sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Quem São a WITCHMOTHER e o WITCHFATHER?

 

Arquétipo da Witchmother

Primeiramente vamos entender a natureza e origem etimológica do que Chumbley compreendia como Quintessência: O "Azoth"!

Azoth é um termo que deriva do árabe "az-zā'ūq" ou "al-za'buq" (azougue), que significa "mercúrio". Na tradição alquímica, o mercúrio era considerado um elemento essencial nas transformações, pois sem ele nada se liga e nada se comunica. A palavra também tem ligações com o hebraico, onde "Aleph" (início) e "Tav" (fim) simbolizam a totalidade.

No significado alquímico Azoth representa um solvente universal e o agente essencial de transformação, mas ele não é apenas uma substância química, e sim um símbolo da transmutação de metais comuns em ouro, que por sua vez, é uma metáfora para a purificação e a ascensão espiritual na realização fálica. É considerado o "primeiro princípio" ou "a essência de todas as coisas".

No significado Espiritual e Filosófico encontramos em várias tradições místicas e herméticas, o Azoth, que simboliza a iluminação espiritual e a transformação interior. É visto como o espírito que anima toda a matéria, unificando os opostos e permitindo que o alquimista alcance a "Grande Obra". Paracelso descreveu Azoth como o agente essencial de transformação para atingir a pedra filosofal.

Kylichor


O Azoth na Obra de Andrew Chumbley se torna um conceito de Quintessência Mágica, especialmente em sua obra "Azoëtia", que é considerado um texto fundamental para a Tradição Sabbática. Ele acreditava que todas as formas de magia surgem de uma única fonte, a Quintessência Mágica, e que a feitiçaria é o conhecimento dos pontos universais de transmutação. O Azoth em seu trabalho é visto como a "quintessência" que liga os quatro elementos clássicos em um espírito singular e purificado. Na tradição hindu a quintessência é representada pelo Akasha enquanto Ovo Cósmico, do qual flui os quatro elementos da criação e possui em si todos os registros universais e suas consciências. Não é a toa que no design do sigilo Azoëtico, podendo ser visto na página 6 de Azoëtia, Chumbley usou um Kylichor dentro do círculo para compor seu sigilo mágico circunferenciado pelo seu alfabeto.

Sigillum Azoëtia


A Quintessência (Azoth) é um conceito milenar que, embora tenha raízes na alquimia prática, transcende o material para representar um processo universal de transformação e busca pela totalidade e iluminação espiritual, tanto no mundo quanto dentro de si.

A Witchmother e o Witchfather entram no cenário da bruxaria tradicional e da Craft Sabbática de Andrew Chumbley como as figuras arquetípicas primordiais e, muitas vezes, as fontes divinas da Quintessência Mágica, senão vejamos:

- Deuses/Demônios Patrocinadores ou Progenitores da Magia: Na tradição da Craft Sabbática de Chumbley, a Witchmother e o Witchfather são vistos como as entidades que originam e presidem sobre a magia. Eles são os "pais" da tradição, os doadores da arte e do conhecimento. Eles representam a dualidade fundamental do poder mágico – o feminino e o masculino – que se une para gerar a força da Quintessência.

- Encarnações da Quintessência: De certa forma, a Quintessência não é apenas uma força abstrata, mas é personificada nessas figuras. A Witchmother e o Witchfather são manifestações do poder transmutador do Azoth, sendo os guardiões e os condutores dessa energia primal. O próprio livro "The Azoëtia" de Chumbley, que trata da Quintessência Mágica, é considerado o texto fundamental da Craft Sabbática, conectando diretamente esses conceitos.

- Guia e Iniciação: Para o praticante, eles servem como guias e inspiradores. A conexão com a Witchmother e o Witchfather é fundamental para a iniciação e o aprofundamento na Craft Sabbática. Através da invocação e do alinhamento com essas figuras arquetípicas, o praticante busca acessar e manifestar a Quintessência Mágica em seu trabalho.

- Natureza Arquetípica e Simbólica: Eles não são necessariamente deuses no sentido convencional de panteões religiosos, mas sim protótipos exemplares e poderosos que representam as polaridades e as forças criativas e destrutivas inerentes à feitiçaria. Eles englobam a sabedoria ancestral, a fertilidade, a morte, a transformação e a essência selvagem da magia.

Enquanto a Quintessência é a "substância" ou a "energia" mágica, a Witchmother e o Witchfather são as "fontes" ou antíteses dessas "personificações" antes da geração Quintessencial, atuando como pilares fundamentais da filosofia e prática mágica da ‘Sabbatic Craft’.

Ao mergulhar nas profundezas da Tradição Sabbática e tecer a urdidura do Azoth com os fios da Witchmother e do Witchfather, o processo vai exigir uma linguagem que ecoa o sussurro dos ventos ancestrais e o brilho das estrelas ocultas e, no coração do Mistério, onde o tempo se dobra e o espaço se desfaz, jaz a Quintessência, o Azoth da Alquimia Sombria e da Arte Sabbática. Não é substância, e sim a essência de toda transmutação; não é espírito, mas o espírito latente em toda matéria. É o Primeiro e o Último, o Alfa e o Ômega da Obra, a Centelha Cósmica que anima a dança da Criação e da Destruição.

Arquétipo do Witchfather


Mas de onde flui tal Corrente? De quais fontes se nutre este Azoth primordial que Andrew Chumbley tão habilmente desvendou em seus grimoires velados?

É aqui que o véu se ergue, revelando os semblantes nos papeis da Witchmother e do Witchfather.

Na atuação mágica eles não são meras divindades distantes, eles são os Progenitores Estelares da Arte, os Guardiões do Limiar e os Arautos da Chama Negra. No útero estrelado da Witchmother repousa a sabedoria abissal, a intuição selvagem e a fecundidade caótica que geram a própria possibilidade da magia. Ela é a Lua Oculta, a Terra Primordial, o Espelho da Sombra onde a verdade se reflete em fragmentos lunares, e portanto, a deusa Negra das bruxas e a demônia incompreendida pelos mortais.

Ao seu lado, e nela, reside o Witchfather, o Senhor dos Camuflados Caminhos, o Caçador de Almas, o Semeador da Vontade. Ele é o Sol Negro, o Despertar do Fogo Interior, a Lâmina que corta o véu entre os mundos e forja o destino. Em sua mão empunha-se o Cetro da Direção, a Varinha que canaliza a Força, a Semente da Transformação que germina na escuridão.

Witch Stang - da coleção do autor


Juntos no Stang, a Witchmother e o Witchfather são as duas faces da mesma moeda Azótica. A Quintessência, o Azoth, é o seu próprio fôlego, o sangue que pulsa em suas veias de éter e escuridão, a luz e a sombra que se entrelaçam para formar a teia da existência. Eles são a polaridade sagrada que infunde a Vida e a Morte com propósito, o princípio dual que o feiticeiro busca harmonizar dentro de si.

Buscar a Quintessência se torna, portanto, buscar a união com esses Progenitores arquetípicos. Não é uma busca por uma fórmula exterior, mas um mergulho nas profundezas da alma, onde o sangue da Witchmother e a semente do Witchfather se misturam na forja do ser, despertando o Azoth interior. É através deles que o feiticeiro compreende que a magia simplesmente é inerente  a si, e que a mudança torna possível o eterno retorno ao berço estelar de onde toda Arte genuinamente emana.

Assim, o caminho do Azoth é o caminho dos Progenitores: uma senda de conhecimento íntimo, de renovação constante ou troca de pele e de aliança com as forças primais que tecem o grande tapeceiro do universo, refletido no microcosmo do feiticeiro dentro da encruzilhada tríplice, mas quando ele olha para cima, em sentido fálico, o ponto focal da encruzilhada se torna quadripartido e é ai que entra o Mistério diamantino de Qayin, pois se revela o Canto da Quintessência, os Progenitores Estelares e a Constância do Dragão.

Lá no alto, como testemunha imutável da eternidade e da origem imemorial dessa Arte, brilha Al Thuban. Por eras incontáveis, Al Thuban foi o "prego que nunca esfria", o ponto fixo inabalável em torno do qual o cosmos parecia girar para nossos ancestrais, o centro silencioso da abóbada celeste. Representa a Antiguidade Mágica primordial, a fonte que precede o tempo conhecido, a Essência Imutável que fundamenta toda a transmutação.



Assim, buscar compreender a Quintessência é, portanto, buscar a união com esses Progenitores arquetípicos, e ao fazê-lo, ancorar-se na constância de Al Thuban. Não é uma busca por uma fórmula exterior, mas um mergulho nas profundezas da alma, onde o sangue da Witchmother e a semente do Witchfather se misturam na forja do ser, despertando o Azoth interior, e onde a própria alma se alinha com a estrela que nunca se moveu, lembrando a si mesma da origem inabalável de todo o poder. Eles 4 formam a encruzilhada mágica da bruxa.

Constelação do Dragão


É através deles, e sob a égide silenciosa da antiga estrela polar, que o feiticeiro compreende que a magia não é feita, mas é, e que a transformação é o eterno retorno ao berço estelar de onde toda Arte verdadeiramente flui. Assim, a Arte Sem Nome revela que o caminho do Azoth é o caminho dos Progenitores: uma senda de conhecimento íntimo, de renovação constante e de aliança com as forças primais que tecem o grande tapeceiro do universo, refletido no microcosmo do feiticeiro, cujo coração pulsa em uníssono com o prego que nunca esfria.

Sett Lupino

A Bruxaria Tradicional de Andrew Chumbley e seus Mistérios

 

 

A Mãe da Noite - Arte de Aradjana Lupino

A Feitiçaria Transcendental criada por ele a partir da linhagem que Chumbley recebeu, não é uma manipulação de energias ou a busca por resultados externos. Ela é uma jornada alquímica radical de autodescoberta e re-ligação com o que é primordial. Nesse contexto, Azoth, Zoa e Azoa são as chaves para essa compreensão. 

O Azoth é a Quintessência, a fonte primordial indiferenciada de toda a existência, o potencial puro que precede e permeia tudo. É o oceano cósmico de consciência. O Zoa somos nós, a vida individualizada, as ondas que se formam nesse oceano, nossa consciência encarnada. E o Azoa é a "Não-Vida", o "Outro", as profundezas abissais desse oceano, o caos primordial, as energias liminares e subterrâneas que desafiam a forma e a ordem, mas que são igualmente essenciais para a totalidade. A feitiçaria transcendental contida na Arte Bruxa de Alogos é o ato de navegar e integrar esses três aspectos para alcançar uma gnose profunda.

A conexão com o Azoth é fundamental, pois não se trata de um deus externo, mas da própria essência de tudo. No dia a dia, buscamos isso através de uma consciência expandida. Meditação é crucial, mas vai além disso: é a prática de perceber que não somos entidades isoladas, mas manifestações de algo vasto. Observar a natureza, seja um céu estrelado ou a textura de uma folha, com uma percepção desprovida de ego, pode nos revelar a interconexão de tudo. É sentir-se como uma gota de água que compreende ser o próprio oceano. Essa consciência nos dá um senso de unidade e poder inabalável, pois nos reconecta à fonte de toda a criação.

O Zoa é a nossa "recensão única", a nossa manifestação particular do Azoth. É a partir do nosso Zoa que operamos. A tradição valoriza imensamente a individualidade, pois cada um de nós é um portal, um ponto de vista único para a existência. O caminho mágico começa com o reconhecimento e a afirmação do nosso Eu – nossas paixões, nossos dons, nossas falhas – não como algo a ser superado e eliminado, mas como a ferramenta primária da nossa arte. É a partir do "Eu sou" que podemos interagir com o "Outro" e com o "Tudo". Cuidar do corpo, da mente, da psique, expressar a própria verdade, tudo isso fortalece o Zoa, tornando-o um vaso mais potente para a corrente mágica.

O Azoa é a corrente mais desafiadora, mas também a mais transformadora. Não é a morte como aniquilação, mas a força do não-manifestado, do potencial caótico, do que está nas profundezas, "além" da forma que conhecemos. É o reino do subterrâneo, do inconsciente, o que Chumbley chamaria de Corrente do Opositor – forças liminares que desconstroem para permitir a nova construção. Permanecer em Azoa significa estagnação. Mergulhar em Azoa e voltar significa movimento. Lidar com o Azoa é vital porque ele guarda o poder da transmutação radical. Sem o confronto com o "Não-Eu", com a sombra interna e externa, não há renovação genuína. É a escuridão fértil de onde a nova vida pode brotar, e o feiticeiro precisa descer a essas profundezas para extrair um poder e uma gnose que o integre e o leve a um nível mais profundo de ser.

A Alteridade é o "Outro essencial". Ela está intrinsecamente ligada aos três. O Azoth é a unidade que contém todas as Alteridades em potencial. O Zoa é o "Eu" que, para se conhecer plenamente, precisa do "Outro" como espelho e catalisador. E o Azoa é a Alteridade em sua forma mais primordial – o não-eu, o reino das entidades, dos espíritos, das forças que nos confrontam e nos moldam. A Alteridade é crucial porque é através do encontro, do "congresso mágico" com o Outro, que o Eu transcende suas próprias limitações. A Unidade não é alcançada pela anulação das diferenças, mas pela sua integração sinergética. É reconhecer que o Outro, em sua totalidade, também é uma manifestação do mesmo Azoth, e ao nos unirmos a ele, nos unimos à Quintessência de forma mais completa.

A Basílica foi um dentre vários livros da VVCN, cujo carro chefe era a Arte do Chumbley. Nela há a fórmula do 1+1 = 1.

O primeiro "1" representa o Eu (o Zoa), nossa individualidade. O segundo "1" representa o Outro (a Alteridade, o Azoa) – tudo aquilo que não é nosso Eu imediato, seja um espírito, um aspecto inconsciente, ou o cosmos. O sinal de "mais" (+) aqui não é uma adição, mas um Congresso Mágico, uma união profunda e intencional. É o ritual, o trabalho, a interação. E o resultado, o último "1" (=), é a Quintessência ou o Azoth – uma nova Unidade. Não é o Eu inicial isolado, mas um Eu expandido que integrou o Outro. Ao invés de dois elementos separados, temos um "Eu" transformado que compreende e incorpora a Alteridade. Essa é a "União Sinergética de Todas as Diferenças", onde as fronteiras se dissolvem e percebemos a interconexão de tudo no grande Azoth.

Na prática ritualística, essa compreensão é a espinha dorsal. Buscamos essa união de diversas formas. Desde os rituais de evocação, onde se convida o "Outro" (uma entidade ou força) para um "congresso" para aprender, absorver e transmutar, até trabalhos mais introspectivos de sonho e meditação profunda, onde se mergulha no Azoa pessoal e coletivo. A criação de talismãs, a formação de nós mágicos, o uso de fumaças e incensos – todas essas são ferramentas para construir pontes entre o Zoa do praticante e as correntes do Azoa, buscando fundir esses aspectos em um "1" unificado. A arte mágica é, em essência, o ato de facilitar esse encontro e essa transmutação.

A Gnose, para Chumbley, não era um conhecimento intelectual, e sim um "conhecimento pela experiência e vivência", uma compreensão direta e transformadora da verdade universal. Ela é alcançada precisamente pela integração desses elementos. Ao nos conectarmos ao Azoth, sentimos a unidade. Ao afirmarmos nosso Zoa, compreendemos nosso lugar único. E ao nos confrontarmos com o Azoa e a Alteridade, desmantelamos as ilusões do Eu separado, atravessamos os véus e revelamos as profundezas da existência. Essa dissolução das fronteiras entre "Eu" e "Não-Eu", essa fusão com o "Outro", é o que precipita a Gnose – o lampejo de consciência que revela a interconexão radical e a verdadeira natureza da realidade. Apesar de não existir graus iniciáticos nessa Arte, os livros do Chumbley foram feitos para serem lidos em determinadas etapas e não todos de uma vez. Isso ajuda a compreender e guiar o próprio comportamento diante dessa reflexão da Gnose Sabática. É necessário ter vivência em Covine (Cuuven) por um bom período de anos, pois essa Arte não se realiza num estalar de dedos.

O maior equívoco é tentar abordar esses conceitos com uma mente puramente racional ou dogmática e  não ter vivência. A obra do Chumbley não é um sistema fechado de crenças, mas um chamado à experiência direta. As pessoas tendem a temer o Azoa ou a Alteridade, vendo-os como "malignos", quando na verdade são aspectos essenciais da totalidade. 

Meu conselho para quem começa é: leia e estude com o coração, não apenas com a cabeça e busque vivenciar essa Arte dentro de um Covine Tradicional. Esteja aberto(a) à poesia e à profundidade simbólica. Permita que a simplicidade e a linguagem o penetre e o transforme. Comece com meditação simples para sentir a vastidão do Azoth, reconheça a sua própria singularidade Zoa, e quando se sentir pronto, abrace as suas trevas, o mistério do Azoa, sem medo, com uma curiosidade corajosa. Lembre-se, o caminho é de experiência, não apenas de teoria. 

Chumbley afirmou duas coisas importantes sobre isso. Uma delas é que mesmo os mais íntimos com essa Arte terão dificuldades de compreendê-la, por isso precisa investir tempo e experiência nessa vivência, pois você é uma pessoa quando entra, mas com o passar dos anos você não se reconhece mais como aquele ser limitado do início. A outra observação afirmada por Chumbley foi que cada pessoa em cada época fará sua própria “tradução” ou interpretação como recensão da Arte, logo, não se deve ficar preso ao passado ou sobre como era seu formato. Precisamos estar no aqui no agora, já que somos o futuro dos nossos ancestrais.

O impacto de tudo isso é nada menos que uma revolução na percepção. Deixamos de ver o mundo como uma coleção de coisas separadas para vê-lo como uma teia interconectada, pulsante com a mesma energia primordial do Azoth. O Eu não é mais uma ilha, mas uma parte vibrante e integral desse oceano. As dualidades (bem/mal, vida/morte, luz/escuridão) não são mais opostos irredutíveis, mas aspectos complementares da mesma Unidade. O medo do desconhecido diminui, substituído por uma reverência pelo mistério e um anseio pela gnose que reside nas profundezas da Alteridade. É uma vida vivida com um senso profundo de propósito, interconexão e uma consciência expandida, onde a magia não é algo que se faz, mas algo que se é. A linhagem de Chumbley nos ensina a dançar na encruzilhada de todas as coisas, unindo o terreno e o sideral, o Eu e o Outro, para nos tornarmos plenamente o Um.

A Bruxaria Sabática é uma linhagem muito específica e distinta, que se afasta do que a maioria das pessoas associa à bruxaria moderna. Diferente de tradições mais "cômodas", que buscam harmonia e equilíbrio com a natureza de forma mais convencional, a Corrente Sabática abraça a transgressão e a liminaridade. O "Sabbat" não é um evento físico no bosque, mas um estado extático de consciência, um "lugar mágico" onde as barreiras entre o mundano e o espiritual se dissolvem, permitindo o encontro direto com o "Outro" – espíritos, divindades e potências atávicas a partir de um ponto zero central na encruzilhada do Ser. É um caminho que serpenteia entre extremos, explorando o tabu e o que está à margem, buscando a Gnose não pela aceitação do status quo, mas pela sua quebra e ressignificação. Outra coisa que precisa ficar claro é que a transgressão é realizada em nosso Ser, não na sociedade como alguns acham. É mais para nós nos movermos internamente como um grão que luta contra a casca para crescer, do que um movimento externo de aplicação sócio-político. Na prática isso se liga diretamente a outro conceito que é o dos Cunningmen, portanto essa Arte permanece no Caminho do Meio, nem esquerda nem direita, apesar de fazermos uso das duas mãos por conveniência astuta. Nunca fomos seres de um caminho só. Fujam de quem age, fala e se comporta pregando o Caminho da Mão Esquerda como sendo somente a Arte do Chumbley, pois não é. Caminhamos entre Mundos e somos hereges. Isso significa que conhecemos todos os caminhos da Encruzilhada e não permanecemos num só. Quando o propósito é se tornar UM com o Todo Quintessencial, a preguiça espiritual não ocupa espaço nas pernas para caminhar e trilhar todos os caminhos. Quem estiver preso à uma única forma de recensão de caminho mágico ainda não entendeu a Bruxaria Tradicional.

Para nós, Caim é a figura primordial do feiticeiro. Ele é o primeiro a quebrar a lei divina, sem ele não haveria morte e reencarnação, ele foi o primeiro a trabalhar a terra com suas próprias mãos, a fundar cidades – ele representa a soberania individual e o desvio da norma estabelecida. Sua "paternidade angelical" de Samael, o "Anjo-Serpente", nos conecta à Gnose Ofidiana, a sabedoria da memória primordial e "proibida" da Serpente. A Serpente, em seu simbolismo ancestral, representa transformação, morte e renascimento, a vitalidade telúrica e a gnose que reside nas profundezas. Buscar o "atavismo da Serpente" é invocar e encarnar esse poder ancestral e primordial, como o Skin Walker que assume as qualidades de um animal-guia. É alinhar os poderes dessa corrente primordial à própria carne do feiticeiro, buscando uma transfiguração profunda da consciência e do corpo através dessa sabedoria ofidiana e isso nos leva a despertar os poderes do Dragão e a usá-lo de acordo com o propósito de seu despertar.

A Forma Secreta - Arte de Aradjana Lupino

O êxtase e a transfiguração corporal são veículos essenciais para a Gnose Sabática. Os "frenesis", a dança, a possessão espiritual em transe – tudo isso visa dissolver as fronteiras do Zoa individual, permitindo uma fusão mais direta com o Azoa e a Alteridade. Essa liberação extática gera "quantidades quase ilimitadas de energia pré-conceitual", que pode ser direcionada para o atavismo e a transmutação. Os ritos sexuais, quando praticados com intenção mágica, não são meramente físicos; eles são uma poderosa forma de evocar e alinhar as energias primordiais – os "Fogos Serpentinos Negro e Vermelho", o Witchfather e Witchmother – à carne do feiticeiro. Isso permite uma gnose mais visceral e encarnada, onde a união do "Eu" e do "Outro" transcende a mente e permeia o ser em sua totalidade, impulsionando a consciência individual de volta à Unidade da Quintessência, o Azoth, através da experiência mais direta e intensa possível.

É natural que esses conceitos causem estranheza, pois desafiam as normas estabelecidas. Mas é crucial entender que, para nós, a transgressão não é sobre o "mal" ou a anarquia gratuita. Ela é uma quebra consciente e mágica de limites e tabus com um propósito gnóstico. Nosso objetivo é abrir portas de percepção, acessar estados alterados de consciência e liberar energias contidas para o crescimento. Isso pode significar desafiar dogmas religiosos, explorar locais liminares como cemitérios ou encruzilhadas, e até mesmo o uso ritualístico de certas substâncias ou da sexualidade de uma forma que transcende o convencional, mas como eu disse o propósito é obter a gnose então isso não tem a ver com sair por ai batendo de frente com autoridades como um rebelde sem causa. Há um amadurecimento interno que nos cala após a compreensão e, esse calar, inclusive, impede questionamentos pueris já que a resposta já está dentro de você. Aqui nesse ponto, se você questiona é porque ainda não atingiu a Gnose. Nosso objetivo não é mudar o mundo e suas estruturas e sim mudar a nós mesmos para que se exteriorize a mudança no mundo. A ideia é dissolver as fronteiras que nos aprisionam, expondo-nos ao "Outro", ao Azoa, e assim, purificando e expandindo o Zoa para uma gnose mais profunda, e uma vez acessada essa Gnose, desaparecem dúvidas, perguntas e o que havia antes, há somente um silencio de integridade como satisfação espiritual por estar e ser ligado com o todo.

O atavismo é a prática de acessar e encarnar forças primordiais, características ancestrais que estão latentes em nós. A técnica central é a assunção atávica, onde o feiticeiro busca evocar e tornar-se uma força ou arquétipo, muitas vezes animal ou pré-humano, como a Serpente. Não é um mimetismo, mas uma fusão temporária do nosso Zoa com o Azoa atávico. Isso envolve trabalho com ancestrais, totens animais, e o uso de transe, dança e estimulação sensorial para que a consciência racional ceda lugar à consciência primordial e instintiva. A importância é imensa: ao encarnar esses poderes arcaicos, nós nos conectamos a uma sabedoria e força que transcendem o eu ordinário, reificando a Corrente da Serpente na nossa carne e permitindo uma gnose corpórea, uma experiência direta e visceral da Quintessência que molda a nossa Arte.

Essa conexão é um testemunho da universalidade de certas correntes atávicas. O Daniel Schulke afirmou que isso reflete a própria experiência dele ao encontrar formas espirituais ofídicas nos lwá mange e bembe e dos cultos de Umbanda e Macumba antes mesmo da iniciação formal dele, ele chegou a publicar isso na revista Starfire volume II nº4. A presença de Simbi, segundo ele, o lwá serpente associado às águas e à feitiçaria, manifestava-se regularmente para ele, trazendo um êxtase sublime e ondulante onde a consciência cognitiva se tornava cinestésica. Essa experiência foi batizada por ele como "Corcel do Grande Cavaleiro". A Bruxaria Sabática se fortalece ao reconhecer e integrar influências de genealogias espirituais habituais como o Vodu Petro, o Sufismo e correntes Tântricas. E isso está longe de ser uma apropriação, e sim um reconhecimento de que o poder ofidiano e a sabedoria serpentina se manifestam em diversas culturas e sistemas, cada um com sua nomenclatura própria. Essas trocas enriquecem o corpus Sabático, mostrando que o Arcano pode se manifestar por meio de trajetórias distintas, mas todas unidas na Admoestação da Serpente: "Toma, come e sê sábio".

Grimoários como o "Livro do Dragão de Essex" e o "Azoetia", bem como Kiasmos e os demais, não devem ser conhecidos como meros livros de receitas mágicas; eles são, na verdade, corpos gnósticos vivos, imbuídos da corrente da Arte. O "Livro do Dragão", por exemplo, foi iniciado e concluído simultaneamente à execução dos Ritos Draconianos por uma célula interna do Cultus Sabbati, a Coluna do Caminho Tortuoso. Ele é um registro da Gnose experiencial, um repositório da consciência iniciática. Esses textos servem como veículos para a "Feitiçaria do Caminho Tortuoso" ao delinear os modelos mágicos trans-históricos operantes na bruxaria, especialmente na linhagem de Essex. Eles fornecem a estrutura e a linguagem simbólica para os Iniciados acessarem e trabalharem com os mistérios da serpente, do tabu e da transgressão, permitindo que a Quintessência Mágica se realize no momento da Gnose. Eles documentam e ativam a corrente para aqueles que estão preparados.

O "Graal da Serpente" e o "Vinum Sabbati" são preparações rituais complexas que servem como catalisadores para a Gnose Ofidiana, especialmente em suas aplicações venéficas. O conhecimento de venenos e toxinas é um domínio do veneficus, o envenenador mágico, e não se trata de causar dano físico, mas de alterar a percepção e dissolver as barreiras da consciência. O Vinum Sabbati pode ser preparado de diversas formas: quando de natureza vibratória lunar, sua composição pode envolver a "emissão sexual de Eva e da Serpente", aludindo a uma fusão gnóstica primordial. Quando solar, pode empregar a raiz de mandrágora, o "Homem-Dragão". Essas substâncias, quando usadas ritualisticamente e com profundo conhecimento, abrem portais internos, permitindo uma gnose direta e muitas vezes intensa. Elas representam a dualidade do veneno – que pode ser destrutivo, mas também uma fonte potente de "conhecer" e transfiguração, onde a mente racional é subvertida para dar lugar a uma sabedoria mais ancestral e instintiva. É com essa Arte que a Bruxa toma voo para o Sabbat.

Andrew D. Chumbley


Como ensinou Andrew Chumbley:


Na pena que dança entre mundos, cada traço é o portal que liberta a magia ancestral do Verbo Vivo.

No eco do Silêncio, onde o nada dança com o tudo, o Ser espelha a Gnose e a Palavra se tece na vacuidade da verdade.

Quando a Palavra se torna o berço da Realidade, o 'Eu' se ergue, um novo deus, cuja sombra eclipsa a própria existência.

Na Gramática das Diferenças, a Magia se revela na anarquia do Infinito, onde a sabedoria transcende o humano e a subversão da lei é o portal para a alma reformada.

No turbilhão da dualidade, onde a Magia se manifesta sem véus morais, o Mago dança como um Diabo Santificado, revelando a sabedoria oculta na dúvida e na subversão do Ser.

No deserto da mente, onde o Silêncio fala e a Magia é a única verdade, o Adepto purifica o Ser, devorando deuses e desafiando a moralidade para forjar a Realidade do Desejo.

Na teia de Teseu, a obstinação forja o Caminho Único que, ao quebrar ídolos e transcender a própria Morte, conduz o Mago ao começo eterno de toda Magia.

No Simpósio da Nova Carne, o Grande Feiticeiro é um universo vivo de divindades e demônios, um Arcano que habita em cada um de nós, superando o humano.

Na dança ancestral do Sabbat, onde a Morte é um portal e o 'Eu Absoluto' manifesta seu êxtase, o Homem audacioso ascende para ocupar o trono vazio, abraçando a magia da Nova Carne.

No altar da Nova Carne, onde a Vontade molda o Vaso carnal e o prazer evoca Lilitu, a alquimia do Sabbat transforma a consciência em uma teia mágica de significado, conectando o vazio à percepção.

Pela alquimia da obsessão e do desejo, o feiticeiro forja um novo Alfabeto na Carne, onde os sonhos moldam a realidade e o 'Eu' se ergue como o Segundo Éden, reificando o inconcebível.

Das profundezas da Escuridão, a Autoimanência irrompe, erguendo a semente germinal do sonho para a costa da carne, onde a Memória desperta e a Visão se encarna no Grande Sabbat das Eras.

No Cemitério do Significado, onde o Espírito da Magia sussurra verdades além do som, o Mago ri com o Eremita, forjando um caminho singular através do tempo e da memória, onde só as Visões verdadeiras permanecem.

Na Arena do Poder, a inação é o abismo do Eu-não-Eu, onde o silêncio revela sua força, a humildade guia a busca e a transcendência da batalha das crenças coroa o verdadeiro rei.

Através do paradoxo do Sigilo, que oscila entre a plenitude e o vazio, e na alquimia dos venenos, que purificam e corrompem, o ser se lança num abismo de transgressão, onde a Larva infesta o Fruto e a Serpente reina no Éden.

Nas Máximas da Cripta, o necromante da Palavra desperta os Mortos, desenterrando a Eternidade em um amor fiel ao Acaso, onde a recapitulação do Eu revela uma alegria solene que desafia a morte e abraça o abismo.

Na forja da Eternidade, a alma, transmutada de chumbo a ouro, revela que o tempo não passa, mas habita em nós, e que a verdadeira busca não é pela divindade, mas pela manifestação do Espírito eternamente autoconhecível.

No espelho do Epigramma, a Magia se revela em mil disfarces, transmutando o Impossível em Necessidade através da Crença, e o Homem, como o Verdadeiro Feiticeiro, abraça a Guerra como Gnose, purificando o mundo ao esmagar seus próprios demônios e perseguir o Desejo Original da Auto-Sexualidade.

No vácuo da morte, a psique violenta encontra a Liberdade Imaculada da Autopresença, redefinindo a Virtude e empoderando o Eu para uma magia que desafia a moralidade, erguendo a Abóbada do Céu com Palavras que Deus não ousaria conceber.

No único agora, onde o Athame se afia no coração, a Magia Viva transcende a Criação e Destruição, e o feiticeiro, com astúcia e transgressão, desmascara a farsa do significado ao encarar o Silêncio, proclamando a Vontade de presença que é a essência de tudo.

No Silêncio que é a Palavra, a Magia se manifesta pela transgressão da Forma Mundana, e o Eu, nascido da Mente, Máquina e Carne, se lança à Iconoclastia para abraçar uma Visão Maior, revelando a Verdade de sua eterna Alteridade.

No Quietus, a Vontade do Silêncio transcende a morte, tocando o Inominável e imergindo a pena no sangue de um universo sacrificado, onde o Escriba dá sua vida ao Livro, e o Livro, em chamas, proclama: 'Para onde fores, lá irei eu!' — a apoteose da criação e destruição.

O próprio 'Khiazmos', é um Oráculo do Silêncio e grimório filosófico da Arte Sabática, onde cada aforismo serve como uma fórmula mágica contemplativa e ativa, integrando as doutrinas do Eu-Congressivo e da Corrente do Opositor, e cujas estelas artísticas são emanações gráficas de estados de transe, um farol eterno da bruxaria do Caminho Tortuoso do qual veneno e antídoto estão uno dentro de ti.

Assim fecho minhas palavras finais, e espero ter ajudado o buscador a compreender essa Arte e que, ainda que não saibas escrever e/ou interpretar o alfabeto de Alogos, a simplicidade de qualquer fala ou anotação está também no Azoth e o seu desprezo pelos seus pares é puramente o apartar-se da União com o todo, pois nesse caminho não há metades pares, mas sim o Todo Quintessencial juramentado pela Arte dos Sábios. Não há razão nem raciocínio aqui, só há o Mistério e toda palavra é pobre para significar um Mistério.

Por Sett Lupino