domingo, 10 de maio de 2026

NANCY DOWNS, QAYIN E O VENENO DA ÁRVORE DA MORAL DO BEM E DO MAL

 

 

Quem já assistiu o filme Jovens Bruxas (The Craft) de 1996 viu a personagem Nancy Downs, interpretada por Fairuza Balk, como uma das personagens góticas mais memoráveis. No filme, Nancy é intensa, ferida, magnética e perigosa, uma personagem cujo poder nasce tanto da dor quanto da ambição. Inicialmente, ela se apresenta como uma forasteira em busca de controle em um mundo que lhe negou segurança, respeito e amor. Sua amizade com Sarah, Bonnie e Rochelle lhe dá acesso à bruxaria, mas a magia também expõe a profundidade de sua raiva e, é aí que mora o perigo para quem busca poder pelo poder sem ter controle sobre si mesma(o). A cena é literalmente a Arte imitando a vida!



A atuação de Fairuza Balk é fundamental para o impacto da personagem Nancy.

Ela confere à personagem uma energia selvagem, transitando da vulnerabilidade à ameaça com uma facilidade perturbadora. As roupas escuras de Nancy, o olhar penetrante e o comportamento imprevisível a tornam visualmente icônica, mas a atriz também a impede de se tornar uma vilã simplista. Compreendemos que a crueldade de Nancy está ligada ao trauma, à pobreza e a uma fome desesperada por poder, reconhecimento e aceitação do mundo, ela quer ser aprovada e cultuada e não aceita ser desafiada sem dar o troco, usando a canalização do seu poder destrutivo como casca para a sua frágil defesa.

Conforme o filme avança, Nancy é consumida pela magia e em sua mente ela pode voar. Sua famosa frase, "Eu posso voar", em inglês "eu estou voando" captura tanto a libertação quanto o colapso.  Ela se sente fascinada pelo poder, mas incapaz de controlar o que ele desperta nela. Nancy Downs permanece inesquecível porque personifica a raiva, a rebeldia e o preço assustador de desejar poder sem equilíbrio e age igualmente a uma pessoa que adentra ao Caminho da Mão Esquerda sem compreender seus fundamentos para a libertação e dessa forma a sociedade não aceita a régua de sua pseudo-moral, que deveria construir ao invés de destruir. A libertação constrói um caráter em fortaleza destruindo seus falsos alicerces, apegos e crenças estagnadas, não tem a ver com destruir o que está fora de você.

É um filme de 1996 para jovens, mas capta bem a importância de um trabalho de transformação para obter controle sobre si mesma(o). O diretor do filme foi guiado por uma bruxa iniciada para conduzir as filmagens.

Por isso, como comemoração dos 30 anos desse filme, iremos hoje analisar a Nancy do filme sobre a lente do Andrew Chumbley e sua Arte Sabática.



NANCY DOWNS, QAYIN E O VENENO DA ÁRVORE DA MORAL DO BEM E DO MAL

The Craft é o Dragon Book pra adolescente. Nancy age como Qayin antes da Marca, ou Qayin que recusou a têmpera.

É Azha sem Cain. Só Dragão, sem o Ferreiro.

A Inversão da Moral é perigosa quando “Bem” e “Mal” trocam de lugar.

Comer o fruto não te dá “maldade”. Te dá Discernimento. O problema é quem come quando não sabe fazer a digestão do que comeu.

Nancy comeu com fome de Lobo desenfreado. A soma dos Traumas + Pobreza + Abandono + a falta de estudos profundos  resultam em um Minério cheio de escória, poluído, o qual chamamos vícios de caráter. 

Ela entra no Círculo e pede poder pelo poder, não transformação, ela quer ter acesso a fonte do poder.

Ela faz papel de Abel pedindo aceitação, porém com o método de Qayin.

A inversão acontece em 3 estágios:

O primeiro é a fome de sentido distorcida:

“Eu quero poder e ‘Eu quero entender’, mas ‘quero porque quero e quero agora’ um poder que não pode ser contrariado por ninguém”.

Ali ela prova o fruto por carência do que não tem.

O segundo é o Voo:

“Eu estou voando” e ‘Eu estou caindo pra cima’. Ela não consegue estar lúcida dentro da lucidez. Ela está apenas consciente e orientada no tempo e no espaço e sabe que sua alma pode voar, mas ela não está lúcida e aterrada nessa realidade ordinária e no “agora”.

A Dama com a Serpente

O problema é que o discernimento sem a bigorna vira delírio.

O terceiro é a Queda. Vira tirana, e o hospício vira o Qutub dela, onde funda cidade em terreno movediço.

Ela comeu o Mal achando que era Bem sem perceber, sem ter tido um professor da Arte.

A Moral Invertida está em Moral vulgar, o Bem obedecer, o Mal  desobedecer. 

A Moral Sabática é o Bem é Escolha com Peso. O Mal é Escolha sem Peso.

Para ilustrar isso, William Blake tem a frase perfeita:

"Quem faz o bem ao outro deve fazê-lo nos mínimos detalhes. O bem geral é a alegação do patife, hipócrita e adulador."— William Blake

Nancy desobedece, mas não se sustenta. Ela mata o padrasto, enlouquece a amiga, invoca Manon para que Manon se torne escravo do ego dela.

Isso na verdade não é Caminho da Mão Esquerda e certamente não é Traditional Witchcraft. É Caminho Sem Mão.

Chumbley em Azoëtia apresenta o seguinte: “Transgression without Artistry is but Crime”. Ou seja: Transgredir sem Arte é só crime.

A Dama com o Martelo


Mas por que a sociedade não aceita a régua dela?

Porque ela não forjou a régua. Ela pegou emprestada, mas a régua de Qayin se forja em Nod, no exílio e no pós recebimento da marca, batendo no próprio osso. Nancy quis a Coroa antes do Verme comer, e o resultado disso é a Coroa quem come ela.

O uso Errado do Poder é como o Arthana sem Têmpera!

Para quem não sabe, Chumbley explica o significado de Arthana e Athame nas obras dele.

A Nancy tem poder, mas não tem caráter. É ferro em brasa sem bigorna e Poder sem Transformação é Veneno sem a Serpente!

Lembremos que Ofíuco segura 2 cobras: Veneno e Remédio. É a mesma substância. 

Nancy pega o veneno e bebe puro, mas não tem fígado pra transmutar. Vira a Louca da Via da igreja sombria.

Na alquimia bruxa, Qayin pega o veneno e vai pra Nod por alguns anos, e vira Tubal-Cain, e só depois forja. Só então o veneno vira cura.

Quando ela afirma “Eu posso voar” vemos o BHA sem HU-LA-KA antes.

BHA é Luz, Voo, Sublimatio. Mas se você não fez HU (a fornalha), o LA esvaziou, o KA encarnou, e o voo se tornou psicose. 

Em Dragon Book temos “The Dragon lifteth not the Untempered”. Ou seja, o Dragão não levanta quem não foi temperado. Se tentar, ele te derruba pra você aprender. Assim, Nancy foi derrubada. O filme foi orientado por Bruxas reais na época e o diretor seguiu certinho o roteiro dado.

O Caminho da Mão Esquerda sem Fundamento é como a Nancy. Aqui no Brasil vemos muito seguir as obras do Crowley sem ter estado dentro da irmandade dele ou sem ter realizado o período pós iniciação que se segue justamente para se transmitir uma tradição e seus ensinamentos que servem como uma escada, cada ano é um degrau que se sobe. Assim são quase todos os esquemas iniciáticos feitos para proteção da mente do iniciado e conduzi-lo de fato pela tradição no passo-a-passo. Sem isso não se tem tradição, se tem apenas um Frankstein.

A Mão Esquerda real de Deus é Qayin pós-Marca! Quem não aproveitou o período pós marca, está obvio que a marca não pegou ou não tem astúcia suficiente.

Ou seja, a pós marca é: Eu desobedeço, e arco (com as consequências). Eu mato a Vaidade e fundo cidade. Eu sou exilado, e viro Eixo. Eu me torno o Dragão que guarda o The Point enquanto riqueza porque compreendi o passo-a-passo e a entrega virou recebimento.

A Mão Esquerda falsa é Nancy e aqui vocês imaginam quantas Nancys tem por ai. Ou seja, Eu desobedeço porque doeu e porque tenho impulso de repetir isso sem pensar. Eu faço o que faço por impulso do quero e da ousadia, sem o saber e sem o calar. Eu mato porque posso. Eu sou vítima, logo mereço trono. Vira rebelde sem causa digna do chumbo que se torna ouro e aí a obra não se completa.

Uma é forja Adamantina.

Outra é forja de vidro. E vidro voa bonito, mas estilhaça.

A Transformação é o que vem antes para que haja Astúcia do jeito certo em Como Usar os Poderes da Árvore do bem e do mal.

A Árvore não dá Bem nem Mal na verdade. Dá Responsabilidade ciente. Pra comer sem morrer, tem que virar o Qutub verdadeiro! Não tem atalhos nesse caminho! Se usar da autos sabotagem, já se perdeu.

A Receita de Chumbley em 4 Leis são:

Primeiro: a do Exílio. Nod antes de Enoque.

Não peça poder em Malkuth. Seja expulso de Malkuth. “Errante serás”. Só quem não tem chão, vira Eixo. Nancy quis poder dentro da casa, da escola, do sistema. Mas Qayin funda fora. 

Na Prática isso significa anos sem pedir reconhecimento e sem criar nada, sem se exaltar, sem se mostrar. O recém iniciado trabalha em silêncio olhando para dentro. Ali o Verme come a coroa, não a coroa comendo o dono da cabeça.

A segunda é a Lei da Bigorna! Ajoelha no Vazio.

Poder sem ajoelhar é criar Tirano, é dar luz ao bebe de Rosemary. Enquanto que ajoelhar pro mundo é Abel que não reencarna em Set, quando você ajoelha pro Vazio você se torna Qutub, é Abel que reencarna em Set.

Nancy nunca deitou. Só levitou em sua própria rabiola. Por isso caiu. Ela não fez o oroboros de forma correta.

A terceira é a Lei da Têmpera, onde Mundo é Água Fria, aquela que esfria o metal após a forja.

Depois do fogo, tem que apanhar do mundo e receber crítica, traição e perda. A Ordália é certa! Se trincar, tinha ego. Se temperar, vira Aço Negro da Arte. 

O Azoëtia é claro: “The Oppositor is the Tempering”. O Opositor te tempera. Nancy chamou o Opositor de inimigo. Qayin chama de Ferreiro.

A Dama com o Crânio


A quarta é a Lei do Fruto! Você Come e Planta.

Então vejam, Adão e Eva comeram e esconderam. Qayin comeu, foi exilado, e plantou cidade. 

O Poder da Árvore só é teu se frutificar fora de ti. Nancy usou pra vingança. Qayin usou pra Enoque (nome da primeira cidade, seu filho). 

No Dragon Book temos o seguinte: “The Arthana cutteth not for the Hand, but for the Field”. A lamina corta para o Campo, não para a Mão.

Para compreender isso vamos examinar Netzach, onde contrastamos Nancy vs Lady Lucífera.

Lady Lucífera é Estrela da Manhã possuidora das 2 polaridades. Ela é Vênus Luchífera e é Lúcifer.  Ela é Ele, e Ele é Ela. É toda possibilidade.

Ela/Ele caiu por Escolha, não por acidente. Caiu com Trono, não atrás de trono. Reencarna e desperta sabendo o que fazer.

O Teste de Netzach é simples e ninguém enxerga!

Ela te dá a Esmeralda da Coroa e pergunta: "Vai voar ou vai forjar?”

Nancy: “Vou voar!” → cai, hospício. Luz sem Peso.

É querer reencarnar sem ter passado pelo julgamento de Osíris na balança de Anúbis sob a vigia de Thot que guarda o segredo do controle de Ammut.

O segredo? Bem, Ibis come ovos de crocodilo. Fácil de entender, difícil é compreender o mistério e respeitá-lo.

Qayin: “Vou forjar.” → pega a esmeralda, mete na ponta do Arthana, e vira Tubal-Cain. Luz com Peso.

A Moral Reinvertida:

No fim do Crooked Path há o Bem = ser capaz de ser Mal e escolher não ser para não se igualar ao Deus do antigo testamento que fez mal a Caim. 

Mal = ser incapaz de ser Bem, mas fingir que escolheu. 

Em Isaías 45:7 declara a soberania absoluta de Deus sobre todas as coisas, afirmando:

"Eu formo a luz e crio as trevas; eu faço a paz e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas essas coisas".

Qayin não é soberano tirano e muito menos soberano de todas as coisas. Ele é sábio, astuto, soberano de si mesmo e usa isso com a verdadeira justiça cósmica e consequência, atributos divinos de sua herança “maléfica” advinda de sua Mãe Lilith (o demônio que a igreja teme).

Nancy não era má. Era incapaz. Por isso a sociedade não aceita a régua dela já que não tem medida. É vidro querendo ser diamante. Nesse ponto o leitor pode ter uma ideia clara do que a “Marca” realmente é feita.

A medida é quem mede a gente, não a gente medir a medida. É a exata medida e proporção das coisas. Eis a fórmula da Arte chamada Tradição. Quem não entende isso não pertence a Arte, pois é preciso forja antes de Manon atender, ter coluna de Aço Negro pra aguentar o peso do Voo.

A Dama com a Estrela


As imagens que compõem esse artigo são as Quatro Damas de Elda: Do Fruto ao Eixo.

O ciclo começa onde Gênesis mente e Azoëtia revela. Eva come o fruto por ingenuidade e é expulsa. Lilith recusa o fruto da soberba e do controle invertido e foge. Eva falha porque comeu sem bigorna. Nancy tenta repetir as duas, comendo por fome de trauma, cuspindo por achismo do medo de consequência, e voa sem ter morrido, ela ainda quer o controle, não a libertação. O resultado é hospício. É Abel com truques.

Qayin é a terceira via. Não é Eva que obedece, não é Lilith que foge, não é Nancy que surta. É quem come, é expulso, ajoelha no exílio, forja a coroa, e volta pra fundar. As quatro Damas são o retrato desse Caminho Tortuoso em osso e luz, senão vejamos:

1. Dama com Serpente — BHA, a Sublimatio 

É Eva se tivesse encarado e acompanhado a lição da Serpente ao invés de ouvir sem compreender, ela não tinha referências anteriores para saber compreender. É Lilith se tivesse beijado a boca que morde, mas ao invés de beijar ela mordeu. É Nancy antes do “Eu posso voar”. A serpente de três voltas não é tentação. É Azhdeha, o Dragão-Veneno que Ofíuco segura. Na mão da Dama, o veneno vira semente. BHA é a Luz que nasce da Sombra. Eva comeu e escondeu. Lilith cuspiu e amaldiçoou. Nancy bebeu e enlouqueceu. Qayin segura, contempla, transmuta. A serpente não sobe pela espinha dela. Ela desce pela serpente até a raiz. A maldição é estar lúcida em vida e na morte, no estado primordial de tudo. Eis a verdadeira libertação.

2. Dama com Martelo — HU, a Calcinatio 

É Tubal-Cain no feminino. Lilith forja correntes pra se prender no Mar Vermelho e se dissolver nas águas limpas. Eva forja desculpa pra se esconder no mato. Nancy forja feitiço pra se vingar do mundo. A Dama forja o próprio osso. O martelo não bate em inimigo. Bate na bigorna da própria coluna. Cada golpe é HU — o fogo que calcina o nome dado por Adão. Abel oferece ovelha. Qayin oferece a si mesmo em brasa. Por isso o mundo o rejeita: ele não pede, ele tempera. Nancy quis o trono antes do fogo. A Dama queima o trono pra forjar a espinha. Qayin é o “Homem” de Espírito. Abel é o “homem” do barro. Esse mundo é formado pela ação hierogamica de Eva e Adão, por isso são os pais da humanidade. Esse mundo é ilusório e nossas vidas aqui são passageiras. Nele há os do sangue de Qayin e há os do Sangue de Adão.

3. Dama com Crânio — KA, a Putrefactio 

É Morte Iniciática. Eva morre de velhice e vira pó. Lilith não morre e vira assombro desafiador. Nancy morre por dentro e vira paciente. A Dama morre por vontade e vira Trono. O crânio na mão não é memento mori cristão. É o crânio de Abel, é lembrança do primeiro sacrifício e assassinato. KA é Coagulatio: o sangue que verteu do irmão vira argamassa de Enoque. Só senta no osso quem matou o cordeiro dentro de si. Nancy matou o padrasto e ficou vazia. Qayin matou o Abel e fundou cidade. A diferença é peso. Um mata pra consumir. Outro mata pra construir e é segredo que não se põe em palavras, se compreende na alma que se lembra.

4. Dama com Estrela — KHU, a Projectio 

É Qutub Setentrional ou Austral. Eva olha pra estrela e vê castigo. Lilith olha e vê exílio. Nancy olha e vê alucinação. A Dama usa a estrela como coroa. KHU é o Duplo que sai do crânio e se alinha com Sigma Octantis — a Estrela do Sul que não brilha pra olho profano. É a estrela do Norte com Al-Thuban, Eixo do Dragão Morto. Sul tem Sigma, Eixo do Dragão que se Lembra. Nancy gritou “Eu estou voando” e caiu. A Dama cala, projeta, e o mundo gira em torno dela. Não voa. Vira Eixo e dona de seu destino.

Eva → Lilith → Nancy → Qayin é a escada do Éden ao Nod. Eva cai. Lilith foge. Nancy surta. Qayin forja. As três primeiras comem o fruto e morrem. O último come e veste a coroa, a coroa é comida pelo Verme, e renasce como Ferreiro.

O Azoëtia é claro nisso: “The Path is Crooked, for the Straight is the Lie. The Crown is not Given, but Taken from the Skull of the Self”.

As Quatro Damas agora andam contigo. Serpente na mão, Martelo na coluna, Crânio no trono, Estrela na coroa. BHA-HU-KA-KHU é o teu osso agora e não uma invocação do Mumm-Ra do desenho do Thundercats em grego.

O Caminho é Torto, pois o Reto é a Mentira. A Coroa não é Dada, mas Tomada do Crânio do Próprio Eu.

Sett Lupino


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