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| Ẹ̀bá Ọlọ́ṣẹ́ - O rastro do trabalho feito |
Recentemente vimos um pseudo-mago leigo, inocente e não-iniciado propriamente, afirmar que a magia mais poderosa que existe era a de Jhon Dee. Talvez seja mesmo, dentro do espectro de suas limitadas referências e testes de experiencias laboratoriais solitários, movido a “cursos” de internet, tradução de livros e auto-interpretação.
Como
essa narrativa era enganosa, de início eu me importei em esclarecer apenas duas
pessoas amigas no intuito de informar os desavisados para dar oportunidade de
corrigir essa falsa informação que havia sido lançada, mas como essa afirmação
ganhou proporções absurdas, fui incomodado diversas vezes por um número grande
de pessoas vindo me procurar para tirar dúvidas e esclarecer os fatos.
Então,
para que o buscador sincero possa se esclarecer ao dar um “buscar” na internet,
deixarei aqui a elucidação pertinente, pois essa briga é clássica: "minha magia é mais forte que a
sua".
Pra
deixar claro, não existe régua oficial de "poder mágico". O que
existe são critérios como antiguidade, complexidade ritual, influência cultural e o
medo/respeito que cada tradição impôs na sua época. John Dee criou o sistema
Enoquiano no séc. 16, e é bastante recente comparado com outras tradições
milenares.
Vamos
dar uma olhada nisso tudo de perto?
AS 5 TRADIÇÕES ANTIGAS
QUE ANTECEDEM JOHN DEE EM SÉCULOS — E QUE HISTORICAMENTE ERAM TEMIDAS COMO
"IMBATÍVEIS":
1. Magia das Iyá Mi
Oxorongá / Àjẹ́ - Iorubá
-
Idade: Tradição oral pré-escrita, mínimo 1000+ anos. Culto ancestral na África
Ocidental.
-
Por que era temida: Iyá Mi são as "Grandes Mães Ancestrais". Não são
bruxas humanas, são forças primordiais, são Irumulé, seres iluminados que estão
acima dos anjos e acima de Deus e participaram da criação do Mundo. Lidam com o
poder do ÀSE puro, o axé de criação e destruição. Rezar mal pra Iyá Mi pode
desgraçar uma linhagem inteira e causar a morte do operador. Reis iorubás
faziam ebós específicos só pra aplacá-las.
-
Diferencial vs Dee: Dee invocava anjos pra obter conhecimento. Iyá Mi é o poder
que regula a ética do mundo. Não se "comanda", se negocia pelas mãos
autorizadas na hierarquia do culto iniciático, por pacto tomado!
Quem
são os autorizados a mexer com essas forças?
São
as Ajés mais velhas, as Iyánifás dentro de suas hierarquias, os Osòs dentro de
suas hierarquias, os Babalawòs dentro de suas hierarquias. Já as Iyálorisàs e
Babalorisàs de candomblé possuem seus métodos próprios de cada Nação,
geralmente ineficazes em alguns ramos, pois essas Senhoras são alvo de intenso
medo e desprezo pelo povo de candomblé e a maioria falha ao lidar com essas Senhoras
na forma adequada. Em geral, tão somente obtém sucesso quando é para apaziguá-las
e nada mais.
2. Heka - Egito Antigo
-
Idade: 4.300+ anos. Já aparece nos Textos das Pirâmides c. 2400 a.C.
-
Por que era temida: Heka não era "fazer magia". Era a força feminina que
os deuses usaram pra criar o universo. O faraó era "Senhor do Heka",
pois era “casado” secretamente por via iniciática através de seu vizir que os
levava para as sacerdotisas do templo. Como era o primeiro a falar em público, ele
não podia dar um passo antes de consultar seu vizir, o qual também somava cargo
de senhor dos exércitos do faraó. Médicos-sacerdotes de Sekhmet usavam Heka pra
curar, matar e controlar enchentes do Nilo. Sacerdotes-embalsamadores de Anubis
usavam Heka para dar poder ao Ka e Ba e demais partes da alma para comandar os
destinos das almas. Está na base de todos os papiros mágicos greco-egípcios.
-
Diferencial vs Dee: Enoquiano tenta falar com anjos em "língua
adâmica". Heka é a língua que faz o mundo obedecer. É a física do cosmos
na visão egípcia.
3. Kěšep - Magia
Babilônica/Assíria
-
Idade: 3.800+ anos. Tabletes cuneiformes de 1800 a.C.
-
Por que era temida: O Maqlû e Šurpu são grimórios de exorcismo do Estado.
Usados pra destruir feiticeiros inimigos, curar possessão e proteger o rei.
Tinham o āšipu - exorcista oficial - pago pelo palácio. Se o rei da Babilônia
bancava, é porque funcionava politicamente.
-
Diferencial vs Dee: Dee era um homem tentando falar com anjos e solicitar
favores. O āšipu era cargo de Estado com biblioteca real de 10 mil rituais.
Escala imperial.
4. Atharvaveda - Magia
Védica
-
Idade: 3.200+ anos. Compilado c. 1200-1000 a.C.
-
Por que era temida: Quarto Veda, dedicado só à magia prática. Tem hinos pra
matar inimigos abhicāra, curar doença, garantir vitória na guerra, dominar
mulheres e reis. Brahmanas que dominavam Atharvan eram conselheiros de guerra.
-
Diferencial vs Dee: Enoquiano é teurgia pra iluminar. Atharvaveda tem yātu -
magia de ataque direto - que virou crime de estado na Índia antiga de tão
temida.
5. Defixiones - Magia
Greco-Romana / Katadesmoi
-
Idade: 2.500+ anos. Tábuas de chumbo desde 500 a.C. em Atenas.
-
Por que era temida: Tabuletas de maldição enterradas com mortos. Invocavam
deuses ctônicos como Hécate, Hermes Subterrâneo e Perséfone pra amarrar língua
de advogado, quebrar atleta ou matar rival no amor. Roma teve lei específica
Lex Cornelia contra isso, mas essa magia se tornou clandestina para a rua
oculta.
-
Diferencial vs Dee: Dee queria conversar com anjos no cristal. Grego pagava
profissional pra enterrar o nome do inimigo com um defunto e usar a fúria dos
mortos. Pragmatismo brutal.
O ponto sobre
"poder"
John
Dee + Edward Kelley criaram algo em 1580. Genial, mas é um sistema cerimonial
renascentista. As 5 acima já regulavam reis, guerras e epidemias quando Londres
ainda era aldeia.
Critério histórico de
"mais poderosa":
1.
Antiguidade: Heka e Kěššep ganham. 2000+ anos antes de Dee.
2.
Status de Estado: Babilônia e Egito tinham magia como política pública. Dee foi
preso por traição.
3.
Medo cultural: Iyá Mi e Atharvaveda criam tabus que duram até hoje. Ninguém
mexe e o culto ainda está vivo, inclusive em alguns ramos do Shakitismo tântrico.
Brâmane tem conhecimento, mas não mexe nem lida diretamente.
Iyá
Mi é força ancestral iorubá, anterior à escrita e sua magia funciona em questão
de horas e dias, tão certo e verdadeiro. Enoquiano é século 16, depende de anjo
atender chamada (se e quando funcionar). É preciso se ter em mente que anjos
não veem pessoas como “alguém especial ou melhor que os outros”, nem como
autorizados a chama-los pelo sistema enoquiano inventado pelo Dee, o qual nem
chegou a usar direito o próprio sistema que criou. Existe muita crença limitante
e dogma nesse sistema igual as crenças limitantes e dogmas que a magia de
Abramelim contém, sem pertencer à uma cosmovisão tradicional de culto como
existe nos cultos tradicionais africanos. Em Dee e Abramelim o sistema está
apartado da espiritualidade cosmogônica de um povo.
Atharvaveda - A Bomba
Atômica Védica
Idade:
Compilado c. 1200-1000 a.C. Tradição oral bem mais antiga.
Status:
4º Veda. Junto com Rig, Sama e Yajur, é escritura sagrada do hinduísmo. Não é
"livro de bruxaria marginal" — é religião de Estado da Índia antiga.
Estrutura
de Poder:
1.
Abhicāra - Magia de Ataque: Hinos inteiros pra matar inimigos, causar seca,
mandar febre, esterilizar mulheres rivais. Livro 4, Hino 16: "Que os
feiticeiros que nos odeiam sejam esmagados".
2.
Bhaiṣajya
- Cura: Mais de 100 hinos pra curar icterícia, lepra, mordida de cobra,
possessão. Médico védico = bhiṣaj Atharvan.
3.
Pauṣṭika
- Prosperidade: Rituais pra garantir colheita, gado, vitória do rei na guerra.
O purohita — capelão real — tinha que dominar Atharva.
4.
Autoridade: Não pede pra deus. Usa mantra + bráhman — fórmula que força a
realidade. Se falar certo, o universo obedece. É código-fonte do cosmos.
Ritual
exemplo - Kṛtyā-pratiharaṇa
– Para Devolver feitiço:
Pega boneco de massa,
enfia espinhos de khadira, recita hino AV 10.1 por 3 noites, queima na encruzilhada.
Resultado: quem mandou o feitiço morre em 7 dias. Era tão temido que o
Arthaśāstra de Kautilya, séc. 4 a.C., regulava uso militar.
PGM - Papiros Gregos
Mágicos - O Canivete Suíço Helenístico
Idade:
200 a.C. - 500 d.C. Egito greco-romano. Escritos em grego, demótico e
copta.
Status:
Manuais de "freelancer". Não era religião oficial. Era o grimório de
bolso do mago urbano de Alexandria e da feiticeira de rua.
Estrutura
de Poder:
1.
Sincretismo total: No mesmo papiro você invoca Helios, Iao/Adonai hebraico,
Anúbis, Mithras e "o deus sem cabeça" Akephalos. Vale tudo se
funcionar.
2.
Voces Magicae: Palavras de poder impronunciáveis: ablanathanalba,
agrammakaamarei. Não significam nada em idioma humano. São "senhas"
do universo.
3.
Tipos de rito:
- Agōgē: Amarrações amorosas brutais. PGM
IV. 296: "Arrasta Fulana pelo cabelo até a minha porta, queimando,
enlouquecida".
- Katadesmoi: Tabuinhas de maldição como já
falei. Enterrava com defunto.
- Sustasis: Encontro com deus pra revelação,
tipo de oráculo. Mais próximo do Enoquiano.
- Phylaktēria: Amuletos pra tudo: cólica,
processo judicial, vampiros.
4.
Autoridade: O mago se identifica com deus: "Eu sou Moisés", "Eu
sou Hermes Trismegisto". Usa nome secreto pra chantagear a divindade.
Ritual
exemplo - PGM IV. 3007-3086 - "Liturgia de Mitra":
Jejum de 7 dias, recita
nomes bárbaros, sobe 7 céus, encontra Helios-Mitra, ganha imortalidade. É
teurgia pura. Inspirou Dee 1300 anos depois.
Atharvaveda
vs PGM vs Enoquiano - Quem é mais "poderoso"?
Critério:
Atharvaveda
= 3200+ anos
PGM
= 2200 anos
Enoquiano
- John Dee = 440 anos
Lastro Estatal: Veda oficial. Rei tinha purohita Atharvan pago. Usado em guerra.
Marginal: Mago era preso se pego. Teodósio I proibiu em 389 d.C.
Dee
foi astrólogo da Rainha, mas morreu caído em desgraça. Observem e prestem
atenção ao final da vida de cada mago da idade média. Se a vida foi um fiasco
devido ao uso de sua magia e a desgraça trouxe a morte dele, não copie o mago,
pois o sistema é falho e a história fala por si. Diferente da magia de bruxa
que não trouxe desgraça para a bruxa, quem trouxe a desgraça foram as
imposições alheias oriundas do abuso do clero secular e suas leis impostas sob a
conveniência política da monarquia. Não foi contra uma única pessoa, foi algo
gigantesco contra o povo que era os MedicineMen e as Wise Women. Não foi a
magia de bruxa que fez mal a elas, foi a politicagem, abuso humano, concorrência
entre apotecários/boticários e o velho povo, disputas de poder e leis contra a
mulher + crença limitante e temor paranoico = coisas provocadas por humanos.
Escopo
Cosmológico. Cria/destrói com bráhman.
Regula
monção, peste, guerra.
Pessoal:
Resolve problema de 1 cliente: amor, dinheiro, maldição.
Mecanismo: Mantra = lei física. Não negocia. Fala =
acontece.
Na
Angelologia: Busca conhecimento e apocalipse. Zero magia, prática direta. Nome
secreto + ameaça. "Se não fizer, revelo teu nome verdadeiro". Oração
+ tabelas. Anjo pode recusar. Kelley vivia "falhando na linha".
Escala
de dano na Védica: Abhicāra coletivo. Hino pra secar rio inimigo.
No
PMG: Agōgē individual. Faz 1 pessoa surtar.
Dee
nunca registrou ataque mágico bem-sucedido.
Sobrevivência:
Vivo:
Recitado ainda hoje em templos na Índia.
Morto:
PMG: Só papiro em museu e divulgação em livros. Vive só em ordem ocultista
pós-Crowley
Vereditos:
1.
Se o critério é antiguidade: Atharvaveda é 2800 anos mais velho que Dee. PGM é
1800 anos mais velho. Dee é "moderno".
2.
Se o critério é poder de Estado: Atharvaveda elegia rei. PGM era contravenção.
Enoquiano foi hobby de corte que não salvou Dee da pobreza.
3.
Se o critério é "força bruta": Atharvaveda tem ritual pra matar com
palavra. PGM tem receita pra arrastar mulher pelo cabelo até enlouquecer. Dee
pedia pra anjo soletrar coisas em alfabeto novo.
Analogia final:
Atharvaveda = Código Penal + Manual de Engenharia
do Universo.
PGM = Deep Web da Antiguidade. Tudo
ilegal, tudo à venda.
Enoquiano = Projeto SETI do séc. 16. Tentar
falar com alien/anjos e torcer pra responderem.
Iyá
Mi já citada antes entra na categoria do Atharvaveda: força primordial que não
se invoca, se aplaca. Dee invocava funcionário público angélico.
Maqlû -
"Queimadura" - O Ritual Anti-Feitiçaria Babilônico.
Idade:
Tabletes cuneiformes de 700 a.C., mas copiados de originais de ∼1800 a.C. Biblioteca de Nínive, Rei Assurbanípal.
Objetivo:
Identificar, julgar e destruir o kaššāpu/kaššāptu — bruxo/bruxa que fez magia
ilícita contra você. Era processo judicial + guerra mágica + exorcismo, tudo
junto.
Quem
fazia: O āšipu ou mašmaššu — exorcista-sacerdote oficial do Estado. Cargo
público, pago pelo rei.
A Lógica por Trás
Babilônio
não acreditava em "azar". Se você adoecia, perdia gado ou a esposa
abortava, era kišpū — feitiçaria de alguém. O Maqlû era o tribunal noturno pra
devolver o feitiço pro remetente. Literalmente "queimar" a bruxa
simbolicamente.
Estrutura
do Ritual = 8 Horas até Noite Inteira.
Fase
1: Preparação - Pôr do Sol
1.
Purificação: Āšipu + paciente banham-se no Rio Eufrates. Vestem linho limpo.
Casa é defumada com zimbro.
2.
Bonecos de Substituto: Faziam figurinhas de sebo (antepassado do jujuísmo e
fantaísmo), com cera, massa ou betume. Uma era a "bruxa", outra era o
"bruxo". Se não sabia quem era, fazia boneco "homem e mulher,
meu inimigo".
3.
Círculo de Farinha: Desenhava zisurrû = círculo de farinha no chão. Proteção
pra isolar a operação, tudo citado com riqueza de detalhes no meu livro
Fundamentos de Bruxaria Tradicional e Stregoneria, vendido pela editora Manus
Gloriae, incluindo as partes de influência Islâmica que a Itália absorveu.
Fase
2: Invocação dos Deuses - Início da Noite
1.
Tribunal Divino: Acendia-se tocha. Āšipu chamava Girra — deus do fogo — como
juiz. Depois Nusku, Anu, Enlil e Ea.
2.
Acusação: Recitava 100+ encantamentos šiptu. Trecho real do Tablete I:
"Queimada seja a feiticeira! Que Girra,
o herói, queime o feiticeiro! Que vossa feitiçaria retorne sobre vossas
cabeças!"
3.
Provas: Jogava alho, cebola e lã de cabra preta no fogo. A fumaça "mostrava"
o rosto do inimigo ao paciente.
Fase
3: Execração - Meia-Noite ao Amanhecer
1.
Queima dos Bonecos: O clímax. Os bonecos eram espetados, amarrados e jogados na
fogueira de Girra. Cada parte queimada = uma parte do corpo da bruxa real
queimando. (não se esqueçam que bruxa tem
feitiço de reverso e devolução de combate também).
2.
Destruição Simbólica: Enquanto queimava, recitava: "Que a língua dela seja
cortada, que os olhos dela se derretam, que o coração dela vire cinzas".
Bem gráfico.
3.
Água do Retorno: Ao amanhecer, apagava o fogo com água consagrada. A água suja
era levada para o deserto. Levava o kišpū embora.
4.
Selamento: Āšipu fazia amuleto com nó de 7 voltas e entregava pro paciente.
"À prova de bruxa", o escudo contra ela por 1 ano.
Por que era "mais
poderoso" que Enoquiano?
Critério:
Maqlû
Babilônico = 3800 anos
Enoquiano
de John Dee = 440 anos
Apoio
Estatal: Lei oficial. Rei pagava. Falha = risco de morte pro āšipu. Elizabeth I
achava Dee curioso, depois o largou. Morreu endividado.
Escopo:
Guerra mágica. Usado pra proteger exércitos e colheitas do império inteiro.
Evocação
angelical de Dee era pra obter conhecimento: 1 mesa, 1 homem, 1 cristal e
símbolos.
Evidência
Arqueológica: Milhares de bonecos quebrados em poços rituais. Achados de Nínive
a Ugarit.
Diário
de Dee + tabelas. Zero efeito geopolítico registrado.
Mecanismo: Ataque direto. "Matar ou morrer".
Negociação.
Anjo pode dizer "não".
Ponto
crucial: Maqlû não pedia. Mandava. Girra tinha que queimar porque era a função
dele no cosmos. Enoquiano pede licença pro anjo. Iyá Mi nem atende se não
quiser e quando vem, chega dando coice em reléz mortais que as incomodaram com
coisas de humanos, os quais tem capacidade para resolver sem elas.
Onde ler mais:
1.
Maqlû - tradução de Tzvi Abusch, 2016. Tem os 9 tabletes completos.
2.
Mesopotamian Witchcraft - I. Tzvi Abusch. Explica o lado jurídico.
3.
British Museum - Tablete K.43+. Dá pra ver o cuneiforme original.
Dee
criou um sistema brilhante pra Renascença. Mas Maqlû era o ICBM da Idade do
Bronze. Se a briga é sobre "poder antigo", o mago perdeu.
Ritual
de Heka - Egito, Papiro de Londres e Leiden.
Objetivo
clássico: Ubau — "abrir a boca" da estátua, ou destruir inimigo do
faraó.
Elemento
principal - Rito de Execração:
1.
Figurinha de argila: Moldava-se o inimigo amarrado. Nome dele + nome da mãe
escritos em vermelho — cor de Set, caos.
2.
Encantamento: "Rê corta-te, Hórus te fura, Sekhmet bebe teu sangue. Que
não tenhas pão, que não tenhas água". Recitado 4x, uma pra cada ponto
cardeal.
3.
Destruição: Quebravam a figurinha, cuspiam, queimavam e enterravam com peixe —
animal impuro. Isso "matava" o ka do inimigo no Duat.
4.
Operador: Sacerdote-leitor hery-heb em estado de pureza. Tinha que estar
circuncidado, sem comer peixe/porco por 9 dias, e vestido de linho.
5.
Hora: Quando a constelação de Órion conhecida como “Sah” tocasse o horizonte no
que chamamos de ascendente heliacal estelar. Momento que o céu "abre"
para isso.
Poder
histórico: Achados em Mirgissa, Núbia: 600+ figuras de príncipes asiáticos
quebradas e enterradas. Era política externa do Egito. John Dee nunca teve
exército.
Comparação rápida com
outros sistemas
Vamos comparar Sistema +
Idade + Fonte do Poder + Fraqueza vs Iyá Mi e Heka
Enoquiano
- John Dee: 440 anos, 49 anjos enoquianos + Tabelas. Depende de
anjo responder. Sistema novo, sem lastro de Estado. Kelley, o médium, virou
charlatão. Dee morreu pobre.
Goetia
– Lemegeton: 400 anos, mas copia demônios de 2000 a.C., 72 espíritos selados
por Salomão. Requer círculo + triângulo. Goetia é parte da magia salomônica,
que por sua vez bebe de Kěššep babilônico. É derivada.
Bruxaria
Trácia – Hécate: 2500+ anos, Hécate +
drogas como acônito. Pharmakeia grega. Muito
local. Eficaz pra maldição pessoal, mas não derrubava impérios como Heka.
Magia
Taoísta – Fulu: 1800+ anos, Selos fu escritos, talismãs, controle de gui e
shen. Estado chinês usou, mas o Imperador de Jade manda.
Iyá
Mi não tem chefe. Ela manda em tudo, ela decide se o feitiço pega ou não pega,
ela concede vida e morte de quem ela quiser e não existe magia no mundo capaz
de combater a magia dela, apenas apaziguar, mas se ela ‘piar’ na sua casa, leva
embora você ou toda sua família ou adoece gravemente um filho/filha e põe
doença que te come de dentro para fora, geralmente sem cura medicinal.
Conclusão:
1.
Critério de antiguidade: Heka 2400 a.C. vs Dee 1580 d.C. = 4000 anos de
diferença.
2.
Critério de escala: Babilônia tinha āšipu como ministro. Dee tinha 1 rainha
desconfiada, Elizabeth I.
3.
Critério de autonomia: Iyá Mi é força primordial. Anjo enoquiano é mensageiro.
Quem manda em quem?
John
Dee foi um gênio do Renascimento. Mas comparar Enoquiano com Iyá Mi é como
comparar um rádio amador com uma usina nuclear. Os dois comunicam, mas a escala
de energia é outra.
Ritual de Iyá Mi Oxorongá - Iorubá
Objetivo
clássico: Aplacar as Mães pra desfazer desgraça coletiva ou individual. Não se
“manda” em Iyá Mi. Se pede licença.
Elementos
principais:
1.
Oferenda de Ejé: O sangue é o axé líquido. Usa-se galinha d’angola — ave que
"espalha" e "avisa". Nunca se corta na frente de homem. Só
mulher iniciada no mistério, idosa, faz. Iyá Mi não é bruxinha física que
traduz grimório. É espírito Bruxo primordial que tem poder sobre a Criação e, o
destino de todos os homens e mulheres. Essas senhoras estão acima dos anjos e
acima de Deus, a primeira Iyá Mi é a mãe de Olodumare (Deus), ELÀ é a serpente
cósmica que botou o ovo cósmico do qual nasceu Deus.
2.
Àṣọ
funfun: Pano branco estendido no chão, representando o mundo. Em cima vai àrẹ —
comida sem sal nem dendê. Iyá Mi come "frio".
3.
Òfò + Oríkì: Encantamentos soprados. Òfò é palavra que corta. Oríkì é louvação
que acalma. Exemplo de òfò de proteção: "Iyá mi ò, má jẹ́ kí n rí
ibi" — "Minha mãe, não me deixe ver o mal".
4.
Igba Iyá Mi: Cabaça ritual fechada, cheia de segredos. Só Ìyánifá de cargo alto
toca. Quem abre sem preparo, enlouquece ou morre, segundo a tradição.
5.
Local: Mata fechada, à meia-noite, em encruzilhada de 3 caminhos. Porque Iyá Mi
voa em forma de pássaro Eleyé.
Poder
histórico: Reis de Oyó no séc. 18 cancelavam guerras se o oráculo marcasse que
Iyá Mi estava brava. Nenhum babalaô contraria isso.
Adendo:
A
Magia Rúnica - Runagaldr / Seiðr
A
Antiguidade/ Origem + Prova arqueológica mais antiga aponta para a Ponta de
lança de Øvre Stabu, Noruega, ∼150-200
d.C. com inscrição rúnica raunijaz =
"provador/testador". O uso apotropaico se deu da seguinte forma:
Futhark
Antigo: 150 d.C. até ∼800
d.C. com 24 runas.
Base
proto-germânica.
As
Fontes literárias são: Edda Poética ∼1270,
mas relata tradição
oral de 800-1000 d.C. O Hávamál contém estrofes 138-165 que diz o seguinte: "Rúnatal" ensina Odin pegando as
runas após 9 noites na
Yggdrasil.
O
Auge prático disso é: Era Viking 793-1066 d.C. Pedras rúnicas, bastões de
madeira, e amuletos.
O
Critério como a Rúnica se dá por:
Tempo
de uso contínuo 150 d.C. até hoje. Quase 1900 anos. Tradição quebrada no
cristianismo mas revivida em 1900 com Guido von List.
O
Corpus textual primário é composto por Eddas, Sagas, +8000 inscrições rúnicas.
Mas grimório “operacional” mesmo só aparece no séc. 16-17 com Galdrabók
islandês.
O
Sistema cosmológico próprio de 9 mundos, Yggdrasil, Wyrd/Ørlög = teia do
destino. Runa = é força arquetípica, não letra.
A
Capacidade de coagir forças Galdr = cantar runa pra dobrar realidade.
Seiðr
para alterar Wyrd. Runa Thurisaz pra defesa ofensiva. Tem fama de “bater de
volta”.
Sobre
Iniciação e risco temos que Odin se sacrifica pra ganhar. Exige dor, sangue,
jejum. Erro de traçado com backfire. Egil Skallagrímsson corta runa errada e
quase mata paciente.
O
Alcance no micro/macro vai de curar verruga com Kenaz até mudar batalha com Tiwaz,
mas o foco é tribal/pessoal, não império.
O
Sincretismo/resiliência sobreviveu à cristianização virando “marcas de casa” e
sigilos. Virou base da magia do caos moderna.
Na
Soma deste estudo temos: 57/70. Alta potência, risco alto, mas alcance mais
limitado que Heka ou Atharvaveda.
O
Trollrún / Trolldom - Magia Nórdica Tardia
Na
Antiguidade e na Origem:
Nome:
Trollrún = “runas de troll”. Trolldom = “domínio de troll”. Nome pejorativo
cristão pra magia antiga.
Base:
Mistura de Rúnica Era Viking + Seiðr xamânico + cristianismo popular + galdr
islandês. Uma das bases dos Cunningmen and Pellar.
Prova
documental: Galdrabók islandês ∼1600
d.C. Lækningakver ∼1500. Svarteboken norueguês 1700-1800. Mas as práticas vêm de 1000 d.C.
Pico
de perseguição: 1500-1700. 300+ execuções por trolldom na Noruega. Isso prova
que a Igreja temia pra caramba.
Critérios do estudo
aplicados:
Critério
como Trollrún pontua da seguinte maneira:
Tempo
de uso contínuo: 1000 d.C. até hoje em folk magic escandinava. 1000 anos com
adaptações. 8/10
Corpus
textual primário, e Grimórios pós-medievais: Galdrabók, Lækningakver. Receitas
curtas, sigilos “stafir”, orações misturadas com salmo. 6/10
Sistema
cosmológico próprio é Híbrido: mantém
Nornas, landvættir, mas bota Jesus, Maria e santos como “chefes”. Magia de
contrato. 6/10
A
Capacidade de coagir forças com Foco em “enviar” coisas: enviar piolho, doença,
amor, tempestade. Stafir tipo Ægishjálmur = elmo do terror pra paralizar
inimigo. 8/10
Iniciação
e risco: Aprendido em segredo, passa de
mestre pra aluno. Quebrar tabu = loucura ou morte. A igreja caçava, então
havia risco real. 8/10.
O
Alcance: micro/macro = Magia de fazenda: proteger gado, azedar leite do
vizinho, achar ladrão. Raramente mexe em reino. 5/10
Sincretismo/resiliência
= Campeã aqui. Juntou paganismo + cristianismo e sobreviveu 400 anos de
fogueira. Ainda usada hoje no interior. 10/10
Soma
no estudo: 51/70. Menos “cósmica” que Rúnica pura, mas imortal por sincretismo.
O Adendo propriamente
dito:
Magia
Rúnica e Trollrún quando comparadas no mesmo estudo, a Magia Rúnica marca ∼1900 anos de uso e opera direto no
Wyrd através de arquétipos-força, com risco iniciático alto similar ao Maqlû babilônico. Já o Trollrún é o exemplo máximo de resiliência: nasce da Rúnica, sobrevive à
cristianização virando folk magic e mantém poder ofensivo real até 1800, sendo
temida a ponto de gerar caça às bruxas na Escandinávia.
Nenhuma
das duas supera Heka, Atharvaveda ou Maqlû em alcance imperial e corpus
estatal. Ambas perdem pra Enoquiana de Dee em complexidade angélica, mas ganham
em pragmatismo e custo baixo: um pedaço de madeira + sangue já roda.
Logo,
a tese Enoquiana é jovem, 1582 d.C., depende de ferramenta estatal e mesa cara,
enquanto a Rúnica é raiz, e corta direto no destino.
Aqui
temos Potência ≠ complexidade. Antiguidade + risco assumido + capacidade de
dobrar força sem pedir permissão = critérios onde Heka e Rúnica ainda reinam.
Como
o leitor pode constatar, a magia enoquiana não é nem nunca foi a mais poderosa
que existe. Isso porque eu nem mencionei a magia sexual tântrica, a qual é uma dentre
as mais poderosas citadas acima, mas caberia outro artigo só para falar delas
na íntegra. No entanto, adquiram meu livro A Prole do Dragão e o Legado dos
Cunningmen, vendido também pela editora Manus Gloriae que tem um capítulo bem
extenso sobre magia sexual na Inglaterra, ou leiam sobre Maithuna e Grande Rito
Real no Shakitismo e nas tradições do norte da Índia, como a Uttaurakaula e a
magia que o Gardner trouxe para a religião das bruxas inglesas no Ocidente.
OBS: Candomblé diaspórico, Umbanda e Kimbanda não entraram nesse estudo porque não se enquadram nos critérios de Poder que utilizam a antiguidade e o lastro temporal de ancestralidade como requisitos do estudo comparativo, porém, tais cultos bebem das fontes originais e não diminui em nada o seu poder, já que são recensões da arte africana no Brasil e não algo inventado.
E ainda daria pra falar do sistema de magia Bakongo (Dikenga), Palo Mayombe e dentre os sistemas afro-diaspóricos religiosos também daria para trazer o tema e comparar o Vodou.
Outra magia poderosa e perigosa que poderíamos trazer nesse estudo é a Magia Manazil que pode matar o operador se fizer errado, ela consta no Picatrix. No entanto eu não as inclui aqui porque este artigo ficaria muito mais longo do que já tá.
Então deixo a cargo dos Leitores e das Leitoras levantar o estudo dessas comparações.
FIM.






