terça-feira, 9 de agosto de 2011

Trabalhando com os Poderes dos Lobos


Goya - Transformação das feiticeiras 

A imagem nos mostra quatro espantosos feiticeiros nus, um dos quais, já se metamorfoseou em um lobo, está prestes a tomar o seu vôo pela chaminé, e através da abertura está desaparecendo rapidamente um outro. 

Entre os humanos, é muito comum ouvir falar sobre histórias de Lobisomem.
Em The Mysteries of Magic Éliphas Lévi escreveu: "Nós devemos falar aqui de licantropia, ou a transformação noturna de homens em lobos, histórias tão bem fundamentadas que a ciência cética usa como recurso às furiosas manias, fazendo brotar como animais de explicações”. Mas tais hipóteses são pueris, e não explicam nada.

Licantropia vem ser a capacidade ou poder inerente a um ou mais seres humanos em mudar para forma de um lobo, ou manter seu caráter lupino. A palavra licantropia é muitas vezes usada genericamente para qualquer transformação de um ser humano em forma animal, embora o termo exato para isso seja tecnicamente "therianthropia". Às vezes, "zoanthropia" é usado em vez de "therianthropia" (Guiley, 192). Guiley, R.E. (2005).

O nome vem do grego λυκάνθρωπος: λύκος, lykos, que significa "lobo" e άνθρωπος, anthrōpos, que significa "homem"), é um ser mitológico, com origem em tradições européias, segundo as quais, um homem pode se transformar em lobo ou em algo semelhante a um lobo em noites de lua cheia, só voltando à forma humana ao amanhecer.

No Brasil, os nomes mais conhecidos são: Lobisomem, Licantropo, Bruxo, Diabo Peludo (Norte de Minas e interior de São Paulo), Quibungo, Capelobo, Kumacanga (Pará), Curacanga (Maranhão), e também Hatu-Runa (Equador - América do Sul), El Chupasangre (Colômbia).

as feras de Gevaudan
Tais lendas são muito antigas e encontram a sua raiz na mitologia grega. Segundo As Metamorfoses de Ovídio, Licaão, o rei da Arcádia, serviu a carne de Árcade, a Zeus e este como castigo, transformou-o em lobo (Met. I. 237). Uma das personagens mais famosas foi o pugilista Arcádio Damarco Parrásio, herói olímpico que assumiu a forma de lobo nove anos após um sacrifício a Zeus Liceu, lenda atestada pelo geógrafo Pausânias.

Na Roma antiga já era mencionado pelo historiador Plínio, uma das tradições herdadas das antigas Lupercálias. Além de lobo, na Europa, ele, pode se transformar também em Jumento, Bode ou Cabrito Montês, e seus poderes se conferem incrível força e velocidades mercuriais.
O Licantropo dos gregos é o mesmo que o Versipélio dos romanos, o Volkodlák dos eslavos, o Werewolf dos saxões, o Wahrwolf dos alemães, o Óboroten dos russos, o Hamtammr dos nórdicos, o Loup-garou dos franceses, o Mannaro dos Stregones italianos, o Lobisomem da Península Ibérica e da América Central e do Sul, com suas modificações simples de Lubiszon, Lobisomem, Lubishome; nas lendas destes povos, trata-se sempre da crença na metamorfose humana em lobo, por um castigo divino ou maldição de sangue.

Para virar Lobisomem, em algumas lendas, basta que a mãe no momento de fúria amaldiçoe o filho. Em algumas fábulas o homem que se espoja numa encruzilhada onde os animais fazem espojadura, se torna lobisomem. Conta-se que o Lobisomem, sai à procura de meninos pagãos e, quando os encontra bebe seu sangue e depois os devoram, se o lobisomem vomitar, os meninos se transformam em lobisomens na próxima lua cheia. De acordo com a região, ele também é uma pessoa que foi amaldiçoada pelo pai, pela mãe, pelo padrinho ou madrinha durante o batismo, ou até mesmo pelo padre.
Luperco - Tradizione di famiglia Lupino.
Em algumas famílias que carregam ‘maldição de família’, a trigésima quinta vez que a décima terceira lua cheia tocar o filho ou filha mais velhos, ele(a) e todos os demais se transformam em lobos. Há também quem diga que um sétimo filho que tem seis irmãs mais velhas se torna lobisomem ao completar treze anos. Também dizem que o sétimo filho de um sétimo filho se tornará um lobisomem, e ocorre ainda, quando um casal tem sete filhos homens, o sétimo é o lobisomem. Este poder ou maldição pode ou não pular uma geração e assim ser passado de avô para neto ou de avó para neta.

O fato é que existem várias maneiras de se tornar um lobo, e uma delas é nascer numa família Lupina.
A lenda do lobisomem é muito conhecida no folclore brasileiro, e assim como em todo o mundo, os lobisomens são temidos por quem acredita em sua lenda. Algumas pessoas dizem que além da prata o fogo também mataria um lobisomem e o fator esotérico é que a prata é um metal lunar e a lua por si é quem dá vida ao lobisomem. Um homem assassinado por uma bala de prata se tornaria não um morto, mas um lobisomem. Outras regiões acreditam que eles se transformam totalmente em lobos e não metade lobo metade homem.
Diz-se do mito romani que os Awenydd, Juvacanão, Bagata ou Kaku faziam uma poção de cogumelos para virarem Djukel ou Lovenito, ambos lobos/lobisomens na linguagem dos Zíngaros.


Quando a pessoa é branca, vira um cachorrão preto e quando é negro vira um cão branco. Alguns autores dizem que ele sai às madrugadas de sexta feira, em busca de ovos de galinha para alimentar-se, e por isso invade os galinheiros. Depois disso ele vai à busca de crianças de todas as idades para perguntar seus nomes, quem não souber falar, irá ouvir as seguintes palavras do lobisomem cigano: “Cavvi, av adré sasteem.Duvel, mi-duvve, tutti milos“ e depois é devorado. Se a vítima for vomitada em seguida, deve correr para o alto de uma colina ou montanha e pronunciar o ensalmo de frente pra lua, dizendo: “Youra, tikni youra si kolo, Sor si kolo”, caso contrário se tornará um lobisomem eternamente durante todas as últimas sextas feiras de lua cheia. Entre os Calón, dizem entre si que os ciganos mais velhos viram lobisomens quando a lua está fora de curso, e que eles viajam grandes distancias durante a noite, puxando a carruagem.

Lycaon_turned_into_wolf-Goltzius-1589.
Algumas lendas também dizem que se um ser humano for mordido por um lobisomem, e não o encontrar a cura até a décima segunda badalada desse mesmo dia ou noite, ficará lobisomem para toda a eternidade. No interior do estado de São Paulo, divisa com Minas Gerais, está localizada a cidade de Joanópolis, capital mundial do Lobisomem, com o maior número de avistamentos da fera registrados em uma só cidade até hoje, sendo que a segunda cidade com maior índice de aparecimentos é Ribeirão Preto, e quando se questionava acerca da razão da existência de tal coisa, as respostas eram unânimes: "As palavras dos batizados eram outras..." e mencionavam-se as razões conhecidas na lenda brasileira. Por vezes, quando as pessoas vinham de uma festa ou convívio, ou simplesmente vinham da horta, a pé ou de carroça, e estamos falando de 30 ou 40 anos atrás (ou mais), não raras vezes era ouvido um som repetitivo, como um trovão constante, de longe e associava-se isso aos lobisomens. Nas cidades menores ele batia nas portas e recebia uma colher de sal para ir embora em paz, caso contrário ele destruía a porta e a pessoa que não lhe deu a colher de sal.

Desde há alguns anos para cá que não se ouve falar de um caso desses, mas ainda perduram na memória as histórias que nos contavam quando pequenos, como a do homem que conversava com os seus amigos no café, e deixa escapar: "Como me custa subir a serra da Ladeira de noite, com patas…".
Há referências muito antigas do lobisomem também na Itália e em Portugal.

Aparece no Rifão de Álvaro de Brito (Cancioneiro Geral):
“Sois danado lobishomem, Primo d’Isac nafú; Sois por quem disse Jesus - Preza-me ter feito homem”. (Garcia de Resende, Excertos, por António Feliciano de Castilho, Livraria Garnier, Rio de Janeiro, 1865, p. 24).
É também mencionado no Vocabulario Português e Latino de Rafael Bluteau (tomo V, p. 195) e nos sonetos de Bocage:


“Profanador do Aónio santuário, Lobisomem do Pindo, orneia ou brama,
Até findar no Inferno o teu fadário!” (Bocage, Obras Escolhidas, primeiro volume, p.122).


Para quebrar seu encanto, em alguns casos, bastava que alguém fizesse nele um pequeno ferimento do qual saia pelo menos uma gota de sangue. Ou ainda, o acertasse com uma bala untada com cera de vela que queimou em 3 missas de domingo ou na Missa-do-Galo, na meia noite do Natal.

Uma outra tradição refere-se aos lobisomens assim: "Os lubis-homens são aqueles que têm o fado ou sina de se despirem de noite no meio de qualquer caminho, principalmente uma encruzilhada, dando cinco voltas, espojando-se no chão num lugar onde se espoja-se algum animal, e em virtude disso transformam-se na figura do animal. Esta pobre gente não faz mal a ninguém, e só anda cumprindo a sua sina, no que têm uma cenreira mui galante, porque não passam por caminho ou rua, onde haja luzes, senão dando grandes assopros e assobios para que se lhes apaguem, de modo que seria a coisa mais fácil deste mundo apanhar em flagrante um lubis-homem, acendendo luzes por todos os lados por onde ele pudesse sair do sítio em que fosse pressentido. É verdade que nenhum dos que contam semelhantes histórias fez a experiência". (A. Herculano, Opúsculos, Tomo IX, Bertrand, Lisboa, 1909, p. 176-177).

lobisomem
Diz a lenda portuguesa que quando uma mulher tem 7 filhas e o oitavo filho é homem, esse menino será um Lobisomem. Também o será, o filho de mulher amancebada com um Padre.
Sempre pálido, magro e com orelhas compridas, o menino nasce normal. Porém, logo que ele completa 13 anos, a maldição começa e ele ganha a companhia das Peeiras.

Peeira ou fada dos lobos é o nome que se dá às jovens que se tornam guardadoras ou companheiras dos lobos. Elas são a versão feminina do lobisomem e fazem parte das lendas de Portugal e da Galiza. A Peeira tem o dom de comunicar e controlar alcatéias de lobos, e no Brasil ela é chamada de Pereira. A Peeira é o daemon ou musa inspiradora dos Lupinos.

O lobisomem também é um corredor, sendo ele, um bruxo que tem que correr o fado. Em Bruxaria Tradicional, esta é a arte do Shapeshifting, a metamorfose bruxa, e o corredor é um ser mutante que pode assumir a forma de lobo, de cão ou outro animal. Quando se encontra um para quebrar o fado deve-se fazê-lo sangrar.


Na primeira noite de terça ou sexta-feira, depois do aniversário, ele sai de madrugada e vai até uma encruzilhada. Ali, no silêncio da noite, se transforma em Lobisomem pela primeira vez, e uiva para a lua.


Daí em diante, toda terça ou sexta-feira, ele corre pelas ruas ou estradas desertas com uma matilha de cachorros latindo atrás. Nessa noite, ele visita, sete partes da região, sendo um pátio de igreja, uma vila ou bairro, uma encruzilhada macho, uma encruzilhada fêmea, um cemitério, uma praça e uma casa. Por onde passa, zurze os cachorros e apaga as luzes das ruas e das casas, enquanto uiva de forma apavorante. Quem ouvir o som do uivo deve fazer a seguinte oração para que se for encontrado pelo lobo, este não faça um banquete consigo, mas busque um verdadeiro bandido para ser devorado, de acordo com os stregones Lupinos: “Io Evo He, condito mitis placidusque telo, supplices Audi pueros, Lupercus, Siderum Regina Bicornis, Luperca, Audi, Luna, puellas. Io Evo He!”.


Antes de o Sol nascer, quando o galo canta, o Lobisomem volta ao mesmo lugar de onde partiu e se transforma outra vez em homem. Quem estiver no caminho dele, nessas noites, também deve rezar três Ave-Marias para  não virar o prato principal.

Dizem que, para quebrar o encanto, é preciso chegar bem perto, após ter feito as orações, sem que ele perceba, e abraçá-lo por trás dizendo: “Lhe desejo a melhor das sortes!”, porém, se houver luta e a vítima for arranhada ou uma gota de sangue do Lobisomem atingir a pessoa, ela também virará Lobisomem, contudo, ninguém nunca sobreviveu para atestar o funcionamento disso.

Por Pio Aenéas
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