terça-feira, 19 de julho de 2011

O Lobisomem – bruxas que se transformam em lobos?


Heródoto e Platão foram os grandes divulgadores do Homem-Lobo, e posteriormente o filósofo mais famoso que divulgou que a besta transpunha de homem a Deus, foi Thomas Hobbes. Mas antes disso, quem verdadeiramente criou e proliferou a celebre frase “O homem é lobo do homem”, não foi Thomas Hobbes como os leigos imaginam, e sim Plauto.

Tito Mácio Plauto (em latim Titus Maccius Plautus; nascido em Sarsina, na Úmbria, região central da Itália, cerca de 230 a.C. - 180 a.C., na sua obra intitulada Asinaria - 194 a. C.  - Traduzida como "A Comédia dos Burros", usou o axioma Homo homini lupus sendo esta uma sentença latina que significa o homem é o lobo do homem. No texto se diz exatamente; "Lupus est homo homini non homo". Esta frase foi bem mais tarde popularizada por Thomas Hobbes, filósofo inglês do século XVIII, para divagar sobre a idéia de que todo ser humano nasce mau, e para aprender a ser bom, estudaria ser gente primeiramente e teria de sofrer uma transformação. Portanto a primeira idéia sobre transformação de besta para humano, de humano para Deus, se encontra nesse épico.

O lobisomem, na lenda, é um indivíduo que tem Poder mágico de transformar-se em outro ser, para matar, aterrorizar e devorar carne humana, e isso vem de encontro com os mitos romanos onde o Lobo, no caso Lupercus, é filho de Marte, o Deus da Guerra. Mas, a lenda inclui muitos outros detalhes, que vêm do além: o lobisomem seria um dos habitantes do mundo onde os mortos-vivos residem, produto de bruxaria e diabolismo. Os mortos-vivos seriam os humanos sem alma divina – o não-iniciado – e por isso, zumbis, incapazes de despertar para o que eles são de fato. Os lobisomens são alguns dos semi-deuses, humanos com alma divina, que precisam do produto alquímico para aterrar sua essência manifesta, pois, uma vez alma divina, há necessidade de se fazer carne no plano animalesco e físico.



A idéia do lobisomem surgiu do conceito da dualidade humana: a besta-homem ou a besta-deus. Uma idéia que era tão popular na Idade da Pedra, como nos nossos tempos, ainda que esteja hoje em dia, sob a égide da psicanálise. Mas nem só o duplo lobo-homem existe: na Escandinávia há o urso-homem; na África, o chacal-homem, o leão-homem; na Índia, o tigre-homem; na América do Sul, a cobra-homem, legiões ou famílias inteiras de semi-deuses. Mesmo não havendo, em alguns casos, ferocidade da parte desses bruxos mutantes, como na China que tem uma lebre-gente, bondosa, o tema de destruição bestial predomina nas lendas, seja por sobrevivência, seja por medo, de ambas as partes. O animal é parte da natureza e esta por sua vez é milagrosa na forma mais natural que existe.

As civilizações antigas fornecem ancestrais para o lobisomem. Na Grécia, reconhecia-se a “besta no homem” durante os êxtases, os quais usavam até máscaras de lobos, bem como na Roma antiga. Tais práticas foram perdendo o cunho público na medida em que o governo progredia em sua forma de ditar o poder, e assim essas práticas mergulharam em tradições familiares e bem reservadas.

Há a história de Licaeão que, em excesso de zelo para com o deus, sacrificou uma criança e ofereceu sua carne a Zeus: a divindade o transformou num lobo, como punição. Mais tarde, surgiu a devoção a Zeus Licaeão, Lycaon ou Licayon, na qual os participantes usavam máscaras de lobos.



Antes de Roma ser fundada em Alba Longa, havia o costume da Lupercália, onde os sacerdotes exorcizavam o ventre das mulheres que queriam ter filhos.
Entre os escritores, Platão e Heródoto fizeram circular a história do lobisomem, que, assim, se popularizou pela Europa. Na Itália Antiga, Plínio a discutiu seriamente, Petrônio a ridicularizou no Satyricon e Ovídio levou a história de Licaeon à Metamorphoses', onde ‘Meta-Morpheu’ - o sonho além do sonho – para os assisados se revolveria o sabá das bruxas lupinas.

O Mundo com suas bestas-homens e homens-diabos sempre existiu.

Talvez todos os homens-bestas do mundo tenham algum parentesco com o lobisomem: os sátiros e centauros da Grécia, o "abominável homem das neves", crianças criadas por animais, como o menino Mowgli, na história de Kipling, e também Rômulo e Remo. Em Mowgli, o instinto de matar não está presente: Mowgli não era um lobisomem, assim como Tarzã não é um gorila-homem. Os Povos do Norte da Europa parece que sempre viram no lobo um ódio próximo da histeria, sentimento especialmente reservado a monstros sobrenaturais, mas o que verdadeiramente se sabe é que o instinto de sobrevivência somado ao instinto animal, sempre falaram mais alto. Mesmo sabendo-se que o lobo, para mitigar a fome, pode devorar uma ovelha de raça – ou o pastor - o sentimento a seu respeito foi sempre maior que a simples aversão por uma criatura selvagem: sempre lhe atribuíram qualidades demoníacas. Talvez seja por suas características: andar ao cair da noite, silenciosamente como um fantasma, quase invisível por seu pelo cinza, os olhos vermelhos e cintilantes ao refletirem a luz do fogo e azuis-esverdeados à luz do luar. E seu uivo acabrunhado completa a imagem ao empinar o focinho na presença da lua cheia.



O fato é que até hoje o homem procura exterminar o lobo, enquanto apenas controla outras espécies selvagens. O lobo se extinguiu na América (exceto Alasca), Inglaterra, Alemanha, Suíça e França. Os franceses sofreram muito com os lobos no passado: daí o grande número de histórias francesas sobre lobisomem (loupgarou).

Dizem que ainda há alguns lobos na Rússia, Espanha, Portugal e Brasil: no Canadá um homem foi atacado por lobos em 1963 e foi veiculado como ataque de lobisomem. Esse comportamento humano em face do lobo, que levará à sua completa extinção, é resultado de séculos de terror, sobre sua fome insaciável, ferocidade, voracidade e impulso de matar, mas o que poucos sabem, é que uma simples colher de sal oferecida ao lobisomem pode fazê-lo parar, agradecer e sair de cena calmamente. Pensa-se sobre o sal, quando exposto sob o luar aumenta consideravelmente seu poder de conservar o que toca, daí o sabor do exorcismo que tudo acalma sob o juramento de sal da lua cheia, o sal é o dissolvente universal. Poucos sabem também que o sinônimo de exorcismo é adjuro, conjuro, esconjuro, exorcizo, ou seja, com juramento.

O juramento frente ao sal na lua cheia é tão poderoso, que se um lobisomem aparecer para lhe atacar, basta apresentar-lhe uma colher de sal jurando “siga em paz que a paz nos cai bem”, ele a deixará solenemente sem provocar nenhum arranhão. Contudo, se a pessoa com o sal jurado descumprir sua fala e atacar a besta por trás, ela se transformará em lobisomem igualmente e será caçada pelos seus próprios semelhantes, para que aprenda a preleção de manter e cumprir o que se jura, pois a palavra é um dom divino e nada pode lhe afastar disso.

A Bíblia compara inventivos profetas a "lobos famintos' em pele de cordeiro. A avó da menina do chapeuzinho vermelho foi devorada por um lobo. Na mitologia do Norte da Europa, há o terrível Fenris, o mais monstruoso de todos os lobos, que acaba destruindo o próprio Odin.

Mitos e folclores escandinavos e teutônicos estão cheios de casos de metamorfose em gente e animais, para terminar em morte. A morte é sempre uma iniciação. Mesmo os heróis escandinavos mudavam de forma: Bodivar Bjarhi tomou a forma de um urso, para enfrentar uma grande batalha na Dinamarca.

Os impressionantes ancestrais europeus do lobisomem foram preocupação, na era cristã, nos negros séculos de superstição e caça as bruxas. Elas eram descritas como criaturas ligadas ao Diabo, que lhes dava o poder de se transformar em animais, pois a bruxa precisava deixar seu lado animalesco fluir as vezes, para se fundir com sua essência prima no plano de todos os planos. A bruxa transformada em lobo devastava os campos, matando e devorando, como parte de seus deveres diabólicos.



Alguns demonólogos afirmavam que os lobos eram, eles próprios, Diabos, e não bruxas transformadas em animais. Outros, como Reginald Scot, em seu livro Descoberta da Bruxaria, afirmava que algumas formas de loucura levavam o paciente a imaginar que se transformava em lobo. Essa insanidade era tida como possessão pelo demônio, mesmo quando a doença mental chamada licantropia foi identificada, não teve qualquer efeito sobre a superstição.

Para o xamanismo, o animal contém um cargo e uma função. O Lobo é o professor que, por bem ou por mal, ensina a humanidade.

O fato é que as bruxas se transformam em lobos, sapos, dragões ou em qualquer animal de seu totem, misticismo, linhagem ou poder de domínio, e tanto nos dias atuais quanto nos antigos, a transformação está para o Vitriol de todas as químicas, assim como o mel está para a abelha.

As matérias-primas do processo alquímico são, entre outras, o orvalho, o sal, o mercúrio e o enxofre. A combustão e a volatilidade são essências para que exista, entre os alquimistas, o coito do Rei e da Rainha. Para os alquimistas, os quatro estágios são regra, dentre eles: Nigredo; Albedo; Citrinitas; Rubedo, e entre as bruxas parece que só as duas últimas são realmente essenciais, pois elas já vêm ao mundo com o dom nato das duas primeiras. Isto é comumente representado pela luta entre o dragão alado e o dragão áptero.

Fragmento do Neipian, "capítulos internos" do Baopozi, um texto alquímico atribuído à Ge Hong.

Mas o que é Vitriol?

V.I.T.R.I.O.L. são as iniciais de uma fórmula célebre entre os alquimistas e que condensava a sua doutrina: “Visita interiorem terrae retificando invenies operae lapidem”, ou seja, “Desce as entranhas da terra, destilando, encontrarás a pedra da obra”.

Essas iniciais formaram uma palavra iniciática que expressa a lei de um processo de transformação relacionado ao retorno do ser ao mais íntimo núcleo da pessoa humana. O que significa dizer: Desce ao mais profundo de ti mesmo e encontrará o núcleo indivisível, sobre o qual poderás construir uma nova personalidade, um homem novo. Aqui também pode estar impresso um dos mistérios de Tubal Caim, Vulcanus, Hefesto, Midas, entre outros deuses da Bruxaria.

Kurt Seligman apresentou uma definição parecida e não convém expô-la aqui, pois ambas são expressamente uma síntese das intervenções alquímicas conscientes, nos diversos níveis de transformação considerados, seja no dos metais, seja no das rochas, seja no do ser humano. No último caso, a insígnia evidentemente tem um alcance mais profundo: trata-se da reconstrução de si próprio a partir dos vários graus de inconsciência, de ignorância e de preconceitos, em direção à irrefragável consciência do ser, o que permite ao bruxo, jovem ou não, descobrir a presença, imanente e transformadora da divindade nele, ou seja, o processo Lupino ensinado como sendo “animal-humano-deus” e a viagem transformadora.


O Frankenstein de Mary Shelley talvez seja o monstro mais alquímico que já existiu sob os padrões teratológicos de transformação, feio por fora (com tantas marcas visíveis) e lindo por dentro (marcas que não se vê), e o julgamento do ego mortal provoca nos seres humanos, tanto ira quanto medo, e a grande diferença entre o ser humano e a bruxa que se transforma em lobo é que o primeiro mata por medo, e o segundo morre pela prata não pelo ouro.

Eis o alicerce do axioma Homo homini lúpus!

Por Cléber.
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