.

Na atuação mágica eles não são meras divindades distantes, eles são os Progenitores Estelares da Arte, os Guardiões do Limiar e os Arautos da Chama Negra. No útero estrelado da Witchmother repousa a sabedoria abissal, a intuição selvagem e a fecundidade caótica que geram a própria possibilidade da magia. Ela é a Lua Oculta, a Terra Primordial, o Espelho da Sombra onde a verdade se reflete em fragmentos lunares, e portanto, a deusa Negra das bruxas e a demônia incompreendida pelos mortais.

Ao seu lado, e nela, reside o Witchfather, o Senhor dos Camuflados Caminhos, o Caçador de Almas, o Semeador da Vontade. Ele é o Sol Negro, o Despertar do Fogo Interior, a Lâmina que corta o véu entre os mundos e forja o destino. Em sua mão empunha-se o Cetro da Direção, a Varinha que canaliza a Força, a Semente da Transformação que germina na escuridão.

Witch Stang - da coleção do autor


Juntos no Stang, a Witchmother e o Witchfather são as duas faces da mesma moeda Azótica. A Quintessência, o Azoth, é o seu próprio fôlego, o sangue que pulsa em suas veias de éter e escuridão, a luz e a sombra que se entrelaçam para formar a teia da existência. Eles são a polaridade sagrada que infunde a Vida e a Morte com propósito, o princípio dual que o feiticeiro busca harmonizar dentro de si.

Buscar a Quintessência se torna, portanto, buscar a união com esses Progenitores arquetípicos. Não é uma busca por uma fórmula exterior, mas um mergulho nas profundezas da alma, onde o sangue da Witchmother e a semente do Witchfather se misturam na forja do ser, despertando o Azoth interior. É através deles que o feiticeiro compreende que a magia simplesmente é inerente  a si, e que a mudança torna possível o eterno retorno ao berço estelar de onde toda Arte genuinamente emana.

Assim, o caminho do Azoth é o caminho dos Progenitores: uma senda de conhecimento íntimo, de renovação constante ou troca de pele e de aliança com as forças primais que tecem o grande tapeceiro do universo, refletido no microcosmo do feiticeiro dentro da encruzilhada tríplice, mas quando ele olha para cima, em sentido fálico, o ponto focal da encruzilhada se torna quadripartido e é ai que entra o Mistério diamantino de Qayin, pois se revela o Canto da Quintessência, os Progenitores Estelares e a Constância do Dragão.

Lá no alto, como testemunha imutável da eternidade e da origem imemorial dessa Arte, brilha Al Thuban. Por eras incontáveis, Al Thuban foi o "prego que nunca esfria", o ponto fixo inabalável em torno do qual o cosmos parecia girar para nossos ancestrais, o centro silencioso da abóbada celeste. Representa a Antiguidade Mágica primordial, a fonte que precede o tempo conhecido, a Essência Imutável que fundamenta toda a transmutação.



Assim, buscar compreender a Quintessência é, portanto, buscar a união com esses Progenitores arquetípicos, e ao fazê-lo, ancorar-se na constância de Al Thuban. Não é uma busca por uma fórmula exterior, mas um mergulho nas profundezas da alma, onde o sangue da Witchmother e a semente do Witchfather se misturam na forja do ser, despertando o Azoth interior, e onde a própria alma se alinha com a estrela que nunca se moveu, lembrando a si mesma da origem inabalável de todo o poder. Eles 4 formam a encruzilhada mágica da bruxa.

Constelação do Dragão


É através deles, e sob a égide silenciosa da antiga estrela polar, que o feiticeiro compreende que a magia não é feita, mas é, e que a transformação é o eterno retorno ao berço estelar de onde toda Arte verdadeiramente flui. Assim, a Arte Sem Nome revela que o caminho do Azoth é o caminho dos Progenitores: uma senda de conhecimento íntimo, de renovação constante e de aliança com as forças primais que tecem o grande tapeceiro do universo, refletido no microcosmo do feiticeiro, cujo coração pulsa em uníssono com o prego que nunca esfria.

Sett Lupino

A Bruxaria Tradicional de Andrew Chumbley e seus Mistérios

 

 

A Mãe da Noite - Arte de Aradjana Lupino

A Feitiçaria Transcendental criada por ele a partir da linhagem que Chumbley recebeu, não é uma manipulação de energias ou a busca por resultados externos. Ela é uma jornada alquímica radical de autodescoberta e re-ligação com o que é primordial. Nesse contexto, Azoth, Zoa e Azoa são as chaves para essa compreensão. 

O Azoth é a Quintessência, a fonte primordial indiferenciada de toda a existência, o potencial puro que precede e permeia tudo. É o oceano cósmico de consciência. O Zoa somos nós, a vida individualizada, as ondas que se formam nesse oceano, nossa consciência encarnada. E o Azoa é a "Não-Vida", o "Outro", as profundezas abissais desse oceano, o caos primordial, as energias liminares e subterrâneas que desafiam a forma e a ordem, mas que são igualmente essenciais para a totalidade. A feitiçaria transcendental contida na Arte Bruxa de Alogos é o ato de navegar e integrar esses três aspectos para alcançar uma gnose profunda.

A conexão com o Azoth é fundamental, pois não se trata de um deus externo, mas da própria essência de tudo. No dia a dia, buscamos isso através de uma consciência expandida. Meditação é crucial, mas vai além disso: é a prática de perceber que não somos entidades isoladas, mas manifestações de algo vasto. Observar a natureza, seja um céu estrelado ou a textura de uma folha, com uma percepção desprovida de ego, pode nos revelar a interconexão de tudo. É sentir-se como uma gota de água que compreende ser o próprio oceano. Essa consciência nos dá um senso de unidade e poder inabalável, pois nos reconecta à fonte de toda a criação.

O Zoa é a nossa "recensão única", a nossa manifestação particular do Azoth. É a partir do nosso Zoa que operamos. A tradição valoriza imensamente a individualidade, pois cada um de nós é um portal, um ponto de vista único para a existência. O caminho mágico começa com o reconhecimento e a afirmação do nosso Eu – nossas paixões, nossos dons, nossas falhas – não como algo a ser superado e eliminado, mas como a ferramenta primária da nossa arte. É a partir do "Eu sou" que podemos interagir com o "Outro" e com o "Tudo". Cuidar do corpo, da mente, da psique, expressar a própria verdade, tudo isso fortalece o Zoa, tornando-o um vaso mais potente para a corrente mágica.

O Azoa é a corrente mais desafiadora, mas também a mais transformadora. Não é a morte como aniquilação, mas a força do não-manifestado, do potencial caótico, do que está nas profundezas, "além" da forma que conhecemos. É o reino do subterrâneo, do inconsciente, o que Chumbley chamaria de Corrente do Opositor – forças liminares que desconstroem para permitir a nova construção. Permanecer em Azoa significa estagnação. Mergulhar em Azoa e voltar significa movimento. Lidar com o Azoa é vital porque ele guarda o poder da transmutação radical. Sem o confronto com o "Não-Eu", com a sombra interna e externa, não há renovação genuína. É a escuridão fértil de onde a nova vida pode brotar, e o feiticeiro precisa descer a essas profundezas para extrair um poder e uma gnose que o integre e o leve a um nível mais profundo de ser.

A Alteridade é o "Outro essencial". Ela está intrinsecamente ligada aos três. O Azoth é a unidade que contém todas as Alteridades em potencial. O Zoa é o "Eu" que, para se conhecer plenamente, precisa do "Outro" como espelho e catalisador. E o Azoa é a Alteridade em sua forma mais primordial – o não-eu, o reino das entidades, dos espíritos, das forças que nos confrontam e nos moldam. A Alteridade é crucial porque é através do encontro, do "congresso mágico" com o Outro, que o Eu transcende suas próprias limitações. A Unidade não é alcançada pela anulação das diferenças, mas pela sua integração sinergética. É reconhecer que o Outro, em sua totalidade, também é uma manifestação do mesmo Azoth, e ao nos unirmos a ele, nos unimos à Quintessência de forma mais completa.

A Basílica foi um dentre vários livros da VVCN, cujo carro chefe era a Arte do Chumbley. Nela há a fórmula do 1+1 = 1.

O primeiro "1" representa o Eu (o Zoa), nossa individualidade. O segundo "1" representa o Outro (a Alteridade, o Azoa) – tudo aquilo que não é nosso Eu imediato, seja um espírito, um aspecto inconsciente, ou o cosmos. O sinal de "mais" (+) aqui não é uma adição, mas um Congresso Mágico, uma união profunda e intencional. É o ritual, o trabalho, a interação. E o resultado, o último "1" (=), é a Quintessência ou o Azoth – uma nova Unidade. Não é o Eu inicial isolado, mas um Eu expandido que integrou o Outro. Ao invés de dois elementos separados, temos um "Eu" transformado que compreende e incorpora a Alteridade. Essa é a "União Sinergética de Todas as Diferenças", onde as fronteiras se dissolvem e percebemos a interconexão de tudo no grande Azoth.

Na prática ritualística, essa compreensão é a espinha dorsal. Buscamos essa união de diversas formas. Desde os rituais de evocação, onde se convida o "Outro" (uma entidade ou força) para um "congresso" para aprender, absorver e transmutar, até trabalhos mais introspectivos de sonho e meditação profunda, onde se mergulha no Azoa pessoal e coletivo. A criação de talismãs, a formação de nós mágicos, o uso de fumaças e incensos – todas essas são ferramentas para construir pontes entre o Zoa do praticante e as correntes do Azoa, buscando fundir esses aspectos em um "1" unificado. A arte mágica é, em essência, o ato de facilitar esse encontro e essa transmutação.

A Gnose, para Chumbley, não era um conhecimento intelectual, e sim um "conhecimento pela experiência e vivência", uma compreensão direta e transformadora da verdade universal. Ela é alcançada precisamente pela integração desses elementos. Ao nos conectarmos ao Azoth, sentimos a unidade. Ao afirmarmos nosso Zoa, compreendemos nosso lugar único. E ao nos confrontarmos com o Azoa e a Alteridade, desmantelamos as ilusões do Eu separado, atravessamos os véus e revelamos as profundezas da existência. Essa dissolução das fronteiras entre "Eu" e "Não-Eu", essa fusão com o "Outro", é o que precipita a Gnose – o lampejo de consciência que revela a interconexão radical e a verdadeira natureza da realidade. Apesar de não existir graus iniciáticos nessa Arte, os livros do Chumbley foram feitos para serem lidos em determinadas etapas e não todos de uma vez. Isso ajuda a compreender e guiar o próprio comportamento diante dessa reflexão da Gnose Sabática. É necessário ter vivência em Covine (Cuuven) por um bom período de anos, pois essa Arte não se realiza num estalar de dedos.

O maior equívoco é tentar abordar esses conceitos com uma mente puramente racional ou dogmática e  não ter vivência. A obra do Chumbley não é um sistema fechado de crenças, mas um chamado à experiência direta. As pessoas tendem a temer o Azoa ou a Alteridade, vendo-os como "malignos", quando na verdade são aspectos essenciais da totalidade. 

Meu conselho para quem começa é: leia e estude com o coração, não apenas com a cabeça e busque vivenciar essa Arte dentro de um Covine Tradicional. Esteja aberto(a) à poesia e à profundidade simbólica. Permita que a simplicidade e a linguagem o penetre e o transforme. Comece com meditação simples para sentir a vastidão do Azoth, reconheça a sua própria singularidade Zoa, e quando se sentir pronto, abrace as suas trevas, o mistério do Azoa, sem medo, com uma curiosidade corajosa. Lembre-se, o caminho é de experiência, não apenas de teoria. 

Chumbley afirmou duas coisas importantes sobre isso. Uma delas é que mesmo os mais íntimos com essa Arte terão dificuldades de compreendê-la, por isso precisa investir tempo e experiência nessa vivência, pois você é uma pessoa quando entra, mas com o passar dos anos você não se reconhece mais como aquele ser limitado do início. A outra observação afirmada por Chumbley foi que cada pessoa em cada época fará sua própria “tradução” ou interpretação como recensão da Arte, logo, não se deve ficar preso ao passado ou sobre como era seu formato. Precisamos estar no aqui no agora, já que somos o futuro dos nossos ancestrais.

O impacto de tudo isso é nada menos que uma revolução na percepção. Deixamos de ver o mundo como uma coleção de coisas separadas para vê-lo como uma teia interconectada, pulsante com a mesma energia primordial do Azoth. O Eu não é mais uma ilha, mas uma parte vibrante e integral desse oceano. As dualidades (bem/mal, vida/morte, luz/escuridão) não são mais opostos irredutíveis, mas aspectos complementares da mesma Unidade. O medo do desconhecido diminui, substituído por uma reverência pelo mistério e um anseio pela gnose que reside nas profundezas da Alteridade. É uma vida vivida com um senso profundo de propósito, interconexão e uma consciência expandida, onde a magia não é algo que se faz, mas algo que se é. A linhagem de Chumbley nos ensina a dançar na encruzilhada de todas as coisas, unindo o terreno e o sideral, o Eu e o Outro, para nos tornarmos plenamente o Um.

A Bruxaria Sabática é uma linhagem muito específica e distinta, que se afasta do que a maioria das pessoas associa à bruxaria moderna. Diferente de tradições mais "cômodas", que buscam harmonia e equilíbrio com a natureza de forma mais convencional, a Corrente Sabática abraça a transgressão e a liminaridade. O "Sabbat" não é um evento físico no bosque, mas um estado extático de consciência, um "lugar mágico" onde as barreiras entre o mundano e o espiritual se dissolvem, permitindo o encontro direto com o "Outro" – espíritos, divindades e potências atávicas a partir de um ponto zero central na encruzilhada do Ser. É um caminho que serpenteia entre extremos, explorando o tabu e o que está à margem, buscando a Gnose não pela aceitação do status quo, mas pela sua quebra e ressignificação. Outra coisa que precisa ficar claro é que a transgressão é realizada em nosso Ser, não na sociedade como alguns acham. É mais para nós nos movermos internamente como um grão que luta contra a casca para crescer, do que um movimento externo de aplicação sócio-político. Na prática isso se liga diretamente a outro conceito que é o dos Cunningmen, portanto essa Arte permanece no Caminho do Meio, nem esquerda nem direita, apesar de fazermos uso das duas mãos por conveniência astuta. Nunca fomos seres de um caminho só. Fujam de quem age, fala e se comporta pregando o Caminho da Mão Esquerda como sendo somente a Arte do Chumbley, pois não é. Caminhamos entre Mundos e somos hereges. Isso significa que conhecemos todos os caminhos da Encruzilhada e não permanecemos num só. Quando o propósito é se tornar UM com o Todo Quintessencial, a preguiça espiritual não ocupa espaço nas pernas para caminhar e trilhar todos os caminhos. Quem estiver preso à uma única forma de recensão de caminho mágico ainda não entendeu a Bruxaria Tradicional.

Para nós, Caim é a figura primordial do feiticeiro. Ele é o primeiro a quebrar a lei divina, sem ele não haveria morte e reencarnação, ele foi o primeiro a trabalhar a terra com suas próprias mãos, a fundar cidades – ele representa a soberania individual e o desvio da norma estabelecida. Sua "paternidade angelical" de Samael, o "Anjo-Serpente", nos conecta à Gnose Ofidiana, a sabedoria da memória primordial e "proibida" da Serpente. A Serpente, em seu simbolismo ancestral, representa transformação, morte e renascimento, a vitalidade telúrica e a gnose que reside nas profundezas. Buscar o "atavismo da Serpente" é invocar e encarnar esse poder ancestral e primordial, como o Skin Walker que assume as qualidades de um animal-guia. É alinhar os poderes dessa corrente primordial à própria carne do feiticeiro, buscando uma transfiguração profunda da consciência e do corpo através dessa sabedoria ofidiana e isso nos leva a despertar os poderes do Dragão e a usá-lo de acordo com o propósito de seu despertar.

A Forma Secreta - Arte de Aradjana Lupino

O êxtase e a transfiguração corporal são veículos essenciais para a Gnose Sabática. Os "frenesis", a dança, a possessão espiritual em transe – tudo isso visa dissolver as fronteiras do Zoa individual, permitindo uma fusão mais direta com o Azoa e a Alteridade. Essa liberação extática gera "quantidades quase ilimitadas de energia pré-conceitual", que pode ser direcionada para o atavismo e a transmutação. Os ritos sexuais, quando praticados com intenção mágica, não são meramente físicos; eles são uma poderosa forma de evocar e alinhar as energias primordiais – os "Fogos Serpentinos Negro e Vermelho", o Witchfather e Witchmother – à carne do feiticeiro. Isso permite uma gnose mais visceral e encarnada, onde a união do "Eu" e do "Outro" transcende a mente e permeia o ser em sua totalidade, impulsionando a consciência individual de volta à Unidade da Quintessência, o Azoth, através da experiência mais direta e intensa possível.

É natural que esses conceitos causem estranheza, pois desafiam as normas estabelecidas. Mas é crucial entender que, para nós, a transgressão não é sobre o "mal" ou a anarquia gratuita. Ela é uma quebra consciente e mágica de limites e tabus com um propósito gnóstico. Nosso objetivo é abrir portas de percepção, acessar estados alterados de consciência e liberar energias contidas para o crescimento. Isso pode significar desafiar dogmas religiosos, explorar locais liminares como cemitérios ou encruzilhadas, e até mesmo o uso ritualístico de certas substâncias ou da sexualidade de uma forma que transcende o convencional, mas como eu disse o propósito é obter a gnose então isso não tem a ver com sair por ai batendo de frente com autoridades como um rebelde sem causa. Há um amadurecimento interno que nos cala após a compreensão e, esse calar, inclusive, impede questionamentos pueris já que a resposta já está dentro de você. Aqui nesse ponto, se você questiona é porque ainda não atingiu a Gnose. Nosso objetivo não é mudar o mundo e suas estruturas e sim mudar a nós mesmos para que se exteriorize a mudança no mundo. A ideia é dissolver as fronteiras que nos aprisionam, expondo-nos ao "Outro", ao Azoa, e assim, purificando e expandindo o Zoa para uma gnose mais profunda, e uma vez acessada essa Gnose, desaparecem dúvidas, perguntas e o que havia antes, há somente um silencio de integridade como satisfação espiritual por estar e ser ligado com o todo.

O atavismo é a prática de acessar e encarnar forças primordiais, características ancestrais que estão latentes em nós. A técnica central é a assunção atávica, onde o feiticeiro busca evocar e tornar-se uma força ou arquétipo, muitas vezes animal ou pré-humano, como a Serpente. Não é um mimetismo, mas uma fusão temporária do nosso Zoa com o Azoa atávico. Isso envolve trabalho com ancestrais, totens animais, e o uso de transe, dança e estimulação sensorial para que a consciência racional ceda lugar à consciência primordial e instintiva. A importância é imensa: ao encarnar esses poderes arcaicos, nós nos conectamos a uma sabedoria e força que transcendem o eu ordinário, reificando a Corrente da Serpente na nossa carne e permitindo uma gnose corpórea, uma experiência direta e visceral da Quintessência que molda a nossa Arte.

Essa conexão é um testemunho da universalidade de certas correntes atávicas. O Daniel Schulke afirmou que isso reflete a própria experiência dele ao encontrar formas espirituais ofídicas nos lwá mange e bembe e dos cultos de Umbanda e Macumba antes mesmo da iniciação formal dele, ele chegou a publicar isso na revista Starfire volume II nº4. A presença de Simbi, segundo ele, o lwá serpente associado às águas e à feitiçaria, manifestava-se regularmente para ele, trazendo um êxtase sublime e ondulante onde a consciência cognitiva se tornava cinestésica. Essa experiência foi batizada por ele como "Corcel do Grande Cavaleiro". A Bruxaria Sabática se fortalece ao reconhecer e integrar influências de genealogias espirituais habituais como o Vodu Petro, o Sufismo e correntes Tântricas. E isso está longe de ser uma apropriação, e sim um reconhecimento de que o poder ofidiano e a sabedoria serpentina se manifestam em diversas culturas e sistemas, cada um com sua nomenclatura própria. Essas trocas enriquecem o corpus Sabático, mostrando que o Arcano pode se manifestar por meio de trajetórias distintas, mas todas unidas na Admoestação da Serpente: "Toma, come e sê sábio".

Grimoários como o "Livro do Dragão de Essex" e o "Azoetia", bem como Kiasmos e os demais, não devem ser conhecidos como meros livros de receitas mágicas; eles são, na verdade, corpos gnósticos vivos, imbuídos da corrente da Arte. O "Livro do Dragão", por exemplo, foi iniciado e concluído simultaneamente à execução dos Ritos Draconianos por uma célula interna do Cultus Sabbati, a Coluna do Caminho Tortuoso. Ele é um registro da Gnose experiencial, um repositório da consciência iniciática. Esses textos servem como veículos para a "Feitiçaria do Caminho Tortuoso" ao delinear os modelos mágicos trans-históricos operantes na bruxaria, especialmente na linhagem de Essex. Eles fornecem a estrutura e a linguagem simbólica para os Iniciados acessarem e trabalharem com os mistérios da serpente, do tabu e da transgressão, permitindo que a Quintessência Mágica se realize no momento da Gnose. Eles documentam e ativam a corrente para aqueles que estão preparados.

O "Graal da Serpente" e o "Vinum Sabbati" são preparações rituais complexas que servem como catalisadores para a Gnose Ofidiana, especialmente em suas aplicações venéficas. O conhecimento de venenos e toxinas é um domínio do veneficus, o envenenador mágico, e não se trata de causar dano físico, mas de alterar a percepção e dissolver as barreiras da consciência. O Vinum Sabbati pode ser preparado de diversas formas: quando de natureza vibratória lunar, sua composição pode envolver a "emissão sexual de Eva e da Serpente", aludindo a uma fusão gnóstica primordial. Quando solar, pode empregar a raiz de mandrágora, o "Homem-Dragão". Essas substâncias, quando usadas ritualisticamente e com profundo conhecimento, abrem portais internos, permitindo uma gnose direta e muitas vezes intensa. Elas representam a dualidade do veneno – que pode ser destrutivo, mas também uma fonte potente de "conhecer" e transfiguração, onde a mente racional é subvertida para dar lugar a uma sabedoria mais ancestral e instintiva. É com essa Arte que a Bruxa toma voo para o Sabbat.

Andrew D. Chumbley


Como ensinou Andrew Chumbley:


Na pena que dança entre mundos, cada traço é o portal que liberta a magia ancestral do Verbo Vivo.

No eco do Silêncio, onde o nada dança com o tudo, o Ser espelha a Gnose e a Palavra se tece na vacuidade da verdade.

Quando a Palavra se torna o berço da Realidade, o 'Eu' se ergue, um novo deus, cuja sombra eclipsa a própria existência.

Na Gramática das Diferenças, a Magia se revela na anarquia do Infinito, onde a sabedoria transcende o humano e a subversão da lei é o portal para a alma reformada.

No turbilhão da dualidade, onde a Magia se manifesta sem véus morais, o Mago dança como um Diabo Santificado, revelando a sabedoria oculta na dúvida e na subversão do Ser.

No deserto da mente, onde o Silêncio fala e a Magia é a única verdade, o Adepto purifica o Ser, devorando deuses e desafiando a moralidade para forjar a Realidade do Desejo.

Na teia de Teseu, a obstinação forja o Caminho Único que, ao quebrar ídolos e transcender a própria Morte, conduz o Mago ao começo eterno de toda Magia.

No Simpósio da Nova Carne, o Grande Feiticeiro é um universo vivo de divindades e demônios, um Arcano que habita em cada um de nós, superando o humano.

Na dança ancestral do Sabbat, onde a Morte é um portal e o 'Eu Absoluto' manifesta seu êxtase, o Homem audacioso ascende para ocupar o trono vazio, abraçando a magia da Nova Carne.

No altar da Nova Carne, onde a Vontade molda o Vaso carnal e o prazer evoca Lilitu, a alquimia do Sabbat transforma a consciência em uma teia mágica de significado, conectando o vazio à percepção.

Pela alquimia da obsessão e do desejo, o feiticeiro forja um novo Alfabeto na Carne, onde os sonhos moldam a realidade e o 'Eu' se ergue como o Segundo Éden, reificando o inconcebível.

Das profundezas da Escuridão, a Autoimanência irrompe, erguendo a semente germinal do sonho para a costa da carne, onde a Memória desperta e a Visão se encarna no Grande Sabbat das Eras.

No Cemitério do Significado, onde o Espírito da Magia sussurra verdades além do som, o Mago ri com o Eremita, forjando um caminho singular através do tempo e da memória, onde só as Visões verdadeiras permanecem.

Na Arena do Poder, a inação é o abismo do Eu-não-Eu, onde o silêncio revela sua força, a humildade guia a busca e a transcendência da batalha das crenças coroa o verdadeiro rei.

Através do paradoxo do Sigilo, que oscila entre a plenitude e o vazio, e na alquimia dos venenos, que purificam e corrompem, o ser se lança num abismo de transgressão, onde a Larva infesta o Fruto e a Serpente reina no Éden.

Nas Máximas da Cripta, o necromante da Palavra desperta os Mortos, desenterrando a Eternidade em um amor fiel ao Acaso, onde a recapitulação do Eu revela uma alegria solene que desafia a morte e abraça o abismo.

Na forja da Eternidade, a alma, transmutada de chumbo a ouro, revela que o tempo não passa, mas habita em nós, e que a verdadeira busca não é pela divindade, mas pela manifestação do Espírito eternamente autoconhecível.

No espelho do Epigramma, a Magia se revela em mil disfarces, transmutando o Impossível em Necessidade através da Crença, e o Homem, como o Verdadeiro Feiticeiro, abraça a Guerra como Gnose, purificando o mundo ao esmagar seus próprios demônios e perseguir o Desejo Original da Auto-Sexualidade.

No vácuo da morte, a psique violenta encontra a Liberdade Imaculada da Autopresença, redefinindo a Virtude e empoderando o Eu para uma magia que desafia a moralidade, erguendo a Abóbada do Céu com Palavras que Deus não ousaria conceber.

No único agora, onde o Athame se afia no coração, a Magia Viva transcende a Criação e Destruição, e o feiticeiro, com astúcia e transgressão, desmascara a farsa do significado ao encarar o Silêncio, proclamando a Vontade de presença que é a essência de tudo.

No Silêncio que é a Palavra, a Magia se manifesta pela transgressão da Forma Mundana, e o Eu, nascido da Mente, Máquina e Carne, se lança à Iconoclastia para abraçar uma Visão Maior, revelando a Verdade de sua eterna Alteridade.

No Quietus, a Vontade do Silêncio transcende a morte, tocando o Inominável e imergindo a pena no sangue de um universo sacrificado, onde o Escriba dá sua vida ao Livro, e o Livro, em chamas, proclama: 'Para onde fores, lá irei eu!' — a apoteose da criação e destruição.

O próprio 'Khiazmos', é um Oráculo do Silêncio e grimório filosófico da Arte Sabática, onde cada aforismo serve como uma fórmula mágica contemplativa e ativa, integrando as doutrinas do Eu-Congressivo e da Corrente do Opositor, e cujas estelas artísticas são emanações gráficas de estados de transe, um farol eterno da bruxaria do Caminho Tortuoso do qual veneno e antídoto estão uno dentro de ti.

Assim fecho minhas palavras finais, e espero ter ajudado o buscador a compreender essa Arte e que, ainda que não saibas escrever e/ou interpretar o alfabeto de Alogos, a simplicidade de qualquer fala ou anotação está também no Azoth e o seu desprezo pelos seus pares é puramente o apartar-se da União com o todo, pois nesse caminho não há metades pares, mas sim o Todo Quintessencial juramentado pela Arte dos Sábios. Não há razão nem raciocínio aqui, só há o Mistério e toda palavra é pobre para significar um Mistério.

Por Sett Lupino