quarta-feira, 27 de maio de 2026

A MAGIA MAIS PODEROSA QUE EXISTE, ISSO EXISTE?

 

 

Ẹ̀bá Ọlọ́ṣẹ́ - O rastro do trabalho feito

Recentemente vimos um pseudo-mago leigo, inocente e não-iniciado propriamente, afirmar que a magia mais poderosa que existe era a de Jhon Dee. Talvez seja mesmo, dentro do espectro de suas limitadas referências e testes de experiencias laboratoriais solitários, movido a “cursos” de internet, tradução de livros e auto-interpretação.

Como essa narrativa era enganosa, de início eu me importei em esclarecer apenas duas pessoas amigas no intuito de informar os desavisados para dar oportunidade de corrigir essa falsa informação que havia sido lançada, mas como essa afirmação ganhou proporções absurdas, fui incomodado diversas vezes por um número grande de pessoas vindo me procurar para tirar dúvidas e esclarecer os fatos.

Então, para que o buscador sincero possa se esclarecer ao dar um “buscar” na internet, deixarei aqui a elucidação pertinente, pois essa briga é clássica: "minha magia é mais forte que a sua".

Pra deixar claro, não existe régua oficial de "poder mágico". O que existe são critérios como antiguidade, complexidade ritual, influência cultural e o medo/respeito que cada tradição impôs na sua época. John Dee criou o sistema Enoquiano no séc. 16, e é bastante recente comparado com outras tradições milenares.

Vamos dar uma olhada nisso tudo de perto?

 

AS 5 TRADIÇÕES ANTIGAS QUE ANTECEDEM JOHN DEE EM SÉCULOS — E QUE HISTORICAMENTE ERAM TEMIDAS COMO "IMBATÍVEIS":

 

1. Magia das Iyá Mi Oxorongá / Àjẹ́ - Iorubá

- Idade: Tradição oral pré-escrita, mínimo 1000+ anos. Culto ancestral na África Ocidental.

- Por que era temida: Iyá Mi são as "Grandes Mães Ancestrais". Não são bruxas humanas, são forças primordiais, são Irumulé, seres iluminados que estão acima dos anjos e acima de Deus e participaram da criação do Mundo. Lidam com o poder do ÀSE puro, o axé de criação e destruição. Rezar mal pra Iyá Mi pode desgraçar uma linhagem inteira e causar a morte do operador. Reis iorubás faziam ebós específicos só pra aplacá-las.

- Diferencial vs Dee: Dee invocava anjos pra obter conhecimento. Iyá Mi é o poder que regula a ética do mundo. Não se "comanda", se negocia pelas mãos autorizadas na hierarquia do culto iniciático, por pacto tomado!

Quem são os autorizados a mexer com essas forças?

São as Ajés mais velhas, as Iyánifás dentro de suas hierarquias, os Osòs dentro de suas hierarquias, os Babalawòs dentro de suas hierarquias. Já as Iyálorisàs e Babalorisàs de candomblé possuem seus métodos próprios de cada Nação, geralmente ineficazes em alguns ramos, pois essas Senhoras são alvo de intenso medo e desprezo pelo povo de candomblé e a maioria falha ao lidar com essas Senhoras na forma adequada. Em geral, tão somente obtém sucesso quando é para apaziguá-las e nada mais.

 

2. Heka - Egito Antigo

- Idade: 4.300+ anos. Já aparece nos Textos das Pirâmides c. 2400 a.C.

- Por que era temida: Heka não era "fazer magia". Era a força feminina que os deuses usaram pra criar o universo. O faraó era "Senhor do Heka", pois era “casado” secretamente por via iniciática através de seu vizir que os levava para as sacerdotisas do templo. Como era o primeiro a falar em público, ele não podia dar um passo antes de consultar seu vizir, o qual também somava cargo de senhor dos exércitos do faraó. Médicos-sacerdotes de Sekhmet usavam Heka pra curar, matar e controlar enchentes do Nilo. Sacerdotes-embalsamadores de Anubis usavam Heka para dar poder ao Ka e Ba e demais partes da alma para comandar os destinos das almas. Está na base de todos os papiros mágicos greco-egípcios.

- Diferencial vs Dee: Enoquiano tenta falar com anjos em "língua adâmica". Heka é a língua que faz o mundo obedecer. É a física do cosmos na visão egípcia.

 

3. Kěšep - Magia Babilônica/Assíria

- Idade: 3.800+ anos. Tabletes cuneiformes de 1800 a.C.

- Por que era temida: O Maqlû e Šurpu são grimórios de exorcismo do Estado. Usados pra destruir feiticeiros inimigos, curar possessão e proteger o rei. Tinham o āšipu - exorcista oficial - pago pelo palácio. Se o rei da Babilônia bancava, é porque funcionava politicamente.

- Diferencial vs Dee: Dee era um homem tentando falar com anjos e solicitar favores. O āšipu era cargo de Estado com biblioteca real de 10 mil rituais. Escala imperial.

 

4. Atharvaveda - Magia Védica

- Idade: 3.200+ anos. Compilado c. 1200-1000 a.C.

- Por que era temida: Quarto Veda, dedicado só à magia prática. Tem hinos pra matar inimigos abhicāra, curar doença, garantir vitória na guerra, dominar mulheres e reis. Brahmanas que dominavam Atharvan eram conselheiros de guerra.

- Diferencial vs Dee: Enoquiano é teurgia pra iluminar. Atharvaveda tem yātu - magia de ataque direto - que virou crime de estado na Índia antiga de tão temida.

 

5. Defixiones - Magia Greco-Romana / Katadesmoi

- Idade: 2.500+ anos. Tábuas de chumbo desde 500 a.C. em Atenas.

- Por que era temida: Tabuletas de maldição enterradas com mortos. Invocavam deuses ctônicos como Hécate, Hermes Subterrâneo e Perséfone pra amarrar língua de advogado, quebrar atleta ou matar rival no amor. Roma teve lei específica Lex Cornelia contra isso, mas essa magia se tornou clandestina para a rua oculta.

- Diferencial vs Dee: Dee queria conversar com anjos no cristal. Grego pagava profissional pra enterrar o nome do inimigo com um defunto e usar a fúria dos mortos. Pragmatismo brutal.

 

O ponto sobre "poder"

John Dee + Edward Kelley criaram algo em 1580. Genial, mas é um sistema cerimonial renascentista. As 5 acima já regulavam reis, guerras e epidemias quando Londres ainda era aldeia.

 

Critério histórico de "mais poderosa":

1. Antiguidade: Heka e Kěššep ganham. 2000+ anos antes de Dee.

2. Status de Estado: Babilônia e Egito tinham magia como política pública. Dee foi preso por traição.

3. Medo cultural: Iyá Mi e Atharvaveda criam tabus que duram até hoje. Ninguém mexe e o culto ainda está vivo, inclusive em alguns ramos do Shakitismo tântrico. Brâmane tem conhecimento, mas não mexe nem lida diretamente.

Iyá Mi é força ancestral iorubá, anterior à escrita e sua magia funciona em questão de horas e dias, tão certo e verdadeiro. Enoquiano é século 16, depende de anjo atender chamada (se e quando funcionar). É preciso se ter em mente que anjos não veem pessoas como “alguém especial ou melhor que os outros”, nem como autorizados a chama-los pelo sistema enoquiano inventado pelo Dee, o qual nem chegou a usar direito o próprio sistema que criou. Existe muita crença limitante e dogma nesse sistema igual as crenças limitantes e dogmas que a magia de Abramelim contém, sem pertencer à uma cosmovisão tradicional de culto como existe nos cultos tradicionais africanos. Em Dee e Abramelim o sistema está apartado da espiritualidade cosmogônica de um povo.

 

Atharvaveda - A Bomba Atômica Védica

Idade: Compilado c. 1200-1000 a.C. Tradição oral bem mais antiga. 

Status: 4º Veda. Junto com Rig, Sama e Yajur, é escritura sagrada do hinduísmo. Não é "livro de bruxaria marginal" — é religião de Estado da Índia antiga.

Estrutura de Poder:

1. Abhicāra - Magia de Ataque: Hinos inteiros pra matar inimigos, causar seca, mandar febre, esterilizar mulheres rivais. Livro 4, Hino 16: "Que os feiticeiros que nos odeiam sejam esmagados".

2. Bhaiajya - Cura: Mais de 100 hinos pra curar icterícia, lepra, mordida de cobra, possessão. Médico védico = bhiaj Atharvan.

3. Pauṣṭika - Prosperidade: Rituais pra garantir colheita, gado, vitória do rei na guerra. O purohita — capelão real — tinha que dominar Atharva.

4. Autoridade: Não pede pra deus. Usa mantra + bráhman — fórmula que força a realidade. Se falar certo, o universo obedece. É código-fonte do cosmos.

 

Ritual exemplo - Ktyā-pratiharaa – Para Devolver feitiço: 

Pega boneco de massa, enfia espinhos de khadira, recita hino AV 10.1 por 3 noites, queima na encruzilhada. Resultado: quem mandou o feitiço morre em 7 dias. Era tão temido que o Arthaśāstra de Kautilya, séc. 4 a.C., regulava uso militar.

 

PGM - Papiros Gregos Mágicos - O Canivete Suíço Helenístico

Idade: 200 a.C. - 500 d.C. Egito greco-romano. Escritos em grego, demótico e copta. 

Status: Manuais de "freelancer". Não era religião oficial. Era o grimório de bolso do mago urbano de Alexandria e da feiticeira de rua.

Estrutura de Poder:

1. Sincretismo total: No mesmo papiro você invoca Helios, Iao/Adonai hebraico, Anúbis, Mithras e "o deus sem cabeça" Akephalos. Vale tudo se funcionar.

2. Voces Magicae: Palavras de poder impronunciáveis: ablanathanalba, agrammakaamarei. Não significam nada em idioma humano. São "senhas" do universo.

3. Tipos de rito:

   - Agōgē: Amarrações amorosas brutais. PGM IV. 296: "Arrasta Fulana pelo cabelo até a minha porta, queimando, enlouquecida".

   - Katadesmoi: Tabuinhas de maldição como já falei. Enterrava com defunto.

   - Sustasis: Encontro com deus pra revelação, tipo de oráculo. Mais próximo do Enoquiano.

   - Phylaktēria: Amuletos pra tudo: cólica, processo judicial, vampiros.

4. Autoridade: O mago se identifica com deus: "Eu sou Moisés", "Eu sou Hermes Trismegisto". Usa nome secreto pra chantagear a divindade.

 

Ritual exemplo - PGM IV. 3007-3086 - "Liturgia de Mitra": 

Jejum de 7 dias, recita nomes bárbaros, sobe 7 céus, encontra Helios-Mitra, ganha imortalidade. É teurgia pura. Inspirou Dee 1300 anos depois.

 

Atharvaveda vs PGM vs Enoquiano - Quem é mais "poderoso"?

Critério:     

Atharvaveda = 3200+ anos

PGM = 2200 anos

Enoquiano - John Dee = 440 anos

Lastro Estatal: Veda oficial. Rei tinha purohita Atharvan pago. Usado em guerra.

Marginal: Mago era preso se pego. Teodósio I proibiu em 389 d.C.     

Dee foi astrólogo da Rainha, mas morreu caído em desgraça. Observem e prestem atenção ao final da vida de cada mago da idade média. Se a vida foi um fiasco devido ao uso de sua magia e a desgraça trouxe a morte dele, não copie o mago, pois o sistema é falho e a história fala por si. Diferente da magia de bruxa que não trouxe desgraça para a bruxa, quem trouxe a desgraça foram as imposições alheias oriundas do abuso do clero secular e suas leis impostas sob a conveniência política da monarquia. Não foi contra uma única pessoa, foi algo gigantesco contra o povo que era os MedicineMen e as Wise Women. Não foi a magia de bruxa que fez mal a elas, foi a politicagem, abuso humano, concorrência entre apotecários/boticários e o velho povo, disputas de poder e leis contra a mulher + crença limitante e temor paranoico = coisas provocadas por humanos.

Escopo Cosmológico. Cria/destrói com bráhman.

Regula monção, peste, guerra.

Pessoal: Resolve problema de 1 cliente: amor, dinheiro, maldição.

Mecanismo: Mantra = lei física. Não negocia. Fala = acontece. 

Na Angelologia: Busca conhecimento e apocalipse. Zero magia, prática direta. Nome secreto + ameaça. "Se não fizer, revelo teu nome verdadeiro". Oração + tabelas. Anjo pode recusar. Kelley vivia "falhando na linha".

Escala de dano na Védica: Abhicāra coletivo. Hino pra secar rio inimigo.

No PMG: Agōgē individual. Faz 1 pessoa surtar.

Dee nunca registrou ataque mágico bem-sucedido.

Sobrevivência:

Vivo: Recitado ainda hoje em templos na Índia.    

Morto: PMG: Só papiro em museu e divulgação em livros. Vive só em ordem ocultista pós-Crowley

Vereditos:

1. Se o critério é antiguidade: Atharvaveda é 2800 anos mais velho que Dee. PGM é 1800 anos mais velho. Dee é "moderno".

2. Se o critério é poder de Estado: Atharvaveda elegia rei. PGM era contravenção. Enoquiano foi hobby de corte que não salvou Dee da pobreza.

3. Se o critério é "força bruta": Atharvaveda tem ritual pra matar com palavra. PGM tem receita pra arrastar mulher pelo cabelo até enlouquecer. Dee pedia pra anjo soletrar coisas em alfabeto novo.

Analogia final: 

Atharvaveda = Código Penal + Manual de Engenharia do Universo. 

PGM = Deep Web da Antiguidade. Tudo ilegal, tudo à venda. 

Enoquiano = Projeto SETI do séc. 16. Tentar falar com alien/anjos e torcer pra responderem.

Iyá Mi já citada antes entra na categoria do Atharvaveda: força primordial que não se invoca, se aplaca. Dee invocava funcionário público angélico.

 

Maqlû - "Queimadura" - O Ritual Anti-Feitiçaria Babilônico.

Idade: Tabletes cuneiformes de 700 a.C., mas copiados de originais de ∼1800 a.C. Biblioteca de Nínive, Rei Assurbanípal. 

Objetivo: Identificar, julgar e destruir o kaššāpu/kaššāptu — bruxo/bruxa que fez magia ilícita contra você. Era processo judicial + guerra mágica + exorcismo, tudo junto. 

Quem fazia: O āšipu ou mašmaššu — exorcista-sacerdote oficial do Estado. Cargo público, pago pelo rei.

 

A Lógica por Trás

Babilônio não acreditava em "azar". Se você adoecia, perdia gado ou a esposa abortava, era kišpū — feitiçaria de alguém. O Maqlû era o tribunal noturno pra devolver o feitiço pro remetente. Literalmente "queimar" a bruxa simbolicamente.

Estrutura do Ritual = 8 Horas até Noite Inteira.

Fase 1: Preparação - Pôr do Sol

1. Purificação: Āšipu + paciente banham-se no Rio Eufrates. Vestem linho limpo. Casa é defumada com zimbro.

2. Bonecos de Substituto: Faziam figurinhas de sebo (antepassado do jujuísmo e fantaísmo), com cera, massa ou betume. Uma era a "bruxa", outra era o "bruxo". Se não sabia quem era, fazia boneco "homem e mulher, meu inimigo".

3. Círculo de Farinha: Desenhava zisurrû = círculo de farinha no chão. Proteção pra isolar a operação, tudo citado com riqueza de detalhes no meu livro Fundamentos de Bruxaria Tradicional e Stregoneria, vendido pela editora Manus Gloriae, incluindo as partes de influência Islâmica que a Itália absorveu.

Fase 2: Invocação dos Deuses - Início da Noite

1. Tribunal Divino: Acendia-se tocha. Āšipu chamava Girra — deus do fogo — como juiz. Depois Nusku, Anu, Enlil e Ea.

2. Acusação: Recitava 100+ encantamentos šiptu. Trecho real do Tablete I: 

   "Queimada seja a feiticeira! Que Girra, o herói, queime o feiticeiro! Que vossa feitiçaria retorne sobre vossas cabeças!"

3. Provas: Jogava alho, cebola e lã de cabra preta no fogo. A fumaça "mostrava" o rosto do inimigo ao paciente.

Fase 3: Execração - Meia-Noite ao Amanhecer

1. Queima dos Bonecos: O clímax. Os bonecos eram espetados, amarrados e jogados na fogueira de Girra. Cada parte queimada = uma parte do corpo da bruxa real queimando. (não se esqueçam que bruxa tem feitiço de reverso e devolução de combate também).

2. Destruição Simbólica: Enquanto queimava, recitava: "Que a língua dela seja cortada, que os olhos dela se derretam, que o coração dela vire cinzas". Bem gráfico.

3. Água do Retorno: Ao amanhecer, apagava o fogo com água consagrada. A água suja era levada para o deserto. Levava o kišpū embora.

4. Selamento: Āšipu fazia amuleto com nó de 7 voltas e entregava pro paciente. "À prova de bruxa", o escudo contra ela por 1 ano.

 

Por que era "mais poderoso" que Enoquiano?

Critério:     

Maqlû Babilônico = 3800 anos 

Enoquiano de John Dee = 440 anos

Apoio Estatal: Lei oficial. Rei pagava. Falha = risco de morte pro āšipu. Elizabeth I achava Dee curioso, depois o largou. Morreu endividado.

Escopo: Guerra mágica. Usado pra proteger exércitos e colheitas do império inteiro. 

Evocação angelical de Dee era pra obter conhecimento: 1 mesa, 1 homem, 1 cristal e símbolos.

Evidência Arqueológica: Milhares de bonecos quebrados em poços rituais. Achados de Nínive a Ugarit.

Diário de Dee + tabelas. Zero efeito geopolítico registrado.

Mecanismo: Ataque direto. "Matar ou morrer".

Negociação. Anjo pode dizer "não".

Ponto crucial: Maqlû não pedia. Mandava. Girra tinha que queimar porque era a função dele no cosmos. Enoquiano pede licença pro anjo. Iyá Mi nem atende se não quiser e quando vem, chega dando coice em reléz mortais que as incomodaram com coisas de humanos, os quais tem capacidade para resolver sem elas.

Onde ler mais: 

1. Maqlû - tradução de Tzvi Abusch, 2016. Tem os 9 tabletes completos. 

2. Mesopotamian Witchcraft - I. Tzvi Abusch. Explica o lado jurídico. 

3. British Museum - Tablete K.43+. Dá pra ver o cuneiforme original.

Dee criou um sistema brilhante pra Renascença. Mas Maqlû era o ICBM da Idade do Bronze. Se a briga é sobre "poder antigo", o mago perdeu.

Ritual de Heka - Egito, Papiro de Londres e Leiden.

Objetivo clássico: Ubau — "abrir a boca" da estátua, ou destruir inimigo do faraó.

Elemento principal - Rito de Execração:

1. Figurinha de argila: Moldava-se o inimigo amarrado. Nome dele + nome da mãe escritos em vermelho — cor de Set, caos.

2. Encantamento: "Rê corta-te, Hórus te fura, Sekhmet bebe teu sangue. Que não tenhas pão, que não tenhas água". Recitado 4x, uma pra cada ponto cardeal.

3. Destruição: Quebravam a figurinha, cuspiam, queimavam e enterravam com peixe — animal impuro. Isso "matava" o ka do inimigo no Duat.

4. Operador: Sacerdote-leitor hery-heb em estado de pureza. Tinha que estar circuncidado, sem comer peixe/porco por 9 dias, e vestido de linho.

5. Hora: Quando a constelação de Órion conhecida como “Sah” tocasse o horizonte no que chamamos de ascendente heliacal estelar. Momento que o céu "abre" para isso.

Poder histórico: Achados em Mirgissa, Núbia: 600+ figuras de príncipes asiáticos quebradas e enterradas. Era política externa do Egito. John Dee nunca teve exército.

 

Comparação rápida com outros sistemas

Vamos comparar Sistema + Idade + Fonte do Poder + Fraqueza vs Iyá Mi e Heka

Enoquiano - John Dee:    440 anos, 49 anjos enoquianos + Tabelas. Depende de anjo responder. Sistema novo, sem lastro de Estado. Kelley, o médium, virou charlatão. Dee morreu pobre.

Goetia – Lemegeton: 400 anos, mas copia demônios de 2000 a.C., 72 espíritos selados por Salomão. Requer círculo + triângulo. Goetia é parte da magia salomônica, que por sua vez bebe de Kěššep babilônico. É derivada.

Bruxaria Trácia – Hécate: 2500+ anos, Hécate + drogas como acônito. Pharmakeia grega. Muito local. Eficaz pra maldição pessoal, mas não derrubava impérios como Heka.

Magia Taoísta – Fulu: 1800+ anos, Selos fu escritos, talismãs, controle de gui e shen. Estado chinês usou, mas o Imperador de Jade manda.

Iyá Mi não tem chefe. Ela manda em tudo, ela decide se o feitiço pega ou não pega, ela concede vida e morte de quem ela quiser e não existe magia no mundo capaz de combater a magia dela, apenas apaziguar, mas se ela ‘piar’ na sua casa, leva embora você ou toda sua família ou adoece gravemente um filho/filha e põe doença que te come de dentro para fora, geralmente sem cura medicinal.

Conclusão:

1. Critério de antiguidade: Heka 2400 a.C. vs Dee 1580 d.C. = 4000 anos de diferença.

2. Critério de escala: Babilônia tinha āšipu como ministro. Dee tinha 1 rainha desconfiada, Elizabeth I.

3. Critério de autonomia: Iyá Mi é força primordial. Anjo enoquiano é mensageiro. Quem manda em quem?

 

John Dee foi um gênio do Renascimento. Mas comparar Enoquiano com Iyá Mi é como comparar um rádio amador com uma usina nuclear. Os dois comunicam, mas a escala de energia é outra.

Ritual de Iyá Mi Oxorongá - Iorubá

Objetivo clássico: Aplacar as Mães pra desfazer desgraça coletiva ou individual. Não se “manda” em Iyá Mi. Se pede licença.

Elementos principais:

1. Oferenda de Ejé: O sangue é o axé líquido. Usa-se galinha d’angola — ave que "espalha" e "avisa". Nunca se corta na frente de homem. Só mulher iniciada no mistério, idosa, faz. Iyá Mi não é bruxinha física que traduz grimório. É espírito Bruxo primordial que tem poder sobre a Criação e, o destino de todos os homens e mulheres. Essas senhoras estão acima dos anjos e acima de Deus, a primeira Iyá Mi é a mãe de Olodumare (Deus), ELÀ é a serpente cósmica que botou o ovo cósmico do qual nasceu Deus.

2. Àọ funfun: Pano branco estendido no chão, representando o mundo. Em cima vai àrẹ — comida sem sal nem dendê. Iyá Mi come "frio".

3. Òfò + Oríkì: Encantamentos soprados. Òfò é palavra que corta. Oríkì é louvação que acalma. Exemplo de òfò de proteção: "Iyá mi ò, má jẹ́ kí n rí ibi" — "Minha mãe, não me deixe ver o mal".

4. Igba Iyá Mi: Cabaça ritual fechada, cheia de segredos. Só Ìyánifá de cargo alto toca. Quem abre sem preparo, enlouquece ou morre, segundo a tradição.

5. Local: Mata fechada, à meia-noite, em encruzilhada de 3 caminhos. Porque Iyá Mi voa em forma de pássaro Eleyé.

Poder histórico: Reis de Oyó no séc. 18 cancelavam guerras se o oráculo marcasse que Iyá Mi estava brava. Nenhum babalaô contraria isso.

Adendo:

A Magia Rúnica - Runagaldr / Seiðr

A Antiguidade/ Origem + Prova arqueológica mais antiga aponta para a Ponta de lança de Øvre Stabu, Noruega, 150-200 d.C. com inscrição rúnica raunijaz = "provador/testador". O uso apotropaico se deu da seguinte forma:

Futhark Antigo: 150 d.C. até 800 d.C. com 24 runas.

Base proto-germânica.

As Fontes literárias são: Edda Poética 1270, mas relata tradição oral de 800-1000 d.C. O Hávamál contém estrofes 138-165  que diz o seguinte: "Rúnatal" ensina Odin pegando as runas após 9 noites na Yggdrasil.

O Auge prático disso é: Era Viking 793-1066 d.C. Pedras rúnicas, bastões de madeira, e amuletos.

O Critério como a Rúnica se dá por:

Tempo de uso contínuo 150 d.C. até hoje. Quase 1900 anos. Tradição quebrada no cristianismo mas revivida em 1900 com Guido von List.  

O Corpus textual primário é composto por Eddas, Sagas, +8000 inscrições rúnicas. Mas grimório “operacional” mesmo só aparece no séc. 16-17 com Galdrabók islandês.     

O Sistema cosmológico próprio de 9 mundos, Yggdrasil, Wyrd/Ørlög = teia do destino. Runa = é força arquetípica, não letra.  

A Capacidade de coagir forças Galdr = cantar runa pra dobrar realidade.

Seiðr para alterar Wyrd. Runa Thurisaz pra defesa ofensiva. Tem fama de “bater de volta”.      

Sobre Iniciação e risco temos que Odin se sacrifica pra ganhar. Exige dor, sangue, jejum. Erro de traçado com backfire. Egil Skallagrímsson corta runa errada e quase mata paciente.  

O Alcance no micro/macro vai de curar verruga com Kenaz até mudar batalha com Tiwaz, mas o foco é tribal/pessoal, não império.  

O Sincretismo/resiliência sobreviveu à cristianização virando “marcas de casa” e sigilos. Virou base da magia do caos moderna.      

Na Soma deste estudo temos: 57/70. Alta potência, risco alto, mas alcance mais limitado que Heka ou Atharvaveda.

 

O Trollrún / Trolldom - Magia Nórdica Tardia

Na Antiguidade e na Origem:

Nome: Trollrún = “runas de troll”. Trolldom = “domínio de troll”. Nome pejorativo cristão pra magia antiga.

Base: Mistura de Rúnica Era Viking + Seiðr xamânico + cristianismo popular + galdr islandês. Uma das bases dos Cunningmen and Pellar.

Prova documental: Galdrabók islandês 1600 d.C. Lækningakver 1500. Svarteboken norueguês 1700-1800. Mas as práticas vêm de 1000 d.C.

Pico de perseguição: 1500-1700. 300+ execuções por trolldom na Noruega. Isso prova que a Igreja temia pra caramba.

Critérios do estudo aplicados:

Critério como Trollrún pontua da seguinte maneira:

Tempo de uso contínuo: 1000 d.C. até hoje em folk magic escandinava. 1000 anos com adaptações. 8/10

Corpus textual primário, e Grimórios pós-medievais: Galdrabók, Lækningakver. Receitas curtas, sigilos “stafir”, orações misturadas com salmo. 6/10

Sistema cosmológico próprio é  Híbrido: mantém Nornas, landvættir, mas bota Jesus, Maria e santos como “chefes”. Magia de contrato. 6/10

A Capacidade de coagir forças com Foco em “enviar” coisas: enviar piolho, doença, amor, tempestade. Stafir tipo Ægishjálmur = elmo do terror pra paralizar inimigo. 8/10

Iniciação e risco: Aprendido em segredo, passa de mestre pra aluno. Quebrar tabu = loucura ou morte. A igreja caçava, então havia risco real. 8/10.

O Alcance: micro/macro = Magia de fazenda: proteger gado, azedar leite do vizinho, achar ladrão. Raramente mexe em reino. 5/10

Sincretismo/resiliência = Campeã aqui. Juntou paganismo + cristianismo e sobreviveu 400 anos de fogueira. Ainda usada hoje no interior.    10/10

Soma no estudo: 51/70. Menos “cósmica” que Rúnica pura, mas imortal por sincretismo.

O Adendo propriamente dito:

Magia Rúnica e Trollrún quando comparadas no mesmo estudo, a Magia Rúnica marca 1900 anos de uso e opera direto no Wyrd através de arquétipos-força, com risco iniciático alto similar ao Maqlû babilônico. Já o Trollrún é o exemplo máximo de resiliência: nasce da Rúnica, sobrevive à cristianização virando folk magic e mantém poder ofensivo real até 1800, sendo temida a ponto de gerar caça às bruxas na Escandinávia.

Nenhuma das duas supera Heka, Atharvaveda ou Maqlû em alcance imperial e corpus estatal. Ambas perdem pra Enoquiana de Dee em complexidade angélica, mas ganham em pragmatismo e custo baixo: um pedaço de madeira + sangue já roda.

Logo, a tese Enoquiana é jovem, 1582 d.C., depende de ferramenta estatal e mesa cara, enquanto a Rúnica é raiz, e corta direto no destino.

Aqui temos Potência ≠ complexidade. Antiguidade + risco assumido + capacidade de dobrar força sem pedir permissão = critérios onde Heka e Rúnica ainda reinam.

Como o leitor pode constatar, a magia enoquiana não é nem nunca foi a mais poderosa que existe. Isso porque eu nem mencionei a magia sexual tântrica, a qual é uma dentre as mais poderosas citadas acima, mas caberia outro artigo só para falar delas na íntegra. No entanto, adquiram meu livro A Prole do Dragão e o Legado dos Cunningmen, vendido também pela editora Manus Gloriae que tem um capítulo bem extenso sobre magia sexual na Inglaterra, ou leiam sobre Maithuna e Grande Rito Real no Shakitismo e nas tradições do norte da Índia, como a Uttaurakaula e a magia que o Gardner trouxe para a religião das bruxas inglesas no Ocidente.

OBS: Candomblé diaspórico, Umbanda e Kimbanda não entraram nesse estudo porque não se enquadram nos critérios de Poder que utilizam a antiguidade e o lastro temporal de ancestralidade como requisitos do estudo comparativo, porém, tais cultos bebem das fontes originais e não diminui em nada o seu poder, já que são recensões da arte africana no Brasil e não algo inventado.

E ainda daria pra falar do sistema de magia Bakongo (Dikenga), Palo Mayombe e dentre os sistemas afro-diaspóricos religiosos também daria para trazer o tema e comparar o Vodou.

Outra magia poderosa e perigosa que poderíamos trazer nesse estudo é a Magia Manazil que pode matar o operador se fizer errado, ela consta no Picatrix. No entanto eu não as inclui aqui porque este artigo ficaria muito mais longo do que já tá.

Então deixo a cargo dos Leitores e das Leitoras levantar o estudo dessas comparações.

FIM.

 

 


domingo, 10 de maio de 2026

NANCY DOWNS, QAYIN E O VENENO DA ÁRVORE DA MORAL DO BEM E DO MAL

 

 

Quem já assistiu o filme Jovens Bruxas (The Craft) de 1996 viu a personagem Nancy Downs, interpretada por Fairuza Balk, como uma das personagens góticas mais memoráveis. No filme, Nancy é intensa, ferida, magnética e perigosa, uma personagem cujo poder nasce tanto da dor quanto da ambição. Inicialmente, ela se apresenta como uma forasteira em busca de controle em um mundo que lhe negou segurança, respeito e amor. Sua amizade com Sarah, Bonnie e Rochelle lhe dá acesso à bruxaria, mas a magia também expõe a profundidade de sua raiva e, é aí que mora o perigo para quem busca poder pelo poder sem ter controle sobre si mesma(o). A cena é literalmente a Arte imitando a vida!



A atuação de Fairuza Balk é fundamental para o impacto da personagem Nancy.

Ela confere à personagem uma energia selvagem, transitando da vulnerabilidade à ameaça com uma facilidade perturbadora. As roupas escuras de Nancy, o olhar penetrante e o comportamento imprevisível a tornam visualmente icônica, mas a atriz também a impede de se tornar uma vilã simplista. Compreendemos que a crueldade de Nancy está ligada ao trauma, à pobreza e a uma fome desesperada por poder, reconhecimento e aceitação do mundo, ela quer ser aprovada e cultuada e não aceita ser desafiada sem dar o troco, usando a canalização do seu poder destrutivo como casca para a sua frágil defesa.

Conforme o filme avança, Nancy é consumida pela magia e em sua mente ela pode voar. Sua famosa frase, "Eu posso voar", em inglês "eu estou voando" captura tanto a libertação quanto o colapso.  Ela se sente fascinada pelo poder, mas incapaz de controlar o que ele desperta nela. Nancy Downs permanece inesquecível porque personifica a raiva, a rebeldia e o preço assustador de desejar poder sem equilíbrio e age igualmente a uma pessoa que adentra ao Caminho da Mão Esquerda sem compreender seus fundamentos para a libertação e dessa forma a sociedade não aceita a régua de sua pseudo-moral, que deveria construir ao invés de destruir. A libertação constrói um caráter em fortaleza destruindo seus falsos alicerces, apegos e crenças estagnadas, não tem a ver com destruir o que está fora de você.

É um filme de 1996 para jovens, mas capta bem a importância de um trabalho de transformação para obter controle sobre si mesma(o). O diretor do filme foi guiado por uma bruxa iniciada para conduzir as filmagens.

Por isso, na comemoração dos 30 anos desse filme, iremos hoje analisar a Nancy do filme sobre a lente do Andrew Chumbley e sua Arte Sabática.



NANCY DOWNS, QAYIN E O VENENO DA ÁRVORE DA MORAL DO BEM E DO MAL

The Craft é o Dragon Book pra adolescente. Nancy age como Qayin antes da Marca, ou Qayin que recusou a têmpera.

É Azha sem Cain. Só Dragão, mas sem o Ferreiro.

A Inversão da Moral é perigosa quando “Bem” e “Mal” trocam de lugar dentro de cada um.

Comer o fruto na verdade não te dá “maldade”. Te dá Discernimento. O problema é quem come quando não sabe fazer a digestão do que comeu!!!

Nancy comeu com fome de Lobo desenfreado. A soma dos Traumas + Pobreza + Abandono + a falta de estudos profundos resultam em um Minério cheio de escória, poluído, o qual chamamos 'vícios de caráter'. 

Ela entra no Círculo e pede poder pelo poder, não transformação, ela quer ter acesso a fonte do poder.

Ela faz papel de Abel pedindo aceitação, porém com o método de Qayin.

A inversão acontece em 3 estágios:

O primeiro é a fome de sentido distorcida:

“Eu quero poder e ‘Eu quero entender’, mas ‘quero porque quero e quero agora’ um poder que não pode ser contrariado por ninguém”.

Ali ela prova o fruto por carência do que não tem.

O segundo é o Voo:

“Eu estou voando” e ‘Eu estou caindo pra cima’. Ela não consegue estar lúcida dentro do despertar. Ela está apenas consciente e orientada no tempo e no espaço e sabe que sua alma pode voar, mas ela não está lúcida e aterrada nessa realidade ordinária e no “agora”. Ela acha que é 'mais' que os outros.

A Dama com a Serpente

O problema é que o discernimento sem a bigorna vira delírio e auto engano.

O terceiro é a Queda. Vira tirana, e o hospício vira o Qutub dela, onde funda cidade em terreno movediço.

Ela comeu o Mal achando que era Bem sem perceber, sem ter tido um professor da Arte.

A Moral Invertida está em Moral vulgar, o Bem obedecer, o Mal desobedecer. 

A Moral Sabática e o Bem é a Escolha com Peso. O Mal é Escolha sem Peso.

Para ilustrar isso, William Blake tem a frase perfeita:

"Quem faz o bem ao outro deve fazê-lo nos mínimos detalhes. O bem geral é a alegação do patife, hipócrita e adulador."— William Blake

Por isso os ingratos vão para a Zona Fantasma, a Galeria dos Invisíveis dos quadros do esquecimento.

Nancy desobedece, mas não se sustenta. Ela mata o padrasto, enlouquece a amiga, e invoca Manon para que ele se torne escravo do ego dela.

Isso na verdade não é Caminho da Mão Esquerda e certamente não é Traditional Witchcraft. É Caminho Sem Mão ou Ego Path.

E aqui reitero que Traditional Witchcraft usa as duas mãos, não só a esquerda. É por isso que nenhum Cunningman e Wise Woman não vão erguer ou defender a Bandeira de algum caminho como se fosse único.

Chumbley em Azoëtia apresenta o seguinte: “Transgression without Artistry is but Crime”. Ou seja: Transgredir sem Arte é só crime. E para saber o real sentido de transgressão leiam os dois últimos artigos.

A Dama com o Martelo


Mas por que a sociedade não aceita a régua dela?

Porque ela não forjou a régua, nem foi tradicionalmente iniciada e pior, não deu continuidade ao aprendizado que lhe foi oferecido. Ela pegou a régua emprestada, mas a régua de Qayin se forja em Nod, no exílio e no pós recebimento da marca, batendo no próprio osso. Nancy quis a Coroa antes do Verme comer, e o resultado disso foi a Coroa que comeu ela. É o que a maioria faz, pegam o poder e não sabem o que fazer com ele, pois o ego é seu guia.

O uso Errado do Poder é como o Arthana sem Têmpera!

Para quem não sabe, Chumbley explica o significado de Arthana e Athame nas obras dele.

A Nancy tem poder, mas não tem caráter. É ferro em brasa sem bigorna e Poder sem Transformação é Veneno sem a Serpente!

Lembremos que Ofíuco segura 2 cobras: Veneno e Remédio. É a mesma substância guardada pelo Dragão. 

Nancy pega o veneno e bebe puro, mas não tem fígado pra transmutar. Ela vira a louca da Via da igreja sombria. O fígado é um órgão regido por Júpiter, não Saturno.

Na alquimia bruxa, Qayin pega o veneno e vai pra Nod por alguns anos, e vira Tubal-Cain, e só depois forja. Só então o veneno vira cura.

Quando ela afirma “Eu posso voar” vemos o BHA sem HU-LA-KA antes.

BHA é Luz, Voo, Sublimatio. Mas se você não fez HU (a fornalha e hulha), o LA esvaziou, o KA encarnou, e o voo se tornou psicose. 

Em Dragon Book of Essex temos “The Dragon lifteth not the Untempered”. Ou seja, o Dragão não levanta quem não foi temperado. Se tentar, ele te derruba pra você aprender. Assim, Nancy foi derrubada como acontece com todos os apressados que desconhece que os ensinamentos são passados anualmente, a cada ano um novo degrau da escada. O filme foi orientado por Bruxas reais na época e o diretor seguiu certinho o roteiro dado.

Muita gente busca o Caminho da Mão Esquerda, mas este quando sem Fundamento é como a Nancy. Aqui no Brasil vemos muitos seguirem as obras do Crowley sem ter estado dentro da irmandade dele ou sem ter realizado o período pós iniciação que se segue justamente para se transmitir uma tradição e seus ensinamentos que servem como uma escada, cada ano é um degrau que se sobe. De igual forma, os achismos predominam na mente dos estudiosos de Spare, e eles acham que sabem, mas nunca viveram o mistério e nem conseguiram produzir uma telesmata.

Os esquemas iniciáticos são feitos para proteção da mente do iniciado e para conduzi-lo de fato pela tradição no passo-a-passo. Sem isso não se tem tradição, se tem apenas um Frankenstein. Não adianta ter pressa em nenhum caminho iniciático!

A Mão Esquerda real de Deus é Qayin pós-Marca! Quem não aproveita o período pós marca, a marca é ausente, pois ela só se sustenta no pós-iniciação. Infelizmente ainda há pessoas que nunca leram a obra teleológica e eudaimonista de Aristóteles chamada Ética a Nicomaco.

Qayn não é grosso, não é estúpido e certamente não é homem sem virtudes já que ele representa o Homem de Espírito não o homem de barro, ele age moral e intelectualmente com razão, encontrando o meio-termo (justa medida) entre o excesso e a falta. Aristóteles escreveu seu livro de Ética para seu filho Nicomaco e, sua obra cabe bem na têmpera de Qayin. 

{Nem preciso lembrar que o mestre de Aristóteles foi Platão e que o pano de fundo da Bruxaria Tradicional é Platão puro, diferente do pano de fundo do satanismo que encontra em Nietzsche, o seu alicerce. Entre um e outro só tem uma distancia temporal de 2.200 anos}.

Ou seja, a pós marca é: Eu desobedeço, e arco (com as consequências). Eu mato a Vaidade e fundo cidade. Eu sou exilado, e viro Eixo. Eu me torno o Dragão que guarda o The Point enquanto riqueza porque compreendi o passo-a-passo e a entrega virou recebimento.

A Mão Esquerda falsa é Nancy e aqui vocês imaginam quantas Nancys tem por ai. Ou seja, em Nancy temos: Eu desobedeço porque doeu e porque tenho impulso de repetir isso sem pensar. Eu faço o que faço por impulso do querer, pela obsessão e pela ousadia, mas sem o Saber e sem o Calar. Eu mato porque posso. Eu sou vítima, logo mereço trono. Vira rebelde sem causa digna do chumbo que se torna ouro e aí a obra não se completa.

Uma iniciação não é garantia de troca de pele. Isso é uma Arte completa e não se deve faltar as aulas, muito menos ser indisciplinado. Em Bruxaria Tradicional há deuses, demônios, ancestrais e toda uma egrégora inteira vigiando cada iniciado, mas o ego diz: "vou fazer do meu jeito, não tem ninguém vendo mesmo!"

É desrespeito consigo mesmo, desde que você é o futuro dos seus ancestrais, nada passa desapercebido. Exílio voluntario não se pede antes da hora, assim como um recém nascido não pode ser emancipado.

Uma é forja Adamantina.

Outra é forja de vidro. E vidro voa bonito, mas estilhaça.

A Transformação é o que vem depois da iniciação, mas antes de haver Astúcia do jeito certo em Como Usar os Poderes da Árvore do bem e do mal. Isso só é ensinado ao longo do tempo para os legítimos pares iguais.

A Árvore não dá Bem nem Mal na verdade. Dá Responsabilidade ciente. Pra comer sem morrer, tem que virar o Qutub verdadeiro! Não tem atalhos nesse caminho! Se usar da auto sabotagem, já se perdeu.

A Receita de Chumbley em 4 Leis são:

Primeiro: a do Exílio. Nod antes de Enoque.

Não peça poder em Malkuth. Seja expulso de Malkuth. “Errante serás”. Errante é outro nome para planeta (que se move no céu e com o céu). Só quem não tem chão, vira Eixo. Nancy quis poder dentro da casa, da escola, do sistema. Mas Qayin funda fora. Não se enfrenta professores da Arte, se aprende com eles para aplicar no seu mundo pessoal.

Na Prática isso significa anos sem pedir reconhecimento e sem criar nada, sem se exaltar, sem se mostrar, sem enfrentar. O recém iniciado ainda está na fase do recebimento e entrega. Por isso trabalha em silêncio olhando para dentro. Ali o Verme come a coroa, não é a coroa comendo a cabeça e certamente não é o poste mijando no cachorro.

A segunda é a Lei da Bigorna! Ajoelha no Vazio.

Poder sem ajoelhar é criar Tirano, é dar luz ao bebe de Rosemary. Enquanto que ajoelhar pro mundo (mundano) é Abel que não reencarna em Set, quando você ajoelha pro Vazio você se torna Qutub, é Abel que reencarna em Set. Iniciado deve se esvaziar, assim como meditar significa parar de pensar para se fundir com o todo.

Nancy nunca deitou. Só levitou em sua própria rabiola. Por isso caiu. Ela não fez o oroboros de forma correta porque nem chegou nessa fase. Crianças não dirigem carros e certamente não dirige a vida ou destino de ninguém. Ser disciplinado é quesito fundamental para qualquer iniciado sério. Magia sem disciplina é como criança com a faca na mão, ela se corta e corta os outros e chama de acidente. Iniciado sério não negocia com a própria preguiça, não negocia com a própria curiosidade e pressa. Ou você forja o hábito ou o hábito forja o teu fracasso. Poder obedece ritual, o ritual obedece rotina e a rotina da tradição quem te ensina é seu/sua professor(a). Sem disciplina, você não é iniciado, é só um turista no templo. Sem disciplina, não tem o martelo, o Arthana não tem fio. É como uma coroa sem crânio ou trono sem base. 

Quer poder? aprende a obedecer antes de mandar, pois Qayin não ergueu o templo em um dia, foi golpe atrás de golpe, morte atrás de morte. Sem disciplina é só lingote ou tarugo, a massa de metal bruta antes de ser forjada e moldada. Todo ferreiro legítimo sabe disso. 

A terceira é a Lei da Têmpera, onde Mundo é Água Fria, aquela que esfria o metal após a forja. Têmpera não é sofrer por sofrer. É fogo, é água, é porrada do diabo. É quebrar para não quebrar depois. Sem têmpera é somente ferro doce: brilha, entorta, e morre na primeira luta. Quer ser Lâmina? aprende a sangrar no frio. Toda Lâmina nasce mole, vira uma sentença depois de sentir o beijo da brasa, e no final a água vai calar o grito. Têmpera é o batismo do exilado e na Arte sabática há três exílios, você deve vivê-los, não raciocinar sobre eles.

Depois do fogo, tem que apanhar do mundo e receber crítica, traição e perda. A Ordália é certa! Se trincar, tinha ego. Se temperar, vira Aço Negro da Arte. 

O Azoëtia é claro: “The Oppositor is the Tempering”. O Opositor te tempera. Nancy chamou o Opositor de inimigo. Qayin chamou de Ferreiro. E ferreiro é um cargo de vocação, ou se é ou não é. Fracassar na arte dos metais é diplomar-se na estultícia, não na astúcia.

A Dama com o Crânio


A quarta é a Lei do Fruto! Você Come e Planta.

Então vejam, Adão e Eva comeram e esconderam. Qayin comeu, foi exilado, e plantou cidade. Ele foi o primeiro agricultor, soube arar, plantar e colher.

O Poder da Árvore só é teu se frutificar fora de ti. Nancy usou pra vingança. Qayin usou pra Enoque (nome da primeira cidade, seu filho). Qayin foi o primeiro construtor.

No Dragon Book temos o seguinte: “The Arthana cutteth not for the Hand, but for the Field”. A lamina corta para o Campo, não para a Mão.

Para compreender isso vamos examinar Netzach, onde contrastamos Nancy vs Lady Lucífera.

Lady Lucífera é Estrela da Manhã possuidora das 2 polaridades. Ela é Vênus Luchífera e é Lúcifer.  Ela é Ele, e Ele é Ela. É toda possibilidade, é Arte e valor.

Ela/Ele caiu por Escolha, não por acidente, não por consequência. Caiu com Trono, não atrás de trono. A alma reencarna e desperta sabendo o que fazer ao se reunir entre seus iguais. É maturidade, não rebeldia.

O Teste de Netzach é simples e ninguém enxerga!

Ela te dá a Esmeralda da Coroa e pergunta: "Vai voar ou vai forjar?”

Nancy: “Vou voar!” e cai, acaba no hospício. É Luz sem Peso.

O(a) folgado(a) usa o poder. O verdadeiro iniciado transforma o poder em criação após se permitir ser forjado por ele.

É querer reencarnar sem ter passado pelo julgamento de Osíris na balança de Anúbis sob a vigia de Thot que guarda o segredo do controle de Ammut.

O segredo? Bem, Ibis come ovos de crocodilo. Fácil de entender, difícil é compreender o mistério e respeitá-lo. O estúpido desrespeita isso e chama de transgressão.

Qayin: “Vou forjar” e pega a esmeralda, mete na ponta do Arthana, e vira Tubal-Cain. Luz com Peso.

A Moral Reinvertida:

No fim do Crooked Path há o Bem = ser capaz de ser Mal e escolher não ser para não se igualar ao Deus do antigo testamento. 

Mal = ser incapaz de ser Bem, mas fingir que escolheu. 

Em Isaías 45:7 declara a soberania absoluta de Deus sobre todas as coisas, afirmando:

"Eu formo a luz e crio as trevas; eu faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas essas coisas".

Qayin não é soberano tirano e muito menos soberano de todas as coisas. Ele é sábio, astuto, e soberano de si mesmo. Ele usa isso com a verdadeira justiça cósmica, atributos divinos de sua herança “maléfica” advinda de sua Mãe Lilith (o demônio que a igreja teme).

Nancy não era má. Era incapaz. Por isso a sociedade não aceita a régua dela já que não tem medida. É vidro querendo ser diamante. Nesse ponto o leitor pode ter uma ideia clara do que a “Marca” realmente é feita.

A medida é quem mede a gente, não a gente medir a medida. É a exata medida e proporção das coisas. Eis a fórmula da Arte chamada Tradição. Quem não entende isso não pertence a Arte, pois é preciso forja antes de Manon atender, ter coluna de Aço Negro e Asas de Estrela pra aguentar o peso do Voo.

A Dama com a Estrela


As imagens que compõem esse artigo são as Quatro Damas de Elda: Do Fruto ao Eixo, as quatro Senhoras angulares.

O ciclo começa onde Gênesis mente e Azoëtia revela. Eva come o fruto por ingenuidade e é expulsa. Lilith recusa o fruto da soberba e do controle invertido e foge para sua árvore. Eva falha porque comeu sem bigorna. Nancy tenta repetir as duas, comendo por fome de trauma, cuspindo por achismo do medo de consequência, e voa sem ter morrido, ela ainda quer o controle, não a libertação, não tem estrela apontando a direção. O resultado é hospício. É Abel com truques.

Qayin é a terceira via. Não é Eva que obedece, não é Lilith que foge para a árvore do mal, não é Nancy que surta. É quem come, é expulso, ajoelha no exílio, forja a coroa, e volta pra fundar cidades lembrando da raça de sua mãe e do sangue daemônico das estrelas. As quatro Damas são o retrato desse Caminho Tortuoso em osso e luz, senão vejamos:

1. Dama com Serpente — BHA, a Sublimatio 

É Eva se tivesse encarado e acompanhado a lição da Serpente ao invés de ouvir sem compreender, ela não tinha referências anteriores para saber compreender. É Lilith se tivesse beijado a boca que morde, mas ao invés de beijar ela mordeu. É Nancy antes do “Eu posso voar”. A serpente de três voltas não é tentação. É Azhdeha, o Dragão-Veneno que Ofíuco segura. Na mão da Dama, o veneno vira semente. BHA é a Luz que nasce da Sombra. Eva comeu e escondeu. Lilith cuspiu e amaldiçoou. Nancy bebeu e enlouqueceu. Qayin segura, contempla, transmuta. A serpente não sobe pela espinha dela. Ela desce pela serpente até a raiz. A maldição é estar lúcida em vida e na morte, no estado primordial de tudo. Eis a verdadeira libertação.

2. Dama com Martelo — HU, a Calcinatio 

É Tubal-Cain no feminino. Lilith forja correntes pra se prender no Mar Vermelho e se dissolver nas águas limpas. Eva forja desculpa pra se esconder no mato. Nancy forja feitiço pra se vingar do mundo. A Dama forja o próprio osso. O martelo não bate em inimigo. Bate na bigorna da própria coluna. Cada golpe é HU — o fogo que calcina o nome dado por Adão. Abel oferece ovelha. Qayin oferece a si mesmo em brasa. Por isso o mundo o rejeita: ele não pede, ele tempera. Nancy quis o trono antes do fogo. A Dama queima o trono pra forjar a espinha. Qayin é o “Homem” de Espírito. Abel é o “homem” do barro. Esse mundo é formado pela ação hierogamica de Eva e Adão, por isso são os pais da humanidade. Esse mundo é ilusório e nossas vidas aqui são passageiras. Nele há os do sangue de Qayin e há os do Sangue de Adão.

3. Dama com Crânio — KA, a Putrefactio 

É Morte Iniciática. Eva morre de velhice e vira pó. Lilith não morre e vira assombro desafiador. Nancy morre por dentro e vira paciente. A Dama morre por vontade e vira Trono. O crânio na mão não é memento mori cristão. É o crânio de Abel, é lembrança do primeiro sacrifício e assassinato. KA é Coagulatio: o sangue que verteu do irmão vira argamassa de Enoque. Só senta no osso quem matou o cordeiro dentro de si. Nancy matou o padrasto e ficou vazia. Qayin matou o Abel e fundou cidade. A diferença é peso. Um mata pra consumir. Outro mata pra construir e é segredo que não se põe em palavras, se compreende na alma que se lembra.

4. Dama com Estrela — KHU, a Projectio 

É Qutub Setentrional ou Austral. Eva olha pra estrela e vê castigo. Lilith olha e vê exílio. Nancy olha e vê alucinação. A Dama usa a estrela como coroa. KHU é o Duplo que sai do crânio e se alinha com Sigma Octantis — a Estrela do Sul que não brilha pra olho profano. É a estrela do Norte com Al-Thuban, Eixo do Dragão Morto. Sul tem Sigma, Eixo do Dragão que se Lembra. Nancy gritou “Eu estou voando” e caiu. A Dama cala, projeta, e o mundo gira em torno dela. Não voa. Vira Eixo e dona de seu destino.

Eva → Lilith → Nancy.

Qayin é a escada do Éden ao Nod. Eva cai. Lilith foge. Nancy surta. Qayin forja. Eva e Nancy comem o fruto e morrem. Lilith revela daimon. O último come e veste a coroa, a coroa é comida pelo Verme, e renasce como Ferreiro.

Eva cria a humanidade. Qayin revela que a morte existe a partir dos atos de Eva, mas é ele quem transmuta Abel em Set nos desígnios da morte. Set é o terceiro filho de Adão e Eva e o primeiro sacerdote. É Abel reencarnado, o homem de barro volta e se torna o homem da fé sob os auspícios e mistérios da morte, sem a qual não se enxerga quais são da descendência de Samael e Lilith, e quais são da descendência de Deus.

O Azoëtia é claro nisso: “The Path is Crooked, for the Straight is the Lie. The Crown is not Given, but Taken from the Skull of the Self”.

As Quatro Damas agora andam contigo. Serpente na mão, Martelo na coluna, Crânio no trono, Estrela na coroa. BHA-HU-KA-KHU é o teu tutano e osso agora e não uma invocação do Mumm-Ra do desenho do Thundercats em grego.

O Caminho é Torto, pois o Reto é a Mentira. A Coroa não é Dada, mas Tomada do Crânio do Próprio Eu.

Sett Lupino