quarta-feira, 27 de maio de 2026

A MAGIA MAIS PODEROSA QUE EXISTE, ISSO EXISTE?

 

 

Ẹ̀bá Ọlọ́ṣẹ́ - O rastro do trabalho feito

Recentemente vimos um pseudo-mago leigo, inocente e não-iniciado propriamente, afirmar que a magia mais poderosa que existe era a de Jhon Dee. Talvez seja mesmo, dentro do espectro de suas limitadas referências e testes de experiencias laboratoriais solitários, movido a “cursos” de internet, tradução de livros e auto-interpretação.

Como essa narrativa era enganosa, de início eu me importei em esclarecer apenas duas pessoas amigas no intuito de informar os desavisados para dar oportunidade de corrigir essa falsa informação que havia sido lançada, mas como essa afirmação ganhou proporções absurdas, fui incomodado diversas vezes por um número grande de pessoas vindo me procurar para tirar dúvidas e esclarecer os fatos.

Então, para que o buscador sincero possa se esclarecer ao dar um “buscar” na internet, deixarei aqui a elucidação pertinente, pois essa briga é clássica: "minha magia é mais forte que a sua".

Pra deixar claro, não existe régua oficial de "poder mágico". O que existe são critérios como antiguidade, complexidade ritual, influência cultural e o medo/respeito que cada tradição impôs na sua época. John Dee criou o sistema Enoquiano no séc. 16, e é bastante recente comparado com outras tradições milenares.

Vamos dar uma olhada nisso tudo de perto?

 

AS 5 TRADIÇÕES ANTIGAS QUE ANTECEDEM JOHN DEE EM SÉCULOS — E QUE HISTORICAMENTE ERAM TEMIDAS COMO "IMBATÍVEIS":

 

1. Magia das Iyá Mi Oxorongá / Àjẹ́ - Iorubá

- Idade: Tradição oral pré-escrita, mínimo 1000+ anos. Culto ancestral na África Ocidental.

- Por que era temida: Iyá Mi são as "Grandes Mães Ancestrais". Não são bruxas humanas, são forças primordiais, são Irumulé, seres iluminados que estão acima dos anjos e acima de Deus e participaram da criação do Mundo. Lidam com o poder do ÀSE puro, o axé de criação e destruição. Rezar mal pra Iyá Mi pode desgraçar uma linhagem inteira e causar a morte do operador. Reis iorubás faziam ebós específicos só pra aplacá-las.

- Diferencial vs Dee: Dee invocava anjos pra obter conhecimento. Iyá Mi é o poder que regula a ética do mundo. Não se "comanda", se negocia pelas mãos autorizadas na hierarquia do culto iniciático, por pacto tomado!

Quem são os autorizados a mexer com essas forças?

São as Ajés mais velhas, as Iyánifás dentro de suas hierarquias, os Osòs dentro de suas hierarquias, os Babalawòs dentro de suas hierarquias. Já as Iyálorisàs e Babalorisàs de candomblé possuem seus métodos próprios de cada Nação, geralmente ineficazes em alguns ramos, pois essas Senhoras são alvo de intenso medo e desprezo pelo povo de candomblé e a maioria falha ao lidar com essas Senhoras na forma adequada. Em geral, tão somente obtém sucesso quando é para apaziguá-las e nada mais.

 

2. Heka - Egito Antigo

- Idade: 4.300+ anos. Já aparece nos Textos das Pirâmides c. 2400 a.C.

- Por que era temida: Heka não era "fazer magia". Era a força feminina que os deuses usaram pra criar o universo. O faraó era "Senhor do Heka", pois era “casado” secretamente por via iniciática através de seu vizir que os levava para as sacerdotisas do templo. Como era o primeiro a falar em público, ele não podia dar um passo antes de consultar seu vizir, o qual também somava cargo de senhor dos exércitos do faraó. Médicos-sacerdotes de Sekhmet usavam Heka pra curar, matar e controlar enchentes do Nilo. Sacerdotes-embalsamadores de Anubis usavam Heka para dar poder ao Ka e Ba e demais partes da alma para comandar os destinos das almas. Está na base de todos os papiros mágicos greco-egípcios.

- Diferencial vs Dee: Enoquiano tenta falar com anjos em "língua adâmica". Heka é a língua que faz o mundo obedecer. É a física do cosmos na visão egípcia.

 

3. Kěšep - Magia Babilônica/Assíria

- Idade: 3.800+ anos. Tabletes cuneiformes de 1800 a.C.

- Por que era temida: O Maqlû e Šurpu são grimórios de exorcismo do Estado. Usados pra destruir feiticeiros inimigos, curar possessão e proteger o rei. Tinham o āšipu - exorcista oficial - pago pelo palácio. Se o rei da Babilônia bancava, é porque funcionava politicamente.

- Diferencial vs Dee: Dee era um homem tentando falar com anjos e solicitar favores. O āšipu era cargo de Estado com biblioteca real de 10 mil rituais. Escala imperial.

 

4. Atharvaveda - Magia Védica

- Idade: 3.200+ anos. Compilado c. 1200-1000 a.C.

- Por que era temida: Quarto Veda, dedicado só à magia prática. Tem hinos pra matar inimigos abhicāra, curar doença, garantir vitória na guerra, dominar mulheres e reis. Brahmanas que dominavam Atharvan eram conselheiros de guerra.

- Diferencial vs Dee: Enoquiano é teurgia pra iluminar. Atharvaveda tem yātu - magia de ataque direto - que virou crime de estado na Índia antiga de tão temida.

 

5. Defixiones - Magia Greco-Romana / Katadesmoi

- Idade: 2.500+ anos. Tábuas de chumbo desde 500 a.C. em Atenas.

- Por que era temida: Tabuletas de maldição enterradas com mortos. Invocavam deuses ctônicos como Hécate, Hermes Subterrâneo e Perséfone pra amarrar língua de advogado, quebrar atleta ou matar rival no amor. Roma teve lei específica Lex Cornelia contra isso, mas essa magia se tornou clandestina para a rua oculta.

- Diferencial vs Dee: Dee queria conversar com anjos no cristal. Grego pagava profissional pra enterrar o nome do inimigo com um defunto e usar a fúria dos mortos. Pragmatismo brutal.

 

O ponto sobre "poder"

John Dee + Edward Kelley criaram algo em 1580. Genial, mas é um sistema cerimonial renascentista. As 5 acima já regulavam reis, guerras e epidemias quando Londres ainda era aldeia.

 

Critério histórico de "mais poderosa":

1. Antiguidade: Heka e Kěššep ganham. 2000+ anos antes de Dee.

2. Status de Estado: Babilônia e Egito tinham magia como política pública. Dee foi preso por traição.

3. Medo cultural: Iyá Mi e Atharvaveda criam tabus que duram até hoje. Ninguém mexe e o culto ainda está vivo, inclusive em alguns ramos do Shakitismo tântrico. Brâmane tem conhecimento, mas não mexe nem lida diretamente.

Iyá Mi é força ancestral iorubá, anterior à escrita e sua magia funciona em questão de horas e dias, tão certo e verdadeiro. Enoquiano é século 16, depende de anjo atender chamada (se e quando funcionar). É preciso se ter em mente que anjos não veem pessoas como “alguém especial ou melhor que os outros”, nem como autorizados a chama-los pelo sistema enoquiano inventado pelo Dee, o qual nem chegou a usar direito o próprio sistema que criou. Existe muita crença limitante e dogma nesse sistema igual as crenças limitantes e dogmas que a magia de Abramelim contém, sem pertencer à uma cosmovisão tradicional de culto como existe nos cultos tradicionais africanos. Em Dee e Abramelim o sistema está apartado da espiritualidade cosmogônica de um povo.

 

Atharvaveda - A Bomba Atômica Védica

Idade: Compilado c. 1200-1000 a.C. Tradição oral bem mais antiga. 

Status: 4º Veda. Junto com Rig, Sama e Yajur, é escritura sagrada do hinduísmo. Não é "livro de bruxaria marginal" — é religião de Estado da Índia antiga.

Estrutura de Poder:

1. Abhicāra - Magia de Ataque: Hinos inteiros pra matar inimigos, causar seca, mandar febre, esterilizar mulheres rivais. Livro 4, Hino 16: "Que os feiticeiros que nos odeiam sejam esmagados".

2. Bhaiajya - Cura: Mais de 100 hinos pra curar icterícia, lepra, mordida de cobra, possessão. Médico védico = bhiaj Atharvan.

3. Pauṣṭika - Prosperidade: Rituais pra garantir colheita, gado, vitória do rei na guerra. O purohita — capelão real — tinha que dominar Atharva.

4. Autoridade: Não pede pra deus. Usa mantra + bráhman — fórmula que força a realidade. Se falar certo, o universo obedece. É código-fonte do cosmos.

 

Ritual exemplo - Ktyā-pratiharaa – Para Devolver feitiço: 

Pega boneco de massa, enfia espinhos de khadira, recita hino AV 10.1 por 3 noites, queima na encruzilhada. Resultado: quem mandou o feitiço morre em 7 dias. Era tão temido que o Arthaśāstra de Kautilya, séc. 4 a.C., regulava uso militar.

 

PGM - Papiros Gregos Mágicos - O Canivete Suíço Helenístico

Idade: 200 a.C. - 500 d.C. Egito greco-romano. Escritos em grego, demótico e copta. 

Status: Manuais de "freelancer". Não era religião oficial. Era o grimório de bolso do mago urbano de Alexandria e da feiticeira de rua.

Estrutura de Poder:

1. Sincretismo total: No mesmo papiro você invoca Helios, Iao/Adonai hebraico, Anúbis, Mithras e "o deus sem cabeça" Akephalos. Vale tudo se funcionar.

2. Voces Magicae: Palavras de poder impronunciáveis: ablanathanalba, agrammakaamarei. Não significam nada em idioma humano. São "senhas" do universo.

3. Tipos de rito:

   - Agōgē: Amarrações amorosas brutais. PGM IV. 296: "Arrasta Fulana pelo cabelo até a minha porta, queimando, enlouquecida".

   - Katadesmoi: Tabuinhas de maldição como já falei. Enterrava com defunto.

   - Sustasis: Encontro com deus pra revelação, tipo de oráculo. Mais próximo do Enoquiano.

   - Phylaktēria: Amuletos pra tudo: cólica, processo judicial, vampiros.

4. Autoridade: O mago se identifica com deus: "Eu sou Moisés", "Eu sou Hermes Trismegisto". Usa nome secreto pra chantagear a divindade.

 

Ritual exemplo - PGM IV. 3007-3086 - "Liturgia de Mitra": 

Jejum de 7 dias, recita nomes bárbaros, sobe 7 céus, encontra Helios-Mitra, ganha imortalidade. É teurgia pura. Inspirou Dee 1300 anos depois.

 

Atharvaveda vs PGM vs Enoquiano - Quem é mais "poderoso"?

Critério:     

Atharvaveda = 3200+ anos

PGM = 2200 anos

Enoquiano - John Dee = 440 anos

Lastro Estatal: Veda oficial. Rei tinha purohita Atharvan pago. Usado em guerra.

Marginal: Mago era preso se pego. Teodósio I proibiu em 389 d.C.     

Dee foi astrólogo da Rainha, mas morreu caído em desgraça. Observem e prestem atenção ao final da vida de cada mago da idade média. Se a vida foi um fiasco devido ao uso de sua magia e a desgraça trouxe a morte dele, não copie o mago, pois o sistema é falho e a história fala por si. Diferente da magia de bruxa que não trouxe desgraça para a bruxa, quem trouxe a desgraça foram as imposições alheias oriundas do abuso do clero secular e suas leis impostas sob a conveniência política da monarquia. Não foi contra uma única pessoa, foi algo gigantesco contra o povo que era os MedicineMen e as Wise Women. Não foi a magia de bruxa que fez mal a elas, foi a politicagem, abuso humano, concorrência entre apotecários/boticários e o velho povo, disputas de poder e leis contra a mulher + crença limitante e temor paranoico = coisas provocadas por humanos.

Escopo Cosmológico. Cria/destrói com bráhman.

Regula monção, peste, guerra.

Pessoal: Resolve problema de 1 cliente: amor, dinheiro, maldição.

Mecanismo: Mantra = lei física. Não negocia. Fala = acontece. 

Na Angelologia: Busca conhecimento e apocalipse. Zero magia, prática direta. Nome secreto + ameaça. "Se não fizer, revelo teu nome verdadeiro". Oração + tabelas. Anjo pode recusar. Kelley vivia "falhando na linha".

Escala de dano na Védica: Abhicāra coletivo. Hino pra secar rio inimigo.

No PMG: Agōgē individual. Faz 1 pessoa surtar.

Dee nunca registrou ataque mágico bem-sucedido.

Sobrevivência:

Vivo: Recitado ainda hoje em templos na Índia.    

Morto: PMG: Só papiro em museu e divulgação em livros. Vive só em ordem ocultista pós-Crowley

Vereditos:

1. Se o critério é antiguidade: Atharvaveda é 2800 anos mais velho que Dee. PGM é 1800 anos mais velho. Dee é "moderno".

2. Se o critério é poder de Estado: Atharvaveda elegia rei. PGM era contravenção. Enoquiano foi hobby de corte que não salvou Dee da pobreza.

3. Se o critério é "força bruta": Atharvaveda tem ritual pra matar com palavra. PGM tem receita pra arrastar mulher pelo cabelo até enlouquecer. Dee pedia pra anjo soletrar coisas em alfabeto novo.

Analogia final: 

Atharvaveda = Código Penal + Manual de Engenharia do Universo. 

PGM = Deep Web da Antiguidade. Tudo ilegal, tudo à venda. 

Enoquiano = Projeto SETI do séc. 16. Tentar falar com alien/anjos e torcer pra responderem.

Iyá Mi já citada antes entra na categoria do Atharvaveda: força primordial que não se invoca, se aplaca. Dee invocava funcionário público angélico.

 

Maqlû - "Queimadura" - O Ritual Anti-Feitiçaria Babilônico.

Idade: Tabletes cuneiformes de 700 a.C., mas copiados de originais de ∼1800 a.C. Biblioteca de Nínive, Rei Assurbanípal. 

Objetivo: Identificar, julgar e destruir o kaššāpu/kaššāptu — bruxo/bruxa que fez magia ilícita contra você. Era processo judicial + guerra mágica + exorcismo, tudo junto. 

Quem fazia: O āšipu ou mašmaššu — exorcista-sacerdote oficial do Estado. Cargo público, pago pelo rei.

 

A Lógica por Trás

Babilônio não acreditava em "azar". Se você adoecia, perdia gado ou a esposa abortava, era kišpū — feitiçaria de alguém. O Maqlû era o tribunal noturno pra devolver o feitiço pro remetente. Literalmente "queimar" a bruxa simbolicamente.

Estrutura do Ritual = 8 Horas até Noite Inteira.

Fase 1: Preparação - Pôr do Sol

1. Purificação: Āšipu + paciente banham-se no Rio Eufrates. Vestem linho limpo. Casa é defumada com zimbro.

2. Bonecos de Substituto: Faziam figurinhas de sebo (antepassado do jujuísmo e fantaísmo), com cera, massa ou betume. Uma era a "bruxa", outra era o "bruxo". Se não sabia quem era, fazia boneco "homem e mulher, meu inimigo".

3. Círculo de Farinha: Desenhava zisurrû = círculo de farinha no chão. Proteção pra isolar a operação, tudo citado com riqueza de detalhes no meu livro Fundamentos de Bruxaria Tradicional e Stregoneria, vendido pela editora Manus Gloriae, incluindo as partes de influência Islâmica que a Itália absorveu.

Fase 2: Invocação dos Deuses - Início da Noite

1. Tribunal Divino: Acendia-se tocha. Āšipu chamava Girra — deus do fogo — como juiz. Depois Nusku, Anu, Enlil e Ea.

2. Acusação: Recitava 100+ encantamentos šiptu. Trecho real do Tablete I: 

   "Queimada seja a feiticeira! Que Girra, o herói, queime o feiticeiro! Que vossa feitiçaria retorne sobre vossas cabeças!"

3. Provas: Jogava alho, cebola e lã de cabra preta no fogo. A fumaça "mostrava" o rosto do inimigo ao paciente.

Fase 3: Execração - Meia-Noite ao Amanhecer

1. Queima dos Bonecos: O clímax. Os bonecos eram espetados, amarrados e jogados na fogueira de Girra. Cada parte queimada = uma parte do corpo da bruxa real queimando. (não se esqueçam que bruxa tem feitiço de reverso e devolução de combate também).

2. Destruição Simbólica: Enquanto queimava, recitava: "Que a língua dela seja cortada, que os olhos dela se derretam, que o coração dela vire cinzas". Bem gráfico.

3. Água do Retorno: Ao amanhecer, apagava o fogo com água consagrada. A água suja era levada para o deserto. Levava o kišpū embora.

4. Selamento: Āšipu fazia amuleto com nó de 7 voltas e entregava pro paciente. "À prova de bruxa", o escudo contra ela por 1 ano.

 

Por que era "mais poderoso" que Enoquiano?

Critério:     

Maqlû Babilônico = 3800 anos 

Enoquiano de John Dee = 440 anos

Apoio Estatal: Lei oficial. Rei pagava. Falha = risco de morte pro āšipu. Elizabeth I achava Dee curioso, depois o largou. Morreu endividado.

Escopo: Guerra mágica. Usado pra proteger exércitos e colheitas do império inteiro. 

Evocação angelical de Dee era pra obter conhecimento: 1 mesa, 1 homem, 1 cristal e símbolos.

Evidência Arqueológica: Milhares de bonecos quebrados em poços rituais. Achados de Nínive a Ugarit.

Diário de Dee + tabelas. Zero efeito geopolítico registrado.

Mecanismo: Ataque direto. "Matar ou morrer".

Negociação. Anjo pode dizer "não".

Ponto crucial: Maqlû não pedia. Mandava. Girra tinha que queimar porque era a função dele no cosmos. Enoquiano pede licença pro anjo. Iyá Mi nem atende se não quiser e quando vem, chega dando coice em reléz mortais que as incomodaram com coisas de humanos, os quais tem capacidade para resolver sem elas.

Onde ler mais: 

1. Maqlû - tradução de Tzvi Abusch, 2016. Tem os 9 tabletes completos. 

2. Mesopotamian Witchcraft - I. Tzvi Abusch. Explica o lado jurídico. 

3. British Museum - Tablete K.43+. Dá pra ver o cuneiforme original.

Dee criou um sistema brilhante pra Renascença. Mas Maqlû era o ICBM da Idade do Bronze. Se a briga é sobre "poder antigo", o mago perdeu.

Ritual de Heka - Egito, Papiro de Londres e Leiden.

Objetivo clássico: Ubau — "abrir a boca" da estátua, ou destruir inimigo do faraó.

Elemento principal - Rito de Execração:

1. Figurinha de argila: Moldava-se o inimigo amarrado. Nome dele + nome da mãe escritos em vermelho — cor de Set, caos.

2. Encantamento: "Rê corta-te, Hórus te fura, Sekhmet bebe teu sangue. Que não tenhas pão, que não tenhas água". Recitado 4x, uma pra cada ponto cardeal.

3. Destruição: Quebravam a figurinha, cuspiam, queimavam e enterravam com peixe — animal impuro. Isso "matava" o ka do inimigo no Duat.

4. Operador: Sacerdote-leitor hery-heb em estado de pureza. Tinha que estar circuncidado, sem comer peixe/porco por 9 dias, e vestido de linho.

5. Hora: Quando a constelação de Órion conhecida como “Sah” tocasse o horizonte no que chamamos de ascendente heliacal estelar. Momento que o céu "abre" para isso.

Poder histórico: Achados em Mirgissa, Núbia: 600+ figuras de príncipes asiáticos quebradas e enterradas. Era política externa do Egito. John Dee nunca teve exército.

 

Comparação rápida com outros sistemas

Vamos comparar Sistema + Idade + Fonte do Poder + Fraqueza vs Iyá Mi e Heka

Enoquiano - John Dee:    440 anos,    49 anjos enoquianos + Tabelas. Depende de anjo responder. Sistema novo, sem lastro de Estado. Kelley, o médium, virou charlatão. Dee morreu pobre.

Goetia – Lemegeton: 400 anos, mas copia demônios de 2000 a.C., 72 espíritos selados por Salomão. Requer círculo + triângulo. Goetia é parte da magia salomônica, que por sua vez bebe de Kěššep babilônico. É derivada.

Bruxaria Trácia – Hécate:  2500+ anos, Hécate + drogas como acônito. Pharmakeia grega.         Muito local. Eficaz pra maldição pessoal, mas não derrubava impérios como Heka.

Magia Taoísta – Fulu: 1800+ anos, Selos fu escritos, talismãs, controle de gui e shen. Estado chinês usou, mas o Imperador de Jade manda.

Iyá Mi não tem chefe. Ela manda em tudo, ela decide se o feitiço pega ou não pega, ela concede vida e morte de quem ela quiser e não existe magia no mundo capaz de combater a magia dela, apenas apaziguar, mas se ela ‘piar’ na sua casa, leva embora você ou toda sua família ou adoece gravemente um filho/filha e põe doença que te come de dentro para fora, geralmente sem cura medicinal.

Conclusão:

1. Critério de antiguidade: Heka 2400 a.C. vs Dee 1580 d.C. = 4000 anos de diferença.

2. Critério de escala: Babilônia tinha āšipu como ministro. Dee tinha 1 rainha desconfiada, Elizabeth I.

3. Critério de autonomia: Iyá Mi é força primordial. Anjo enoquiano é mensageiro. Quem manda em quem?

 

John Dee foi um gênio do Renascimento. Mas comparar Enoquiano com Iyá Mi é como comparar um rádio amador com uma usina nuclear. Os dois comunicam, mas a escala de energia é outra.

Ritual de Iyá Mi Oxorongá - Iorubá

Objetivo clássico: Aplacar as Mães pra desfazer desgraça coletiva ou individual. Não se “manda” em Iyá Mi. Se pede licença.

Elementos principais:

1. Oferenda de Ejé: O sangue é o axé líquido. Usa-se galinha d’angola — ave que "espalha" e "avisa". Nunca se corta na frente de homem. Só mulher iniciada no mistério, idosa, faz. Iyá Mi não é bruxinha física que traduz grimório. É espírito Bruxo primordial que tem poder sobre a Criação e, o destino de todos os homens e mulheres. Essas senhoras estão acima dos anjos e acima de Deus, a primeira Iyá Mi é a mãe de Olodumare (Deus), ELÀ é a serpente cósmica que botou o ovo cósmico do qual nasceu Deus.

2. Àọ funfun: Pano branco estendido no chão, representando o mundo. Em cima vai àrẹ — comida sem sal nem dendê. Iyá Mi come "frio".

3. Òfò + Oríkì: Encantamentos soprados. Òfò é palavra que corta. Oríkì é louvação que acalma. Exemplo de òfò de proteção: "Iyá mi ò, má jẹ́ kí n rí ibi" — "Minha mãe, não me deixe ver o mal".

4. Igba Iyá Mi: Cabaça ritual fechada, cheia de segredos. Só Ìyánifá de cargo alto toca. Quem abre sem preparo, enlouquece ou morre, segundo a tradição.

5. Local: Mata fechada, à meia-noite, em encruzilhada de 3 caminhos. Porque Iyá Mi voa em forma de pássaro Eleyé.

Poder histórico: Reis de Oyó no séc. 18 cancelavam guerras se o oráculo marcasse que Iyá Mi estava brava. Nenhum babalaô contraria isso.

Adendo:

A Magia Rúnica - Runagaldr / Seiðr

A Antiguidade/ Origem + Prova arqueológica mais antiga aponta para a Ponta de lança de Øvre Stabu, Noruega, 150-200 d.C. com inscrição rúnica raunijaz = "provador/testador". O uso apotropaico se deu da seguinte forma:

Futhark Antigo: 150 d.C. até 800 d.C. com 24 runas.

Base proto-germânica.

As Fontes literárias são: Edda Poética 1270, mas relata tradição oral de 800-1000 d.C. O Hávamál contém estrofes 138-165  que diz o seguinte: "Rúnatal" ensina Odin pegando as runas após 9 noites na Yggdrasil.

O Auge prático disso é: Era Viking 793-1066 d.C. Pedras rúnicas, bastões de madeira, e amuletos.

O Critério como a Rúnica se dá por:

Tempo de uso contínuo 150 d.C. até hoje. Quase 1900 anos. Tradição quebrada no cristianismo mas revivida em 1900 com Guido von List.  

O Corpus textual primário é composto por Eddas, Sagas, +8000 inscrições rúnicas. Mas grimório “operacional” mesmo só aparece no séc. 16-17 com Galdrabók islandês.     

O Sistema cosmológico próprio de 9 mundos, Yggdrasil, Wyrd/Ørlög = teia do destino. Runa = é força arquetípica, não letra.  

A Capacidade de coagir forças Galdr = cantar runa pra dobrar realidade.

Seiðr para alterar Wyrd. Runa Thurisaz pra defesa ofensiva. Tem fama de “bater de volta”.      

Sobre Iniciação e risco temos que Odin se sacrifica pra ganhar. Exige dor, sangue, jejum. Erro de traçado com backfire. Egil Skallagrímsson corta runa errada e quase mata paciente.  

O Alcance no micro/macro vai de curar verruga com Kenaz até mudar batalha com Tiwaz, mas o foco é tribal/pessoal, não império.  

O Sincretismo/resiliência sobreviveu à cristianização virando “marcas de casa” e sigilos. Virou base da magia do caos moderna.      

Na Soma deste estudo temos: 57/70. Alta potência, risco alto, mas alcance mais limitado que Heka ou Atharvaveda.

 

O Trollrún / Trolldom - Magia Nórdica Tardia

Na Antiguidade e na Origem:

Nome: Trollrún = “runas de troll”. Trolldom = “domínio de troll”. Nome pejorativo cristão pra magia antiga.

Base: Mistura de Rúnica Era Viking + Seiðr xamânico + cristianismo popular + galdr islandês. Uma das bases dos Cunningmen and Pellar.

Prova documental: Galdrabók islandês 1600 d.C. Lækningakver 1500. Svarteboken norueguês 1700-1800. Mas as práticas vêm de 1000 d.C.

Pico de perseguição: 1500-1700. 300+ execuções por trolldom na Noruega. Isso prova que a Igreja temia pra caramba.

Critérios do estudo aplicados:

Critério como Trollrún pontua da seguinte maneira:

Tempo de uso contínuo: 1000 d.C. até hoje em folk magic escandinava. 1000 anos com adaptações. 8/10

Corpus textual primário, e Grimórios pós-medievais: Galdrabók, Lækningakver. Receitas curtas, sigilos “stafir”, orações misturadas com salmo. 6/10

Sistema cosmológico próprio é  Híbrido: mantém Nornas, landvættir, mas bota Jesus, Maria e santos como “chefes”. Magia de contrato. 6/10

A Capacidade de coagir forças com Foco em “enviar” coisas: enviar piolho, doença, amor, tempestade. Stafir tipo Ægishjálmur = elmo do terror pra paralizar inimigo. 8/10

Iniciação e risco: Aprendido em segredo, passa de mestre pra aluno. Quebrar tabu = loucura ou morte. A igreja caçava, então havia risco real. 8/10.

O Alcance: micro/macro = Magia de fazenda: proteger gado, azedar leite do vizinho, achar ladrão. Raramente mexe em reino. 5/10

Sincretismo/resiliência = Campeã aqui. Juntou paganismo + cristianismo e sobreviveu 400 anos de fogueira. Ainda usada hoje no interior.    10/10

Soma no estudo: 51/70. Menos “cósmica” que Rúnica pura, mas imortal por sincretismo.

O Adendo propriamente dito:

Magia Rúnica e Trollrún quando comparadas no mesmo estudo, a Magia Rúnica marca 1900 anos de uso e opera direto no Wyrd através de arquétipos-força, com risco iniciático alto similar ao Maqlû babilônico. Já o Trollrún é o exemplo máximo de resiliência: nasce da Rúnica, sobrevive à cristianização virando folk magic e mantém poder ofensivo real até 1800, sendo temida a ponto de gerar caça às bruxas na Escandinávia.

Nenhuma das duas supera Heka, Atharvaveda ou Maqlû em alcance imperial e corpus estatal. Ambas perdem pra Enoquiana de Dee em complexidade angélica, mas ganham em pragmatismo e custo baixo: um pedaço de madeira + sangue já roda.

Logo, a tese Enoquiana é jovem, 1582 d.C., depende de ferramenta estatal e mesa cara, enquanto a Rúnica é raiz, e corta direto no destino.

Aqui temos Potência ≠ complexidade. Antiguidade + risco assumido + capacidade de dobrar força sem pedir permissão = critérios onde Heka e Rúnica ainda reinam.

Como o leitor pode constatar, a magia enoquiana não é nem nunca foi a mais poderosa que existe. Isso porque eu nem mencionei a magia sexual tântrica, a qual é uma dentre as mais poderosas citadas acima, mas caberia outro artigo só para falar delas na íntegra. No entanto, adquiram meu livro A Prole do Dragão e o Legado dos Cunningmen, vendido também pela editora Manus Gloriae que tem um capítulo bem extenso sobre magia sexual na Inglaterra, ou leiam sobre Maithuna e Grande Rito Real no Shakitismo e nas tradições do norte da Índia, como a Uttaurakaula e a magia que o Gardner trouxe para a religião das bruxas inglesas no Ocidente.

OBS: Candomblé diaspórico, Umbanda e Kimbanda não entraram nesse estudo porque não se enquadram nos critérios de Poder que utilizam a antiguidade e o lastro temporal de ancestralidade como requisitos do estudo comparativo, porém, tais cultos bebem das fontes originais e não diminui em nada o seu poder, já que são recensões da arte africana no Brasil e não algo inventado.

FIM.

 

 


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