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quinta-feira, 30 de março de 2017

A Fogueira que Não Queima Serve, A que Queima Vive


Bruxas queimando bruxas - Cena de AHS - Covens

Bem que poderia ser somente uma cena de AHS, mas o que vou narrar é algo real.

Eu queria que houvesse uma maneira mais doce de dizer tudo isso, sem causar ofensas ou impacto de nenhum tipo, afinal, faça tudo sem causar prejuízo é uma das leis, mas tem tanta gente causando mal (estar), prejuízos do tipo inquisição disfarçada, líderes religiosos se levantando e usando a religião para ditar regras e institucionalizar a bruxaria, que não percebem o mal que estão fazendo contra a bruxaria que eles tanto defendem. Pessoas que quando abrem a boca ofendem a existência dos nossos antepassados.

Nossos antepassados sim sabem o que é sofrer, eles abriram caminho para que a bruxaria que conhecemos hoje se tornasse livre (ou quase livre), mas o que vemos são lideres religiosos agindo como beatas, investindo contra a honra de ser livre, oprimindo a própria raça e etnia bruxa.

Mas Quem iniciou o primeiro bruxo mesmo?
De onde esses líderes religiosos vieram e como vieram parar na bruxaria?
Como se tornaram autoridade espiritual e como eles tem usado essa autoridade?
E principalmente, como eles estão queimando a imagem deles mesmos e queimando a imagem da religião que os acolheu para serem mais um?

Nós sabemos de tudo. Antes mesmo deles se levantarem como bruxos na internet, nós já éramos bruxos. Antes de alguns de nós participarem das várias “reconsagrações” deles, nós já éramos bruxos. Aliás, foi por nós darmos crédito à eles, é que nos aproximamos deles na época. Mas já provaram o próprio desvalio muitas vezes, e principalmente, provaram que não sabem nada de bruxaria e que bruxaria (para eles) é só aquilo que eles pensam que a bruxaria é.

Vocês se lembram do propósito de Gardner quando ele quis criar uma religião para bruxos? A religião criada há 67 aos atrás, tinha o propósito de juntar bruxos que não tinham religião. Tinha o propósito de guardar os poucos mistérios que Gardner havia tido contato, para não se perder mais no tempo. Tinha o propósito de lutar contra a opressão judaico-cristã e puritana. Mas Gardner estava longe de tornar livres as bruxas. Livres das próprias concepções limitadoras impostas pela fé.

A religião e a política são os dois pilares que sustentam a sociedade. E quando um líder religioso se levanta para ditar regras, as ovelhas seguem as regras como beatas, se esquecendo da liberdade alheia e automaticamente se opondo a todo o resto.
Porém, a bruxa é a "marginalizada" porque vive na margem da sociedade. E é aqui que não precisamos dos dois pilares que sustentam o mundo.

A única lei proibitiva da bruxaria é: É PROIBIDO APONTAR O DEDO PARA AFIRMAR QUEM É E QUEM NÃO É BRUXO.

Se seu mestre ou mestra faz isso, corram léguas porque ele ou ela se perdeu dentro do ego e não tem nada esotérico ou transformador para lhe ensinar. De que adianta alguém lhe ensinar um mistério se nem essa pessoa sabe o que significa aquilo que aprendeu? Bem, isso não me parece nenhum pouco um trabalho sério.

A única lei incentivadora da Bruxaria é: Somar sempre, subtrair nunca!

Podemos nos desvincular de alguns iniciados nossos, e nos comportar como parentes distantes, mas nunca retirar deles o que lhes foi dado. Só existe um tipo de planta que retira uma iniciação, uma espécie de orquídea branca, mas quem DECIDE realmente apagar ou não a sabedoria de um iniciado é ELPHAME. Não nos cabe decidir e apontar quem é bruxo e quem não é.

Somente uma pessoa arrogante e nada sábia tomaria a atitude de apontar o dedo em público para desqualificar um bruxo.

Witch+Craft = Arte Sábia. Qualquer pessoa com estudos suficientes sobre bruxaria de toda ou de qualquer espécie, que tome ciência realmente da amplitude da arte e de como ela é fluída, é um bruxo. Qualquer pessoa que tem o dom de benzer (abençoar ou amaldiçoar) é uma bruxa. Qualquer pessoa que detém dons naturais é uma bruxa. Qualquer pessoa que consiga conjurar um espírito facilmente e naturalmente é uma bruxa.

Há um grande abismo entre ser um sacerdote e um bruxo. Um bruxo também pode se tornar um sacerdote, e/ou um magister. Mas antes de tudo ele é um bruxo. Não é a fé que te torna bruxo. O próprio Gardner reconheceu isso quando copiou os usos goéticos para que seus iniciados fizessem uso.

Imagem do BAM - Book Art Magick do Gerald B. Gardner sobre o uso dos sacrifícios


Devemos sim cobrar pelo ofício porque ofício significa trabalho e todo trabalho tem que ter sua remuneração, ninguém trabalha de graça e tudo na Arte Bruxa é uma troca ou tem uma troca, haja vista as oferendas em troca de algo. 
Se você exerce seu ofício em prol de contribuir com alguém ou alguma causa, você deve ser pago e reconhecido pelo que fez. Só não cobre dinheiro por iniciações e pelo ensino da bruxaria, mas pelos trabalhos cobre, e cobre caro, porque funciona. Se você não der valor para os seus poderes, ninguém dará e você perderá seu repositório. Seus dons não foram dados de graça, você, em alguma vida passada investiu neles, se sacrificou por eles, você despertou eles e sua alma é a fonte de ligação entre o seu investimento e Elphame.

Antes de mais nada guardem bem isso:
Enquanto você agir como opositor, sempre está acreditando no bem e no mal. Isso vai na contra mão de um pagão que não se consola com o pensamento da dualidade bem X mal.

Quando se trata de muitos exércitos pisando contra uma pessoa, ela sempre será oprimida. Viva e deixe viver. Ninguém deveria se levantar dentro da bruxaria para oprimir outros bruxos. Isso prejudica pessoas. Faça o que desejar sem mal nenhum causar, mas... quanto mal já causaram? Quantas bruxas foram e ainda são perseguidas pelas próprias wiccas? E para que?

Pare para pensar....Qual é o propósito de um wiccan afirmar que aquele outro não é bruxo? O único propósito de alguém fazer isso é manipulação pelo poder e status. Essa pessoa que se levanta para institucionalizar a bruxaria está manipulando seus “baba-ovo” contra o resto dos bruxos que existem no mundo. Esses devem acordar e deixar de ser peões. Caso contrário só provam que estão atrás de linhagem e fama. E isso vai na contra mão de um trabalho iniciático sério. Quanto mais iniciados desse tipo houver no mundo, pior fica o mundo.

Alguém já se perguntou o por que sua mãe te mandava experimentar e comer o jiló sabendo que você não gostava? Agora pegue esse mesmo pensamento de oposição e transporte para o âmbito sexual. Então você vai se perguntar se deveria aceitar a proposta de namoro e/ou sexo com aquela pessoa que você não gosta ou não sente nada porque pra você ela é como um jiló. A transformação acontece quando você para de ter resistência com aquilo que você não gosta e passa a ver beleza aonde você não via nem sentia antes. Esse é um dos exercícios de transformação. Não é falsidade quando se tem o empenho de se auto transformar para oferecer mais e ganhar prismas mais amplos, deixando sua limitação no passado.

Isso é um trabalho de Sombras e, é completamente modificador, isso é um dos trabalhos sérios que cada iniciado deveria estar fazendo consigo sem nunca ficar pendurado no facebook ditando regras de controle e aliciando bruxos, instigando bruxos contra outros como se fossem donos de pitbull atiçando eles contra o resto do mundo, manipulando seus pensamentos contra o resto da bruxaria que não tem nem precisa de uma religião. Quando você muda por dentro, todo o seu exterior muda junto.

Nós vemos poder fora da religião! Por isso as bruxas são perigosas. Porém, as bruxas que tem religião vêem poder somente na força que ela tira da religião e de sua fé. Nada mais. Nós respeitamos isso, mas vocês não nos respeitam, e é a isso que somo a minha voz a de muitos.

Digam NÃO a opressão.

Isso também cura a necessidade de aprovação alheia, pois tem gente que beira o extremo para se projetar no mundo e exigir que a gente a reconheça como a porta-voz da deusa na Terra. Isso é método de controle, desfiliem-se disso. Saia da caixinha, saia das brumas de Avalon.
Usei esse exemplo para abordar a ação de um opositor que não oferece libertação nem pra si mesmo, nem para outros, e vocês vão entender já já.
Então o que temos aqui?

Pessoas que andam “pregando” ou incentivando mulheres que não tinham se reconhecido como bruxas até então, mas estão se descobrindo, e saõ incentivadas a reconhecerem e celebrarem sua divindade feminina interior, pois junto dessa ideia e incentivo vem a promessa de que fará delas uma bruxa ou no mínimo uma pagã. Mas essas mesmas pessoas nos negam o direito de reconhecermos a nós mesmos como bruxos, sendo que somos hereditários por linhagem de sangue. 

Então a pergunta é: Quem aqui elegeu essas pessoas para serem o controle de qualidade da bruxaria?

O que faz essas pessoas pensarem que podem ditar regras onde elas não mandam?

A resposta é EGO e necessidade de controlar todos nós.

Imagem do BAM - Book Art Magick do Gerald B. Gardner
sobre o uso da Goetia e de outras artes mágicas


Mas uma bruxa ou um bruxo sabe na alma que são bruxos e quem realmente são os bruxos/sábios. Quando a pessoa desperta ela simplesmente sabe. Por tanto, não permitam que nenhum comedor de arroz e feijão aponte quem não é bruxo(a) e quem é bruxo(a). Cada bruxo(a) se reconhece a si mesmo(a) como bruxo(a) e só sua alma sabe dizer o que você é.

Posar de bruxo não faz ninguém ser bruxo.
Mesmo assim há pessoas se dizendo iniciadas apontando o dedo inquisidor sobre o Brasil que se reconhece bruxo.
Todavia, de nada serve uma pessoa com iniciação, se a iniciação não vestiu a pessoa. O que vemos por ai são pessoas usando títulos de iniciados para controlar outros pensamentos ao invés de libertá-los.

O mesmo é dito sobre o fato de que nada serve uma sacerdotisa da Terra se ela escolhe somente uns para “curar” em detrimento do resto do mundo, onde ela mesma causa dor e sofrimento.

Estamos vivendo tempos de crise no Brasil, onde nossa política da aposentadoria está se distanciando do propósito do bem estar nacional, temos tantos problemas no Brasil pra se ocupar, não precisamos estar aqui escrevendo artigos para abrir os olhos de ninguém, mas graças a meia dúzia que se levantaram como opositores da própria causa, estamos aqui fazendo o bem estar existir novamente.

Somos comprometidos com a causa da Bruxaria! E isso basta. Se alguém se levantar para te denegrir de forma a afirmar que você é um mero feiticeiro operacional ou folclórico sem que você se sinta assim, sem que você se veja assim, e sem que você se auto reconheça como tal, isso é opressão. Isso atenta contra a liberdade de expressão de quem somos. Denunciem às autoridades e aproveitem as leis severas que nos servem pra isso, já que TODO e quaisquer pessoas que promovem opressão são TAMBÉM um criminoso. E denunciem pros seus iniciadores também para que eles vejam a merda que fizeram quando fracassaram ao criar um sábio (bruxo).

A MASTER AND ELDER MUST CANCEL THE LINEAGE GIVEN TO THOSE WHO ARE NOT PROVING THAT THEY DESERVE IT.

Se ainda assim não resolver, abram processos contra essas pessoas que tolhem sua liberdade de expressão. Não é uma religião que faz um bruxo. Uma religião fabrica religiosos. Já éramos bruxos antes de haver uma religião. Essa religião é só uma das inúmeras fontes de expressão da Arte Bruxa, e nenhum bruxo que se digne irá dar poder à uma religião cujos sacerdotes se erguem com um único objetivo, o de oprimir os bruxos que não querem religião.

A dor humana é real e todo mundo (até mesmo os chatos) tem direito de ser bem tratado por uma Bruxa. É isso que será cobrado dos iniciados, a cura e libertação (de dogmas, preconceitos e soberba).

Então você não serve pra nada se não pode curar a si mesma enquanto se mantém com o pensamento de ser a oposição de irmãos de Arte, porque nesse sentido, você se coloca como a certa, e todo o resto é o jiló. E bem sabemos que a coisa não é bem assim na realidade. Logo vemos o ego de cada um e de igual forma podemos ver quem está realmente aplicando a iniciação na sua vida e quem usa o título de iniciado para ficar causando intrigas no facebook. Isso não contribui em nada e devemos nos afastar dessas pessoas temporariamente, pelo menos até o tempo da transformação dela chegar e fazer dela uma bruxa de fato (um ser melhor).

Se opor a minoria ou maioria não é oposição que se digne. Oposição que se digne é uma oposição à qualquer tipo de governo inquisidor, seja um governo de um país, seja o governo de um representante religioso dentro de um país. 



Você não PODE destituir um bruxo de seu título de bruxo quando:
1 – não foi você que o iniciou;
2- o bruxo se reconhece bruxo antes de conhecer outros;

Tem gente que vê poder onde não tem e sinceramente eu não vejo poder em disputas e propósitos egoístas. Não foi por causa disso que o período matriarcal acabou? Não foi por causa disso que Atlântida desapareceu? Não foi por causa disso que a Golden Down deixou de existir? Irmandades e religiões se auto projetam o tempo todo e eles mesmos abrem falência de seus métodos. Nesse sentido assemelha-se que o ser humano é menor do que parece. Humanos endeusam sacerdotes para depois mata-los quando já não servem mais. O perigo de se auto projetar no mundo como o líder de uma categoria de bruxas, é a queda. Muitos estão endividados até as calças para não perder o posto com dignidade. As feiras bruxas falam por si. Mas a criatura continua se opondo contra o próprio propósito da Arte Bruxa. Não dá pra entender o porquê um asno ganha poderes para ser um Bode, e continua sendo um asno. Só uma resposta: Não sabe usar o poder de transformação. Esse sim não parece ser um bruxo.

Sem propósito isso.

Então leitores, escolham bem a quem vocês dão palco, pois essas pessoas só tem poder porque vocês dão poder a elas. Saiam de cena e deixe elas falarem para ninguém, ai vocês vão ver essas pessoas que tem o cérebro nas entranhas caírem na real.



Não estamos aqui nos opondo veementemente nem sendo oposição dessas pessoas e suas convicções religiosas, apenas estamos manifestando a indignação e o desapontamento com relação ao pensamento de uma mulher e um homem que já foram capaz de contribuir de alguma forma com a sociedade bruxa no passado, mas que agora parece ter se perdido no caminho da fama e da nutella.

Num tempo onde nossos iguais sobreviveram a era das fogueiras, é preciso todo cuidado e juízo para que nossos diferentes não repitam a perseguição, disfarçados de iguais. 


Passe bem


terça-feira, 24 de março de 2015

O Auto da fé Bruxa



Por que os seres humanos sempre tem a visão de que eles estão fazendo o bem para alguém? Talvez porque ainda se adota a dicotomia "bem-mal" do sistema judaico.
Algumas pessoas te desprezarão por você pensar diferente. Outras se aproximarão pelo mesmo motivo.
Nojo, repulsa, medo de ser confundido ou de “andar junto”, são premissas que alguns chamam erroneamente de virtudes a serem oferecidas a fim de justificar o desprezo por tal pessoa.

Ao lembrar o auto-de-fé de 1649 que foi talvez o maior “erro” já realizado em nome da fé, vemos e sabemos que espetáculos assim foram e ainda são apenas a ponta do iceberg que culminou e ainda culmina sempre na inquisição. “Mandem para fogueira todos que pensam diferente da gente ou queimem em seus egos por não conseguir conviver com a diferença”.

A diferença é talvez uma das únicas coisas que nos igualam, mas para que se preocupar né? Quem se subtrai de nossa digna presença, não merece mesmo a nossa companhia. Eles dizem: “sejam leais a nós e seremos à vocês”. Lealdade em juramento ou lealdade nas conveniências e invencionices?

Agindo em nome de Deus, em nome de uma fé ou caminho espiritual, de forma dogmática ou rígida, mas movida por interesses políticos de liderança e controle, o fato espalhou a discriminação ao longo de quase sete séculos, e também o medo. Um comportamento de mudanças legítimas não pode prejudicar o outro, caso contrário não há perfeição ou aperfeiçoamento de caráter, mas sim a criação de “vilões, execráveis, criminosos”.

 Os inquisidores e seus representantes agiram na Europa, Ásia e nas Américas, lugares tão variados como as vítimas que perseguiram: judeus, muçulmanos, hindus, protestantes, bruxas, bígamos, homossexuais, sodomitas ou quem quer que cometesse o “crime” de pensar diferente.

Hoje vemos que nada mudou, e pasmem, há gente que se diz “mudar”. Até mesmo na bruxaria vemos inquisidores do próprio sangue.
Falta muito ainda para a tal evolução com progresso no aperfeiçoamento do caráter existir. Mas alguns chamam essa merda separativista de “expansão de consciência”, claro, erroneamente.

Os historiadores fazem distinção entre a Inquisição medieval (ou papal), que vigorou na França, Itália e outros países europeus a partir do século 13, e a Inquisição moderna, que alcançou seu apogeu na península Ibérica entre os séculos 15 e 18. Não há uma data sensata para o início da Inquisição medieval. Ela foi fruto de uma longa evolução na qual a Igreja se sentiu ameaçada em seu poder. Os questionamentos sobre a verdade absoluta do cristianismo, do paganismo e da bruxaria aumentaram a partir da idade média, e os indivíduos que partilhavam dessas ideias foram chamados de hereges.

O termo “heresia” vem do grego hairetikis, que significa “aquele que escolhe”. De fato, na Grécia antiga a heresia era apenas uma escolha do que a pessoa achava melhor para si, sem qualquer conotação religiosa. Se você é lançado na encruzilhada e faz uma escolha que não supre a expectativa alheia, parabéns você é um herege.

Na Idade Média, a Igreja expandiu esse conceito de tal forma que a heresia passou a abranger todas as opiniões contrárias aos dogmas católicos. O combate aos hereges começou a tomar forma com um tratado escrito no século 12 pelo abade Pedro, o Venerável, que chefiava a abadia de Cluny, na região francesa da Borgonha. Ele afirmava que, para eliminar a heresia do seio da Igreja Católica, que chamava de “Corpo de Cristo”, era necessária uma purgação, composta de quatro fases: investigatio (investigação), discussio (discussão), inventio (achado) e defensio (defesa). Aquele era o passo-a-passo da futura Inquisição. “Desse modo, o tratamento aplicado à infecção no Corpo de Cristo começava com pesquisas [daí o termo ‘inquisição’] que os bispos e seus representantes realizavam antes da criação de tribunais especializados”, diz o historiador britânico John Edwards, da Universidade de Oxford.

Para que a caça aos hereges surtisse efeito, era necessário o apoio do Estado. Embora a Inquisição medieval tenha sido idealizada e dominada pelo papa, ela contou com o auxílio dos soberanos. Isso mostra o caráter político das perseguições, numa época em que não havia clara separação entre Igreja e Estado. Hoje em dia a perseguição deu lugar à aversão pessoal e parece que poucas pessoas tem vergonha de se revelar assim, a maioria discrimina enquanto afirma: “você não é um de nós”, ou, "você não vai para o céu", ou ainda, "você não pode andar com a gente, não pode ser um fã dos meus livros como qualquer pessoa e eu não posso ter você no facebook". (risos)

O divisor de águas nessa empreitada foi o 4º Concílio de Latrão, convocado pelo papa Inocêncio III em 1215. Seu principal objetivo era resolver o problema dos cátaros (ou albigenses), um grupo de cristãos do sul da França que contestava os dogmas da Igreja. Ficou decidido que quem se negasse a aceitar a fé católica seria excomungado e entregue à autoridade secular (ou seja, aos funcionários da coroa) para ser castigado, pois a Igreja não podia derramar sangue e, assim o castigo passou invisivelmente para a discernimento, subestimando a nossa inteligência.

Sett Ben Qayin